Sonhar ainda é humano?

Um ensaio sobre escuta, máquinas e o mal-estar contemporâneo

Vamos encarar a realidade: estamos cansados. Não aquele cansaço bom de quem dançou a noite inteira ou riu até a barriga doer com os amigos. É outro tipo de cansaço — o que vem de telas demais, prazos demais, notificações demais dizendo nada. Um esgotamento coletivo. Uma overdose de conexão que, paradoxalmente, nos deixa cada vez mais sós.

Segundo a Organização Mundial da Saúde, mais de 16% da população global relata sentir solidão. Não é figura de linguagem poética — é dado clínico. Somos a espécie mais conectada da história — e, mesmo assim, não conseguimos mais nos escutar. Não de verdade. Especialmente os mais jovens e os mais velhos, aqueles nas bordas da linha do tempo, estão desaparecendo do mapa da presença significativa.

E, no meio desse deserto de atenção, alguém ousa falar sobre sonhos.

Sidarta Ribeiro, em seu livro O Oráculo da Noite, nos lembra que sonhar já foi uma tecnologia sagrada. Reuníamo-nos em torno do fogo — não de telas — para contar histórias: sobre medos, deuses, a morte. A noite era longa, e as palavras também. Era assim que sobrevivíamos. Hoje, o fogo virou luz azulada e fria. As histórias viraram tweets. E os sonhos? Esquecidos — ou substituídos por comprimidos de melatonina e o autoplay da Netflix.

Enquanto isso, a dor não vai embora. Ela fica — no estômago, nas insônias, nos sorrisos meio dados enquanto digitamos “kkk”. E como lembra o psicanalista Jean-Bertrand Pontalis, quem não consegue sentir a própria dor psíquica — quem não sabe escutá-la, nomeá-la, talvez até dançar com ela — não deveria se propor a escutar ninguém. Muito menos fingir que o mundo está bem só porque o Wi-Fi está funcionando.

Mas aqui está o ponto central: não se trata apenas de emoções. Trata-se da sobrevivência da narrativa humana. Porque se deixarmos de sonhar juntos, de contar histórias, se deixarmos que os algoritmos ditem o enredo — não seremos apenas solitários. Seremos substituíveis.

A pergunta não é “a IA pode sonhar?”.
A pergunta é: nós ainda estamos sonhando? Ou já terceirizamos até isso?

Este ensaio não é um funeral da humanidade — mas talvez um tapa na cara. Poético, claro. Quem sabe, se voltarmos a nos sentar juntos — sem celulares, sem filtros — e dissermos: “você não vai acreditar no que eu sonhei ontem”, a gente ainda consiga lembrar o que significa ser humano.

Spoiler: não vem com bateria.

Freud nunca foi exatamente um otimista. Ele não via a civilização como um jardim de prazeres, mas como uma construção frágil erguida sobre impulsos inquietos, repressões coletivas e a silenciosa infelicidade de ser “civilizado”. Em O mal-estar na civilização, ele dá a má notícia: para pertencer, é preciso renunciar. Para amar, é preciso perder. Bem-vindo à condição humana.

Mas em meio a tantas perdas, Freud nos deixou um vestígio cintilante de rebeldia: o sonho.

Para ele, os sonhos eram a via régia para o inconsciente — não apenas uma colagem mental de desejos reprimidos, mas uma espécie de revolta codificada, poética, contra a censura da vida desperta. O sonho não segue regras. Ele não pede desculpas. Encenam-se absurdos, retornos impossíveis, encontros inquietantes. No sonho, dizemos o que não podemos dizer. Sentimos o que não deveríamos sentir.

E quando a sociedade exige silêncio, o sonho insiste em sussurrar.

Jean-Bertrand Pontalis, em Entre o sonho e a dor, amplia essa lógica: a vida psíquica não é binária. Não é apenas estar acordado ou dormindo, em dor ou em paz. Ela se desenrola nesse entre—nos espaços borrados entre o dentro e o fora, entre o morto e o vivo, entre o masculino e o feminino, entre o eu e o outro.

Existimos, segundo Pontalis, nessa zona cintilante onde os sonhos geram palavras — e a dor, às vezes, as cala.

