Amizades em extinção?

Um ensaio sobre laços, solidão e os sentimentos que nos mantêm vivos

Recentemente, em uma aula de conversação em francês, o tema da amizade veio à tona. Para aprofundar a discussão, a professora sugeriu um vídeo provocativo do criador de conteúdo francês Hugo Décrypte. Nele, uma pergunta ficou no ar e ecoou além da tela:

“Por que temos cada vez menos amigos?”

A pergunta parece simples, quase banal. Mas sejamos honestos: quantas pessoas conseguiriam respondê-la sem engolir um pequeno silêncio?

Enquanto isso, a Organização Mundial da Saúde alerta que a solidão se tornou uma epidemia silenciosa. Cerca de 16% da população mundial relata sentir-se cada vez mais isolada.

Dezesseis por cento. Isso não é uma estatística, é uma multidão invisível sentada sozinha em cafés, olhando para o celular e se perguntando se se tornaram insuportáveis — ou apenas um pouco desinteressantes.

Num mundo onde podemos mandar uma selfie para o outro lado do planeta em segundos, por que é tão difícil ligar para alguém que mora na rua ao lado?

A amizade, antes considerada uma arte nobre da humanidade, parece estar saindo de moda. Estamos todos muito ocupados, muito cansados, muito conectados. Mas quase nunca com alguém. O amigo vira uma aba esquecida do navegador, uma mensagem visualizada há três dias, respondida com um áudio que começa com: “Desculpa a demora, estou numa correria”.

Tradução: Eu não sabia o que dizer… e talvez não quisesse me sentir próximo.

Este ensaio é um convite à pausa e à pergunta:

O que é, de fato, a amizade?
Por que está cada vez mais difícil construí-la e sustentá-la?
Estamos nos tornando alérgicos à conexão — ou apenas mal treinados na arte, lenta e imprevisível, de estar com o outro?

E, mais importante ainda:
Será que a amizade ainda é possível num mundo que nos ensina a ser o centro de tudo o tempo todo?

Vamos começar do começo. Não o das suas amizades, mas da ideia de amizade em si. Para isso, voltamos à Grécia Antiga — onde as pessoas tinham tempo para pensar, andar de toga e inventar a filosofia.

Aristóteles, mestre em classificar tudo (e aparentemente alheio à ideia de frases curtas), definiu três tipos de amizade:

  • Por utilidade – quando gostamos de alguém porque é útil.
  • Por prazer – quando gostamos porque a pessoa é divertida.
  • Por virtude – quando gostamos simplesmente porque a pessoa é boa, e estar com ela nos torna melhores.

Esse terceiro tipo, segundo ele, era o mais raro. A amizade entre iguais, livre de interesses, onde o bem-estar do outro importa tanto quanto o próprio.

Séculos depois, na França do século XVI, Montaigne resumiu o amor pelo amigo La Boétie com uma frase famosa:
“Porque era ele, porque era eu.”
Sem razão, sem lógica. Uma amizade nascida de algo misterioso e profundamente íntimo. Ele poderia ter dito: “Não pergunte. Ele era o meu lar.”

Hoje, ainda ansiamos por esse tipo de conexão — mas nossos algoritmos parecem jogar contra. Vivemos para otimizar, monetizar, autopromover. E a amizade?
A amizade não viraliza.
Não dá curtidas.
Não escala.

Pior: ela exige lentidão, vulnerabilidade, presença — repetida, silenciosa, constante.

Então talvez a pergunta não seja só o que é amizade, mas:
Ainda sabemos ser amigos?
Não seguidores, aliados, apoiadores. Mas amigos — aqueles seres generosos que seguram nosso silêncio, riem das nossas piadas ruins, e continuam por perto mesmo quando nos tornamos meio insuportáveis.

Num mundo obcecado por performance, talvez a amizade seja a última inutilidade que vale a pena defender.

Nunca estivemos tão conectados — e tão sós.

Nossos aparelhos apitam o dia inteiro. Curtimos, reagimos, repassamos, mandamos emojis com dedicação. Mas, à noite, um vazio estranho aparece e pergunta:
“Quem realmente te conhece?”

Como já dito, 16% das pessoas no mundo se sentem mais solitárias do que há poucos anos. Isso não é um dado discreto — é um sintoma alto e dolorido de uma febre social.

Zygmunt Bauman chamou isso de modernidade líquida — tudo escorre rápido, nada permanece. Relações evaporam ao menor sinal de incômodo. Laços não são cultivados, são consumidos. Começam com entusiasmo e terminam com silêncio. Sem briga, sem drama. Só um unfollow discreto.

Já o filósofo Byung-Chul Han vai além: vivemos na sociedade da transparência, obcecada por exposição, produtividade e performance. Mas amizade requer opacidade. Mistério. Tempo.

