Certo e Errado: uma pequena teoria sobre uma lembrança equivocada

Lá estava eu, calouro na faculdade, surfando na onda da arrogância juvenil e do excesso de cafeína, quando uma conversa banal virou um tapa filosófico bem dado.

Tudo começou inocentemente: um papo no corredor com uma colega de turma, comentando sobre a última aula com o Professor X (aquele tipo clássico — intelectualmente intimidador, mas com uma dose de estranhamento social que faz a gente se sentir em casa). Mencionei uma atividade que, segundo minha lembrança, ele tinha feito na semana passada. Ela franziu a testa: “Não. Isso foi há duas semanas. Na passada, teve a discussão em grupo sobre a teoria Y.”

Ri com a confiança de quem grifou mentalmente aquele evento com marcador neon. “Tenho certeza. Foi semana passada. Positivo absoluto.”

Ela balançou a cabeça com a mesma firmeza. E aí o orgulho entrou em cena. Fizemos uma aposta. Nada de dinheiro — só honra (o que, sejamos sinceros, custa bem mais caro).

Quando o professor chegou, atacamos como dois advogados em julgamento.
“Professor, só pra resolver uma dúvida… o que aconteceu na aula da semana passada?”

Ele parou. Pensou. E confirmou, com tranquilidade, o que minha colega havia dito.

Pah! Um choque de realidade. Eu estava errado. Claramente, totalmente, vergonhosamente errado.

Mas o mais estranho: não me senti apenas enganado. Me senti traído — pelo meu próprio cérebro. Como se meus neurônios tivessem conspirado contra mim. Minha memória tinha dado um golpe. Minha noção de tempo virou aquele amigo que diz “tô chegando” enquanto ainda está no banho.

E aí veio o estralo: se eu podia estar tão certo de algo tão simples — e mesmo assim, estar completamente enganado — o que mais será que eu lembro errado? Quanto daquilo que chamo de “realidade” não passa de uma alucinação confortável que aprendi a habitar?

Porque sejamos honestos: a memória escorrega, o tempo prega peças, e a mente… bom, a mente tem vida própria.

Então se prepare. Isso aqui não é só sobre uma aposta perdida. É sobre percepção, distorção — e por que, no fim das contas, errar pode ser a coisa mais verdadeira sobre nós.

Vamos falar sobre certeza — aquela sensação morna e arrogante que dá quando a gente “sabe” que está certo. Aquela convicção que alimenta discussões de bar, brigas em jantares de Natal e apostas acadêmicas em corredores de faculdade. Deliciosa, né? A certeza faz você parecer mais alto, mais inteligente, temporariamente à prova de balas.

Mas aqui vai a parte incômoda: estar certo não é prova de que algo é verdade — é só uma sensação muito convincente.

Freud, o pai do inconsciente, sabia bem disso. Pra ele, memória não era um fichário de fatos, mas sim um quarto bagunçado de adolescente — com coisas jogadas por todo lado, perfumes do passado e uma dose de culpa no ar, distorcendo tudo.

No texto “Recordar, Repetir e Elaborar”, Freud mostra que muitas vezes repetimos o que não lembramos direito. O passado volta, não como foi, mas como gostaríamos que tivesse sido — ou como mais tememos que tenha sido. O que chamamos de memória é uma colagem de percepções, fantasias, desejos, traumas e restos de café da manhã.

Ou seja: seu cérebro não é um historiador. É um ficcionista. E às vezes, nem muito bom.

Bion, o psicanalista britânico mais esotérico da turma, foi além: ele dizia que os pensamentos existem antes mesmo de termos estrutura para pensá-los. Precisamos de um “aparato de pensar” — algo que se constrói conforme aprendemos a tolerar a frustração e a incerteza. Quando não damos conta do desconhecido, nos agarramos a conclusões precoces, certezas falsas, aqueles momentos de “Eureka!” que logo viram “Ops…”

Na aula, eu não defendia só uma lembrança — defendia um modo de existir: eu sou alguém que sabe das coisas. A ideia de estar errado não era só incômoda. Era ameaçadora.

Porque, no fundo, a gente se apega à certeza não porque ela é verdadeira, mas porque ela dá segurança.

O problema? Quanto mais certos estamos… maior a chance de estarmos viajando.

Preciso te contar uma coisa: o tempo mente.

Não o do relógio — esse é só antipático. Falo do tempo interno: aquele que mora no peito, enrola no estômago, estica ou encolhe conforme o que a gente sente. Esse tempo é artista. E, como todo artista, detesta lógica. Só se interessa por intensidade.

Um minuto pode parecer uma eternidade ouvindo musiquinha de espera no telefone. E um fim de semana apaixonado? Vira um sopro. Não é só poético — é neurológico, emocional, profundamente humano.

Bion não media o tempo em horas — mas em digestão emocional. Pra ele, o pensamento precisa de tempo pra amadurecer, ganhar forma, virar algo pensável. Mas se o continente emocional for frágil, o tempo implode.

Por isso tem gente que vive presa num instante de décadas atrás, enquanto outras esquecem o que fizeram ontem. O tempo psíquico é elástico: trauma o congela, desejo o acelera, repressão o apaga.

A Gestalt também tem algo a dizer: aquilo que “salta aos olhos” (a figura) depende do fundo. Só que esse fundo muda. O que hoje te parece importante, amanhã desaparece. O tempo bagunça a percepção como um músico de jazz bagunça o compasso — de modo caótico, mas cheio de vida.

No fim, quando jurei que aquela atividade aconteceu na semana passada, o que eu confundia era intensidade emocional com cronologia. Como foi marcante, parecia recente. Como mexeu comigo, parecia agora.