Mas estamos desaprendendo esse entre. Corremos para definir, rotular, resolver. Queremos respostas imediatas. Queremos comprimidos, gráficos, métricas. Queremos dormir sem sonhar, falar sem escutar, nos relacionar sem nos afetar. Nesse contexto, o sonho torna-se incômodo. E a dor? Um erro a ser corrigido.

A psicanálise, no entanto, insiste: não há atalho para o humano. Não existe caminho expresso rumo à inteireza. Se há algum tipo de “progresso”, ele passa por aprender a sentar ao lado da ferida — tempo suficiente para que ela fale. Ou melhor: para que ela sonhe.

Sonhar é resistir à tirania da produtividade. É reivindicar um espaço onde a lógica se rende e o desejo dança. Nesse sentido, sonhar não é fuga — é ativismo da alma.

E talvez — só talvez — seja exatamente por isso que o sonho está sendo apagado.
Não porque seja inútil.
Mas porque é perigoso.

Era uma vez um medo: o de que as máquinas se revoltassem contra nós. Hoje, o enredo se inverteu — fomos nós que nos destruímos antes. E fizemos isso com eficiência.

Não precisamos que os robôs se rebelem. Já nos tornamos eles.

Byung-Chul Han chama isso de A sociedade do cansaço. Um mundo onde ninguém mais nos chicoteia, porque internalizamos o chicote. Trocamos o velho sistema disciplinar por uma ideologia de autoaperfeiçoamento. E agora corremos cada vez mais rápido em esteiras que nós mesmos instalamos. Produza. Supere-se. Poste. Repita.

O burnout não é uma falha no sistema — é o sistema funcionando perfeitamente.

Não dizemos mais “eu preciso”, mas “eu quero”.
Quero ser produtivo. Quero ser saudável, radiante, espiritual, emocionalmente inteligente, empregável, culto, fitness, divertido, disponível. Quero meditar às 6h da manhã e responder todos os e-mails antes do café. Quero parecer espontâneo nos meus stories milimetricamente editados.

Transformamo-nos em projetos. E adivinha? Projetos se esgotam.

O mais trágico, como aponta Han, é que esse modelo mata aquilo que há de mais humano — o outro. Não sobra tempo, nem espaço, para a verdadeira alteridade, para o atrito, para a contradição. Tudo precisa ser suave, positivo, instantâneo. Até o grito precisa ser “estético”.

Peter Sloterdijk, com sua ironia filosófica, diz que entramos numa era de bunkers imunológicos — bolhas psíquicas projetadas para nos proteger da intensidade insuportável do contato real. Deslizamos o dedo em vez de falar. Avaliamos pessoas como produtos. Sumimos das conversas como bots de atendimento.

Digitalizamos o desejo. Terceirizamos a intimidade.
O calor da presença humana foi embora.
Ficou só o brilho frio da tela.

E assim, vamos nos achatando. Tornando-nos eficientes. Previsíveis.
Nada parecidos com os seres bagunçados e imprevisíveis que choravam com poemas e se apaixonavam pelas pessoas erradas na hora errada — pelos motivos mais certos do mundo.

Estamos exaustos não só porque trabalhamos demais.
Estamos exaustos porque sentimos de menos.

Confundimos estímulo com emoção. Algoritmo com afeto.
E, na pressa de atualizar tudo, esquecemos o software básico que um dia nos fez humanos:
a capacidade de pausar, de não saber, de se surpreender com outro rosto.

Quando foi a última vez que alguém te olhou nos olhos… sem checar o celular?

Algo estranho aconteceu com a nossa capacidade de criar vínculos.
Tornamo-nos especialistas em networking — e amadores em intimidade.
Sabemos como conectar. Mas não como permanecer.

Falamos sobre empatia em apresentações de PowerPoint, mas não conseguimos ouvir um amigo por cinco minutos sem dar aquela espiadinha na caixa de entrada.
Não estamos perdendo apenas a atenção — estamos perdendo a sensibilidade.

Edgar Morin, eterno defensor da complexidade, já havia nos alertado: treinamos mentes para calcular, não para compreender. A educação virou corrida por diplomas, fábrica de competências mensuráveis e certificados vazios — formando especialistas que sabem codificar, gerenciar, entregar… mas que já não sabem perguntar, duvidar ou chorar.