Tempo de estar. De permanecer. De falhar junto e, mesmo assim, voltar.

Mas quem tem tempo hoje?

Na era da pressa, a lentidão virou quase erótica. Estar com alguém, sem agenda ou roteiro, é um ato de rebeldia emocional.
A amizade não corre. Ela tropeça, esquece aniversários, some… e reaparece.

Estamos cercados de contatos, mas famintos por conexão.
Nadamos num mar de interações, mas às vezes daríamos tudo por uma única pessoa que escute sem olhar o celular a cada doze segundos.

Não é que não queiramos amigos.
É que o mundo que construímos esqueceu como mantê-los.

Fazer amigos na vida adulta é como montar um móvel das Casas Bahia sem manual — e sem parafusos. A gente até sabe que deveria dar certo, mas no fim, tudo fica meio torto.

As agendas não batem. As mensagens somem. O “ghosting” não é por maldade, mas por esgotamento.

Vivemos numa cultura que glorifica o cansaço como símbolo de mérito. Se você não está exausto, será que está se esforçando de verdade?

Byung-Chul Han chama isso de fadiga da performance. Todo mundo se aperfeiçoando, evoluindo, rendendo.
Mas para quê? Para ser admirado? Promovido?

A amizade não quer saber do seu currículo.
Ela não dá medalhas nem likes.
Ela é gloriosamente ineficiente.

E talvez seja isso que a torna tão humana.

Some a isso o medo de rejeição, o trabalho emocional da intimidade e a alergia moderna ao constrangimento, e temos uma geração que prefere mandar memes a sentimentos.

Hoje chamamos isso de “amizade de baixa manutenção”, mas muitas vezes isso é só código para: “Eu me importo, mas não me peça muito.”

Simone de Beauvoir já dizia: a liberdade individual, quando se descola da responsabilidade pelo outro, vira prisão.
Você é livre, sim — mas também terrivelmente só.

Queremos conexão. Mas queremos limpa, sem fricções, algoritmizada.

A amizade, infelizmente, é bagunçada.
Exige perdão, compromisso e aquela coisa incômoda chamada presença.

Não é egoísmo. É medo.
Medo de depender.
De decepcionar.
De precisar de alguém que talvez vá embora.

Então ficamos seguros — mas sozinhos. Eficientes — mas intocados.

Num tempo de tudo sob demanda, a amizade é comida feita à mão: nutritiva, lenta, imperfeita, mas profundamente satisfatória — se tivermos coragem de ficar à mesa.

Se o amor é um fogo de artifício, a amizade é uma vela.
Não explode. Não queima rápido.
Mas ilumina — suavemente, teimosamente — os silêncios da vida.

Numa era viciada em barulho, a amizade é a arte sutil de escutar.

O psicanalista Donald Winnicott falava sobre o “holding” — segurar emocionalmente alguém — embora ele não estivesse falando diretamente sobre amizade, mas creio que podemos aplicar nesse contexto também. Não se trata de consertar, mas de criar um espaço onde a pessoa possa desmoronar sem medo.

Um amigo de verdade é quem não entra em pânico quando você não está bem.

E isso é raro.

Hoje oferecemos conselhos, reações, frases motivacionais.
Mas com que frequência oferecemos presença sem performance?

Jean-Bertrand Pontalis descreveu a amizade como o espaço onde se pode dizer: “Eu não sei.”
E mesmo assim continuar junto.
A amizade preserva esse frescor dos começos — mesmo depois de anos.

Um amigo não vê você como um produto pronto, mas como um jardim em andamento.

Amizade não é sobre concordar. É sobre sustentar a diferença.
Sobre sentar com o que é estranho no outro e não tentar transformar em projeto de melhoria.

Roland Barthes escreveu:
“O que o amor revela não é o outro, mas a ferida.”
Talvez com a amizade seja igual.
Mostramos as rachaduras e, com sorte, alguém fica.
Não para colá-las — mas para fazer companhia enquanto a luz entra por elas.

Amizade é revolução lenta num mundo que quer tudo para ontem.

Ela não grita. Não exige.
Só pergunta: “Você ainda está aí?”
E às vezes, isso basta pra gente sobreviver à semana.

Algumas amizades não terminam. Apenas se dissolvem — discretamente, como açúcar no chá.

Todos carregamos o fantasma de alguém que já foi nosso melhor amigo.
Um vizinho da infância. Um colega que conhecia nosso lápis favorito. Alguém a quem contamos nosso primeiro segredo.

Essas amizades, nascidas sem esforço, nos ensinaram algo que só entendemos depois: a intimidade, às vezes, simplesmente acontece.

Sem agenda, sem convite. Só pertencer.

