Era dia de apresentação de trabalho, esse pequeno ritual universitário em que alguns alunos ensaiam uma segurança recém-fabricada, outros descobrem a função filosófica do PowerPoint, e a turma inteira aprende que quinze minutos podem durar uma estação geológica.
A professora, naquele dia, decidiu se sentar numa carteira ao fundo da sala. Posição estratégica. Dali, podia acompanhar a apresentação e, ao mesmo tempo, vigiar a paisagem moral da turma: quem prestava atenção, quem conversava, quem fingia anotar, quem olhava pela janela como se ali fora houvesse uma vida possível. Estava tudo sob seu campo de visão. A sala, os alunos, os gestos, os cochichos, os bocejos discretos. Uma espécie de torre de controle acadêmica, só que sem fones de ouvido e com bibliografia obrigatória.
Em certo momento, bateram à porta.
Um dos alunos que apresentava o trabalho interrompeu sua fala, caminhou até a entrada e abriu. Era a coordenadora do curso. Trazia nas mãos um envelope. Pediu licença pela interrupção com aquela delicadeza burocrática de quem acredita estar apenas atravessando uma sala para entregar um documento. Mal sabia ela que carregava consigo uma pequena bomba tipográfica.
A coordenadora atravessou a sala, foi até o fundo, entregou o envelope à professora e começou a voltar em direção à porta. Tudo indicava que o episódio terminaria ali, como terminam tantas cenas administrativas: sem glória, sem drama, sem rodapé.
Mas a universidade, quando quer, tem vocação para ópera.
Quando a coordenadora estava prestes a cruzar a porta, ouviu seu nome ser chamado em alto e bom som. A professora segurava o envelope como quem exibe a prova material de um atentado à ordem simbólica.

Disse, diante de todos:
— Essa daqui não sou eu. Está escrito Prof. Ms. Fulana de Tal. Cadê o Dra.?
A sala inteira parou.
Não foi um silêncio qualquer. Foi um silêncio com pós-graduação. Um silêncio constrangido, espesso, daqueles que parecem pedir para ser citado em congresso. Ninguém sabia exatamente para onde olhar. O aluno que apresentava o trabalho provavelmente esqueceu o próprio tema. A coordenadora, com uma paciência que mereceria menção honrosa em ata, caminhou de volta até o fundo da sala e recolheu o envelope.
O envelope, mero pedaço de papel, havia errado o grau da nobreza.
Não se tratava de uma falha qualquer. Faltavam três letras. Três letras e um ponto. Um pequeno “Dra.” ausente, capaz de transformar um simples documento em desacato ontológico. A professora havia conquistado recentemente o título de doutora. Um ou dois meses antes, se a memória não me trai. E títulos acadêmicos, convenhamos, não caem do céu. Custam anos de leitura, pesquisa, prazos, bancas, noites mal dormidas, revisões intermináveis, cafés ruins e aquela convivência íntima com a dúvida que todo pesquisador conhece bem.
Um doutorado não é pouca coisa.
O problema estava menos no título e mais na cena. Ou melhor: estava no modo como o título, recém-adquirido, parecia precisar ser defendido publicamente diante de um envelope. Havia ali uma desproporção deliciosa. Uma solenidade ferida por papel timbrado. Uma identidade inteira convocada para responder a uma ausência gráfica.
Afinal, o que exatamente havia sido entregue naquela carteira ao fundo da sala? Um envelope errado ou um espelho rachado?
A pergunta “Cadê o Dra.?” ficou ecoando em mim por muito mais tempo do que a apresentação daquele dia. Já nem me lembro do tema do trabalho. Lembro da frase. Lembro do silêncio. Lembro da coordenadora voltando para buscar o envelope como quem recolhe um objeto radioativo. Lembro daquela sensação coletiva de que tínhamos assistido a uma aula paralela, dessas que não aparecem no plano de ensino.
