Na segunda-feira, chegou a cadeira.
Veio numa caixa grande, dessas que entram em casa com ar de desafio físico, moral e levemente burocrático. Junto dela, claro, veio o manual de instruções: desenhos enigmáticos, setas confiantes, parafusos miúdos, arruelas, uma chave Allen e aquela promessa silenciosa de que qualquer adulto minimamente respeitável deveria montar tudo em quarenta minutos.
Eu provavelmente conseguiria.
Cresci num mundo em que certas tarefas vinham grudadas ao masculino como selo de autenticidade: trocar chuveiro, trocar pneu, consertar tomada, carregar peso, montar móvel, abrir pote difícil e fingir serenidade diante de fios elétricos. Havia uma espécie de pedagogia doméstica do macho funcional: o homem não pergunta, o homem resolve. Mesmo quando resolve com risco de curto-circuito, dor lombar e três peças sobrando no final.
Aprendi algumas dessas coisas. Sei trocar um chuveiro. Sei me virar com pequenos reparos. Sei olhar para um manual e entender, sem grande tragédia, que a peça B deve entrar na peça C antes que o encosto seja preso à base giratória.

Ainda assim, paguei alguém para montar a cadeira.
Pronto. O escândalo ergonômico.
Para certa sensibilidade masculina, terceirizar uma montagem parece quase uma renúncia simbólica. Como se cada parafuso não apertado pelas próprias mãos retirasse pontos de uma carteira imaginária de virilidade. Como se a masculinidade estivesse escondida ali, entre uma arruela, uma chave Allen e a necessidade dramática de dizer: “deixa comigo”.
Mas meu dilema era bem menos épico. Olhei para a cadeira desmontada, olhei para o relógio, olhei para os livros na mesa, para os textos inacabados, para o trabalho, para a vida seguindo seu expediente indiferente, e pensei: hoje não.
Não por incapacidade. Por critério.
Há uma diferença importante entre saber fazer, não saber fazer e não estar interessado em transformar uma chave Allen em exame de caráter. E, francamente, nem deveria ser obrigatório saber. Ninguém deveria ter sua masculinidade auditada por um manual de montagem, um chuveiro queimado ou um pneu murcho. Parece simples, mas ameaça muita pose. Parte do orgulho masculino foi construída justamente nessa confusão: transformar habilidade prática em identidade moral. O sujeito não apenas monta a cadeira. Ele precisa sentir que, ao montá-la, reafirma alguma coisa diante do tribunal invisível dos outros homens.
E, de preferência, ainda comenta depois.
Eu, francamente, prefiro usar essa hora lendo um bom livro, escrevendo uma ideia, trabalhando, descansando ou até praticando essa atividade tão subversiva quanto malvista: não fazer nada sem culpa. Há destinos mais interessantes para uma tarde do que ajoelhar no chão da sala, lutando contra um encosto torto, apenas para provar fidelidade ao clube ancestral dos apertadores de parafuso.
A cadeira ficou ótima.
Foi montada por alguém que sabia o que estava fazendo, em menos tempo, com mais precisão e sem transformar a operação num rito iniciático da masculinidade doméstica.
No fim, ganhei uma cadeira firme, uma hora preservada e nenhuma crise de identidade.
O que talvez seja pouco para os guardiões da virilidade manual.
Para mim, foi apenas uma boa negociação com o tempo. E, convenhamos, diante de tanta masculinidade desconfortável, isso já é uma pequena vitória ergonômica.



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