Mas é assim que funciona o luto. O amor. A vergonha. E nenhum deles usa calendário.

Talvez a gente não apenas viva no tempo — talvez a gente sonhe nele, distorça, dobre, como luz através do prisma da memória.

E talvez isso não seja uma falha no sistema.
Talvez isso seja o sistema.

Vamos simplificar: o que percebemos não é o mundo — é a versão que conseguimos suportar dele.

Você não vê as coisas como elas são. Você vê como você é. Às vezes, como era aos cinco anos. Ou como sua mãe precisava que você fosse. Ou como seu superego exige que você finja ser.

Bem-vindo ao teatro da realidade psíquica — onde a percepção se fantasia, a memória improvisa e ninguém senta onde deveria.

Freud sabia: o que você acredita que aconteceu, o que fantasia, o que teme, o que reprime — não é ficção. É estrutura. Pode achar que está fugindo do ex… mas está mesmo é fugindo da decepção da sua mãe na terceira série.

Bion aperta ainda mais o parafuso: pensamentos podem existir antes que possamos pensá-los. Quando não conseguimos processá-los, eles vazam. Se infiltram na percepção. Viram “realidade”. Projetamos no mundo uma espécie de PowerPoint psíquico que todos têm que assistir.

Já sentiu raiva de alguém só porque ele “te olhou estranho”, e depois percebeu que nem era com você? Parabéns. Você confundiu sua ansiedade com a sobrancelha alheia.

Na aula, eu não apenas lembrei errado. Eu percebi errado. Porque minha necessidade de ter razão, de parecer competente, de ser visto como confiável — tudo isso coloriu o que achei que vivi.

A realidade psíquica não é um erro.
É o próprio palco.

Vamos ser claros: eu não apostei só numa lembrança.
Apostei em mim mesmo.

E essa é a aposta mais perigosa de todas — porque quando você perde, não é só o fato que errou. É a imagem de si que leva o golpe.

Quando insisti na minha versão, eu não defendia um evento. Defendia uma identidade: o cara que sabe. Meu ego entrou em cena como jogador de pôquer, apostou todas as fichas e piscou: “Confia.” Mas o inconsciente já tinha manipulado o baralho.

Freud chamaria isso de formação de compromisso. Um pouco de desejo, um pouco de medo, uma pitada de narcisismo — tudo servido como certeza.

O inconsciente não se importa com a verdade. Ele quer satisfação. Se for preciso fabricar uma lembrança pra proteger o ego? Que seja.

Bion, com sua elegância críptica, diria que eu estava evacuando verdades emocionais intoleráveis — como incerteza, vulnerabilidade, vergonha — ao me agarrar na ilusão de estar certo. A aposta era contra a dúvida. E a dúvida não era sobre a aula — era sobre mim.

E o inconsciente? Esse nunca deixa de apostar. Joga com percepções, relações, sonhos, sintomas, silêncios. Faz apostas pelas nossas costas e depois finge surpresa quando acordamos na cama de outra teoria.

Perdi a aposta, sim.
Mas ganhei uma espécie estranha de lucidez: toda certeza é um blefe.

E talvez tudo bem. Talvez sejamos todos apostadores psíquicos, blefando em jantares, sessões de terapia e encontros de elevador, torcendo pra que ninguém descubra.

O inconsciente joga pesado.
Mas pelo menos, joga com bom humor.

E é isso.

Uma aposta perdida, um ego machucado e um episódio de sala de aula que deveria ter evaporado… virou auditoria existencial. Tudo porque eu errei a data de uma atividade. Não errei Nietzsche. Não errei quem amo. Só… errei uma lembrança besta.

Mas essa pequena rachadura abriu um abismo.

A verdade desconcertante e linda é:

Errar não é exceção. É o padrão.

E o fato de passarmos a vida fingindo o contrário é… fofo. Até comovente. A gente se agarra às certezas como crianças no banco de trás com um volante de brinquedo, achando que está dirigindo. Enquanto isso, a realidade está ao volante — e de vez em quando nos joga pela janela só pra manter as coisas interessantes.

No fundo, não “lembramos” do passado — negociamos com ele.
Cada lembrança é um exercício de licença poética.
Cada certeza, um remendo sobre um buraco psíquico.

Toda vez que você diz “tenho certeza”, o universo dá uma risadinha e começa a preparar sua próxima lição de humildade.

E talvez isso não seja uma vergonha.
Talvez isso seja o sentido de tudo.

Talvez o que nos faz humanos não seja nossa memória ou nossa lucidez — mas nossa incrível capacidade de transformar bagunças psíquicas em sentido. De reescrever o passado só pra não explodir por dentro. E, às vezes, até dar risada da própria tragédia.

Então, um brinde ao erro.
Ao tempo distorcido, à realidade mal percebida e às belas ilusões que chamamos de verdade.

E da próxima vez que for apostar na sua memória?

Não aposte.

Aposte na sua capacidade de se surpreender.
Aí, pelo menos, você sempre ganha alguma coisa.


  • Bion, W. R. (1962). Learning from Experience. London: Heinemann.
  • Freud, S. (1914). Remembering, Repeating and Working-Through. In The Standard Edition of the Complete Psychological Works of Sigmund Freud, Vol. 12.
  • Perls, F., Hefferline, R., & Goodman, P. (1951). Gestalt Therapy: Excitement and Growth in the Human Personality. New York: Julian Press.
  • Koffka, K. (1935). Principles of Gestalt Psychology. London: Lund Humphries.

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