A universidade é um lugar curioso. Ensina pensamento crítico, desde que a crítica não encoste demais nos crachás. Fala-se muito em saber, formação, pesquisa, transmissão, mas a vida acadêmica também possui sua pequena corte. Há títulos, rituais, precedências, formas de tratamento, assinaturas longas, abreviações preciosas. Um nome, dependendo da ocasião, precisa atravessar a sala escoltado por suas condecorações.
Prof. Ms.
Prof. Dr.
Profa. Dra.
Pós-doc., se o ego acordar ambicioso.
Há quem carregue o título com a discrição de quem sabe o que fez. Há quem precise anunciá-lo como sirene. E há, entre esses dois extremos, uma humanidade inteira tentando não desaparecer atrás do próprio nome.
A cena, vista com alguma crueldade honesta, era engraçada. Muito engraçada. Um envelope havia falhado em reconhecer uma ascensão acadêmica recém conquistada, e isso bastou para suspender a apresentação, a aula, a respiração dos alunos e, por alguns segundos, a dignidade do ambiente. Era como se o papel tivesse cometido uma gafe imperdoável num baile da aristocracia curricular.
Mas a cena também tinha algo de triste.
Todos nós temos algum “Dra.” escondido. Alguma palavra que gostaríamos de ver antes, depois ou em torno do nosso nome. Doutor, professor, escritor, artista, analista, especialista, fundador, pesquisador, referência, autoridade, alguém. Há sempre um pequeno brasão imaginário que desejamos ver reconhecido pelo mundo. Em alguns dias, ele aparece num currículo. Em outros, numa legenda de Instagram. Às vezes, surge no modo como esperamos ser apresentados em uma mesa, lembrados por um amigo, citados por um colega, procurados por alguém que amamos.
Queremos ser vistos. A questão se complica quando o reconhecimento deixa de nos acompanhar e passa a nos substituir.
O título pode nomear uma conquista real. Pode organizar uma função, indicar uma trajetória, situar alguém num campo de saber. O empobrecimento começa quando ele vira prótese narcísica, muleta identitária, crachá colado à pele. Nesse ponto, já não basta ter feito o percurso. É preciso que o envelope saiba. É preciso que a porta saiba. É preciso que a turma inteira saiba. E, se possível, em voz alta.
A professora tinha direito ao título. Isso nunca esteve em questão. A pergunta que aquela cena deixou, com seu humor involuntário e seu constrangimento pedagógico, era outra: que parte de nós se sente apagada quando o mundo nos chama por um nome menor do que aquele que imaginamos merecer?
Não se trata de reduzir a professora àquela cena, nem de transformar seu gesto em caricatura. Seria pobre demais. Uma vida inteira não cabe num envelope, assim como uma vaidade momentânea não resume uma pessoa. Ainda assim, havia ali uma desproporção difícil de ignorar. O que tornou aquele instante tão marcante não foi apenas o constrangimento, nem somente a teatralidade da correção pública. Foi a humanidade meio desajeitada que apareceu no meio da formalidade. O ridículo dos outros nos captura porque, quando olhamos com um pouco mais de honestidade, percebemos nele uma versão possível de nós mesmos.
A professora perguntou “Cadê o Dra.?”, mas poderia ter perguntado outra coisa:
Cadê o reconhecimento?
Cadê a reverência?
Cadê a prova de que eu cheguei lá?
Cadê o mundo confirmando a imagem que fiz de mim?
A coordenadora recolheu o envelope. A apresentação deve ter continuado, embora eu não me lembre. O aluno provavelmente retomou a fala de algum ponto incerto, tentando reencontrar a linha perdida. A sala voltou aos seus lugares. A professora, imagino, permaneceu ao fundo, agora devidamente ferida por um erro de impressão.
Eu, por minha vez, saí daquele dia com uma pequena aula guardada.
Às vezes, uma instituição inteira cabe numa abreviação. Às vezes, uma vaidade inteira também. E há momentos em que a vida, com sua ironia econômica, nos entrega apenas um envelope para mostrar que a distância entre o reconhecimento legítimo e o desejo de majestade pode ser menor do que três letras e um ponto.


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