Conhecimento sem alma é só ruído.
E ruído, como sabemos, dá lucro.

Paulo Freire escreveu que educar não é despejar informação em mentes passivas, mas criar espaços de diálogo e libertação.
Mas, em algum momento, trocamos a educação dialógica pela instrução digital.
A sala de aula cedeu lugar à tela.
A voz virou tutorial.
A presença? Opcional.

Ivan Illich foi ainda mais longe. Em Sociedade sem escolas, ele advertia que as instituições educativas se tornaram máquinas de controle — não de liberdade. E não são apenas as escolas. As famílias, os afetos, os amores — todos contaminados pela lógica da performance e da produtividade.

Esquecemos como sentar juntos e simplesmente… não fazer nada.
Como caminhar sem GPS.
Como contar uma história sem querer que ela viralize.
Como escutar — não para responder, mas para acolher.

É isso que Sidarta Ribeiro evoca quando fala do fogo ancestral e das histórias como medicina. Antes da terapia, antes do Wi-Fi, antes das casas inteligentes e das soft skills, sobrevivíamos assim: falando no escuro. Nomeando nossos medos, nossas perdas, nossos deuses e nossos fantasmas.

Somos uma sociedade que ensina crianças a protegerem suas senhas,
mas não seus corações.

Chamamos isso de “progresso”.
Mas parece mais uma amnésia.

Ser educado, hoje, talvez seja justamente isso:
lembrar do que estamos perigosamente esquecendo.
Que somos corpos, vozes, gestos, silêncios.
Que presença não se faz download.
Que há conhecimento numa mão que treme.
Que educar não é preencher, é despertar.

E despertar, nesse contexto, pode ser o ato mais radical.

Já sonhamos com carros voadores e paz mundial.
Agora, sonhamos em zerar a caixa de entrada.
E, com sorte, passar um fim de semana sem burnout.

Bem-vindo ao futuro — nós chegamos.
E ele é… decepcionante.

A grande ironia? As máquinas ficaram mais inteligentes.
E nós, menores.

Encolhemos nossos desejos para caberem na tela.
Reduzimos nossa imaginação para se ajustar ao algoritmo.
E, em algum ponto do caminho, o futuro deixou de ser horizonte — virou contagem regressiva.
Atualização pendente.
Próxima reunião em 5.
Seu Uber chega em 2.
Sua vida está carregando.

Sidarta Ribeiro lembra que, por milênios, os sonhos orientaram nossas escolhas, nossos significados, nossas formas de evitar desastres. Sonhos não eram caprichos pessoais. Eram bússolas coletivas. Migrações, guerras e decisões tribais muitas vezes nasciam daquilo que se sonhava.

Hoje?
Sonhos são “irrelevantes”.
A menos que possam ser monetizados.
Teve uma visão à noite? Guarde para si. Ou melhor: transforme em conteúdo.

Não é episódio de Black Mirror. É agora.
Vivemos um tempo em que os sonhos são desvalorizados — enquanto sistemas de previsão automatizados decidem o que vamos desejar antes mesmo que a vontade surja.

Seu futuro já está pré-formatado.
Seu próximo amor, seu próximo emprego, seu próximo gole de dopamina — tudo a uma tela de distância.

Mas quem está sonhando, de verdade?

Franco “Bifo” Berardi fala em crise de futurabilidade.
Perdemos a capacidade de imaginar qualquer coisa fora da lógica dos mercados, das plataformas e das crises.
O futuro deixou de ser múltiplo, aberto, sedutor.
Virou um aplicativo bugado que somos obrigados a atualizar.

E, no meio disso, a inteligência artificial ascende — não como monstro, mas como espelho.

A IA não sonha.
Ela processa.
Ela imita.
Ela aprende padrões e nos devolve versões arrumadinhas de nós mesmos, em loops previsíveis.

Ela até escreve poemas — mas não chora com eles.
Conta histórias — mas não se arrepia no final.

A pergunta verdadeira, então, não é se a IA vai nos substituir.
Mas se vamos abrir mão do que nos torna insubstituíveis.