Aí a vida cresceu. O tempo passou.
Eles mudaram de cidade. A gente mudou por dentro.

Mesmo assim, ao lembrar, algo se move.
Não é tristeza — é um leve aperto no peito.
Uma saudade que cheira a caderno molhado e grama recém-cortada.

O poeta brasileiro Manoel de Barros escreveu que
“as coisas importantes carecem de grandeza.”
Talvez a amizade também esteja escondida nos detalhes: nas piadas bobas, nos apelidos internos, no silêncio que não parecia ausência.

Às vezes só entendemos o quanto uma amizade foi profunda… depois que ela se vai.

O psicanalista André Green dizia que a dor da ausência não é só sobre falta — é sobre sentido.

A amizade deixa rastros. Mesmo quando se apaga, permanece.
Vira parte da nossa geografia interna. Um lugar que visitamos, de vez em quando — mesmo que só em sonhos.

Perder amigos não é fracasso.
Talvez seja só a vida fazendo o que ela sabe fazer: mudar de forma.

Algumas amizades ficam.
Outras nos ensinam a ficar conosco.
E isso também é uma forma de companhia.

Vamos admitir: na era da hiperprodutividade, a amizade é um péssimo negócio.

Ela não rende seguidores.
Não vende cursos.
Não entrega performance.
Às vezes, nem responde a mensagem.

Pelo padrão atual, é uma relação ineficiente.

E justamente por isso, é essencial.

Ser amigo hoje é quase erótico na sua recusa em performar.
Você não está oferecendo um serviço.
Você está só… lá.
Ouvindo.
Lembrando de coisas pequenas.
Mandando um meme com “vi isso e pensei em você”, e não “aqui está um link de desenvolvimento pessoal”.

Num mundo obcecado por autoimagem, se importar sem propósito estratégico é quase escandaloso.

Estar ao lado de alguém que não é útil, vendável ou interessante naquele momento?
Isso é amizade.
Isso é loucura.
Isso é lindo.

A amizade é para quando cansamos de impressionar.

É o único laço que não precisa de contrato, cerimônia, apartamento dividido ou laço de sangue.
Apenas duas pessoas dizendo, ao longo do tempo:
“Ainda estou aqui. Você também? Legal.”

E às vezes, esse “legal” é tudo.

Falamos tanto sobre resiliência.
Mas talvez o gesto mais resiliente de todos seja escolher continuar ao lado de alguém depois que os filtros caem, as piadas envelhecem, e os silêncios aumentam.

Amizade não é zona de conforto. É zona de verdade.

Inclui brigas, sumiços, reencontros, discussões políticas e aquela honestidade brutal que te faz dizer: “Droga, você tem razão.”

Então fica aqui uma ideia incômoda:

Talvez o que nos assuste na amizade não seja o tempo que ela exige, mas o quanto de nós ela exige.
Não o nosso “eu” polido.
Mas o nosso “eu” bagunçado, ansioso, meio perdido e real.

E sim — isso é meio demais.

Mas aqui vai o segredo:

A amizade nunca foi feita pra ser perfeita.
Foi feita pra ser verdadeira.

Se você tem uma pessoa que conhece o jeito estranho como você descasca laranjas, que te viu chorar de tanto rir, que ficou mesmo quando você estava insuportável…
Segure essa pessoa com carinho.

Sem pressão. Sem exagero.
Apenas com presença.

Porque, num mundo que nos treina para estarmos sozinhos (e bonitos),
a amizade é a última forma poética, inútil, teimosa e deliciosa de resistência.


  • Aristotle. (2009). Nicomachean ethics (W. D. Ross, Trans.). Oxford University Press. (Original work published ca. 350 BCE)
  • Barros, M. de. (1993). O livro das ignorãças. Civilização Brasileira.
  • Barthes, R. (1978). A lover’s discourse: Fragments (R. Howard, Trans.). Hill and Wang.
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  • Beauvoir, S. de. (2000). The ethics of ambiguity (B. Frechtman, Trans.). Citadel Press. (Original work published 1947)
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  • Green, A. (1999). The work of the negative (A. Weller, Trans.). Free Association Books.
  • Han, B.-C. (2012). The burnout society (E. Butler, Trans.). Stanford University Press.
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  • Pontalis, J.-B. (1998). The love of beginnings (D. Kelley, Trans.). University of Nebraska Press.
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  • Winnicott, D. W. (2005). Playing and reality. Routledge. (Original work published 1971)
  • World Health Organization. (2023). Social isolation and loneliness: An urgent public health priority. https://www.who.int/publications/i/item/9789240070583
  • Décrypte, H. [Hugo Décrypte]. (2025, June 28). Pourquoi vous avez de moins en moins d’amis ? [Video]. YouTube. https://www.youtube.com/watch?v=nX3AqH0QPzs

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