Estações
O tempo amadurece em nós aquilo que ainda não sabemos perder. Entre a nudez dos ramos e o rumor das primeiras flores, alguma coisa permanece sem conservar a mesma forma. Atravessamos as estações com essa íntima estranheza: reconhecer no que germina a vida que julgávamos já ter deixado para trás.
Resident Alien: um alienígena entre alienados
Temos visita. Harry veio exterminar a humanidade, mas começou a gostar de gente e anda atrapalhando o próprio serviço. Sirvam alguma coisa ao rapaz antes que ele pergunte por que tanta gente precisa pedir desculpas por precisar de alguém. Quem aqui consegue defender a espécie sem mencionar o próprio currículo?
Blues para quem aprendeu a sofrer direito
Os derrotados de Cazuza agora chegam cedo, batem metas e agradecem pela oportunidade. Usam relógios que fiscalizam o sono e aplicativos que ensinam a respirar. Pedir piedade ficou fora de moda; funcionar rende mais. Falta descobrir onde está essa gente careta e covarde quando o camarote começa a pegar fogo.
A série “Sessão de Terapia” e o tempo que uma análise exige
O que significa fazer terapia quando até o sofrimento precisa se tornar produtivo? *Sessão de Terapia* leva o consultório à tela, mas a análise se desenrola fora dos prazos da televisão. Em um mundo acelerado por milhões de bytes, escutar-se não seria resistir à transformação da experiência humana em mercadoria?
A vida que perdemos tentando não perder tempo
Parabéns: você transformou o sono em nota, o corpo em projeto, o amor em investimento e a intimidade em avaliação de desempenho. Chama isso de liberdade porque ninguém segura a chave. Ninguém precisa. O cativeiro funciona melhor quando o prisioneiro administra a agenda e agradece pela autonomia que lhe concederam.
Backrooms: a estranha arquitetura da repetição
Clark encontra no porão da loja uma passagem para corredores sem fim e desaparece. Mary, sua terapeuta, vai atrás. A busca já não diz respeito apenas a Clark. Ao entrar no labirinto de outra pessoa, quanto de nós permanece do lado de fora? E quem garante que existe uma saída?
O que perdemos para nos tornarmos homens?
Há homens que passam a vida defendendo uma fortaleza erguida antes que pudessem escolher. Do lado de fora, chamam isso de força; por dentro, acumulam medo, silêncio e desejo de amor. A questão não está apenas em quem construiu os muros, mas em quem continua a vigiá-los e por quê.
A gramática da insuficiência
Quem decidiu que um dia ruim poderia dizer tanto sobre quem você é? Às vezes, estamos apenas cansados, confusos, precisando de mais tempo. Ainda assim, corremos para encontrar uma explicação que nos condene. E se isso que chamamos de fracasso for uma parte de nós pedindo um pouco de ar?
Há amor no fim do túnel?
Um homem mata uma mulher e, depois, tenta convencer o mundo de que a verdadeira vítima era ele. Entre o que María cala e o que Castel inventa, Sábato deixa aberta uma pergunta incômoda: o amor termina quando o outro nos escapa ou é justamente aí que poderia enfim começar?
O quarto enigma de Turandot
E se o amor celebrado em *Turandot* escondesse uma conquista muito bem orquestrada? Entre enigmas, recusas, tortura e silêncio, Puccini conduz o público até uma palavra que parece resolver tudo. Mas Liù morre antes de ouvi-la, e o compositor se cala. O que, afinal, a música nos convenceu a aceitar?
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