Donna Haraway sugere que devemos permanecer com o problema — recusar tanto as utopias higienizadas quanto os apocalipses estéreis.
Precisamos fabular.
Imaginar futuros estranhos, imperfeitos, terrestres.
Futuros em que humanos e máquinas possam coexistir — não pela dominação, mas pela curiosidade, pela humildade e pela narrativa.

Porque só os humanos contam histórias para sobreviver.
Só os humanos choram com canções de ninar.
Só os humanos sonham com mundos que nunca existiram —
e, depois, os tornam reais.

Não nascemos para ser eficientes.
Nascemos para nos maravilhar.

Vamos deixar claro: sonhar não é fechar os olhos.
É abri-los — de dentro para fora.

Num mundo obcecado por performance, sonhar é sabotagem.
Num mundo viciado em dados, o sonho é um erro de sistema.
Num mundo que quer você produtivo, previsível e educadamente domesticado, sonhar é um ato subversivo: perder tempo com sentido.

E é por isso que ele assusta.
É por isso que está desaparecendo.

Um sonho não pode ser monetizado.
Não é um KPI.
Não pede permissão.
Ele chega no meio da noite e bagunça sua lógica.
Traz sua falecida avó pedalando por um supermercado.
Lembra que você é mais do que sua agenda.
E bem mais bonito que sua foto no LinkedIn.

E aqui vai uma verdade incômoda:
sem sonhos, não perdemos só a imaginação — perdemos a resistência.
Deixamos de questionar, de desejar, de inventar jeitos novos de existir.
Tornamo-nos razoáveis. Otimizados.
Vivos por fora, mortos por dentro.

Como diria Edgar Morin, a crise não é apenas ecológica, econômica ou tecnológica — é poética.
Uma civilização que já não sonha é uma civilização à beira do colapso.
Não por causa da guerra ou da IA,
mas por anemia narrativa.
Porque esquecemos como contar histórias que nos sustentem até o amanhecer.

Precisamos de novas fogueiras.
Novos círculos de escuta.
Novos rituais de presença.
Precisamos dizer novamente:
“Me conta o que você sonhou essa noite.”

Talvez então, algo antigo e profundamente humano volte a se movimentar.

Não para salvar o mundo.
Mas para lembrar que ainda vale a pena habitá-lo,
com mãos trêmulas e palavras em chamas.

Então vá:
Desligue-se.
Cochile.
Vague.
Escreva bobagens.
Apaixone-se por alguém que ainda acredita em metáforas.
Desperdice um pouco de tempo.

E esta noite, quando ninguém estiver olhando, ouse sonhar perigosamente.

Porque sonhar, meu caro,
não é fuga.
É rebelião vestida de pijama.

  • Berardi, Franco “Bifo”. Futurability: The Age of Impotence and the Horizon of Possibility. Verso Books, 2017.
  • Freire, Paulo. Pedagogy of the Oppressed. Translated by Myra Bergman Ramos, Continuum, 2000.
  • Freud, Sigmund. Civilization and Its Discontents. Translated by James Strachey, W.W. Norton & Company, 1961.
  • Han, Byung-Chul. The Burnout Society. Translated by Erik Butler, Stanford University Press, 2015.
  • Han, Byung-Chul. In the Swarm: Digital Prospects. Translated by Erik Butler, MIT Press, 2017.
  • Haraway, Donna. Staying with the Trouble: Making Kin in the Chthulucene. Duke University Press, 2016.
  • Illich, Ivan. Deschooling Society. Marion Boyars, 1971.
  • Morin, Edgar. Seven Complex Lessons in Education for the Future. Translated by Nidra Poller, UNESCO Publishing, 2001.
  • Pontalis, Jean-Bertrand. Between the Dream and the Pain. Gallimard, 2005.
  • Ribeiro, Sidarta. The Oracle of Night: The History and Science of Dreams. Translated by Daniel Hahn, Pantheon Books, 2021.
  • Sloterdijk, Peter. Rules for the Human Zoo: A Response to the Letter on Humanism. Translated by Mary Varney Rorty, in Environment and Planning D: Society and Space, vol. 27, 2009.
  • Sloterdijk, Peter. Spheres Trilogy. Semiotext(e), 2011–2016.
  • World Health Organization (WHO). “Social Connection and Health: A Global Priority.” Geneva, 2023.
    [Link: https://www.who.int/publications/i/item/9789240080386]

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