Tudo começou com dois polegares e um círculo
Lá estava eu — sentado num daqueles círculos de amigos que muita gente chamaria de “intelectualizados”. Você sabe como é: cada um tentando citar um filósofo mais impronunciável que o outro, tomando café preto como se fosse uma poção existencial. Eu acenava com a cabeça, ouvia, talvez até fingisse entender uma referência ao Deleuze lançada no ar com naturalidade.
E então… aconteceu.
Me dei conta: minhas mãos repousavam sobre o colo, e os polegares… giravam. Sim, giravam. Em silêncio. Ritmicamente. Como dois planetinhas dançando uma coreografia cósmica íntima. Eu não estava nervoso. Nem frio. Nem entediado (bem, talvez só um pouco). Mas lá estavam eles — meus polegares — girando como se precisassem chegar num destino importante.
E foi nesse instante que me veio o estalo. Não pela conversa filosófica sobre subjetividade que acontecia à minha frente. Nem pelo brilho metafórico lacaniano recém-descoberto de um amigo. Não. O que me atravessou foi o déjà-vu absoluto daquele gesto.
Porque eu já o tinha visto antes.
Não num livro. Nem num filme. Mas no meu pai. Muito tempo atrás, em meio a uma sala cheia de adultos, vi meu pai fazer exatamente o mesmo movimento, quase como um ritual. Como se os polegares dele travassem um diálogo silencioso enquanto os adultos falavam sobre prestações da casa e previsão do tempo.
Eu devia ter uns sete anos. Talvez oito. Pequeno o suficiente para olhar pra cima, grande o bastante pra perceber que os gestos dos adultos guardavam significados que eu ainda não alcançava.
E lá estava eu — anos depois — repetindo o mesmo gesto.
E algo se abriu.
Comecei a me perguntar: o que mais em mim é emprestado? Quantos trejeitos, expressões, reações eu copiei e colei sem perceber? Dos meus pais, irmãos, amigos, até de desconhecidos?
Daquele dia em diante, comecei a me flagrar em pequenas repetições inquietantemente familiares. O jeito de cruzar os braços igualzinho ao da minha mãe. O tom sarcástico que é puro meu irmão. Até uma escolha de palavras, um franzir de olhos, o tempo de uma risada… às vezes eu jurava ver outra pessoa habitando meu corpo por alguns segundos.
Teve um dia que vi o reflexo do meu irmão no espelho de um shopping — só que era eu.
E então lanço uma pergunta que parece simples, mas não é:
Quem sou eu? Ou melhor… quantos de mim existem?
O Eu como construção: Freud e o estranho familiar
Vamos ser honestos: gostamos de pensar que somos originais. Peças únicas. Edição limitada. Mas se você já se pegou suspirando exatamente como sua mãe ou soltando a risada esquisita do seu pai em um momento tenso, sabe que a verdade é bem mais confusa.
Freud, aquele velho detetive vienense do inconsciente, cunhou um termo para esse sentimento inquietante quando algo familiar se torna estranho — ou quando o estranho parece misteriosamente familiar: Das Unheimliche, o infamiliar, ou o inquietante.
É aquele momento em que você tropeça num gesto, numa lembrança, num sonho — ou num par de polegares girando — e algo no fundo da sua psique sussurra: “Ei… a gente já se encontrou antes.”
Freud explica lindamente: o estranho familiar acontece quando algo que já foi conhecido — mas foi reprimido ou esquecido — retorna disfarçado. Como um fantasma do sótão da família que aparece na sua sala usando seus chinelos.
Então, quando vi aquele gesto — meu gesto, que também era o do meu pai — eu não vi só uma mania. Eu testemunhei um retorno. Um lembrete de que eu, como a maioria de nós, sou feito de um mosaico de movimentos herdados, reações assimiladas e silêncios transmitidos.
Freud foi além: sugeriu que o ego — esse suposto comandante do navio psíquico — não é tão soberano quanto pensamos. Ele é mais como uma esponja, absorvendo pedaços das pessoas à nossa volta, especialmente na infância. Internalizamos nossos pais, professores, heróis de infância, até aquele colega que sempre era escolhido primeiro no futebol.
E carregamos todos eles. Às vezes com orgulho. Muitas vezes sem nem perceber.
Aquele momento de reconhecimento inquietante não é uma falha no sistema — é o sistema. O Eu, para Freud, não é uma criação pura e intacta, mas uma construção feita de identificações. Um tipo de Frankenstein psíquico, montado com partes emprestadas. Charmoso, não?
Somos, em resumo, mosaicos ambulantes de todos que já amamos, odiamos, invejamos ou tememos.
Então, quando meus polegares começaram sua dança, eu não estava sendo estranho. Estava sendo… humano. Profundamente, confusamente, estranhamente humano.
Winnicott: o verdadeiro self, o falso self e o gesto espontâneo
Winnicott teria se encantado com meus polegares.
Porque, para ele, um gesto nunca é só um gesto. Especialmente quando surge sem convite, sem script e, de algum modo… vivo. Aquele movimento circular? Poderia muito bem ser, na linguagem dele, um gesto espontâneo — um traço de algo profundamente pessoal e não mediado. Ou, paradoxalmente, o exemplo perfeito de um roteiro herdado que encenamos para sobreviver.
Winnicott adorava paradoxos. E acreditava que o self vive neles.
No coração da obra dele está essa distinção bela e inquietante entre o verdadeiro self e o falso self. O verdadeiro emerge em ambientes que acolhem o brincar, o ser, a imprevisível bagunça de tornar-se. Ele se revela em atos espontâneos, em risos reais, no silêncio que transmite segurança.
Mas quando o ambiente não nos sustenta — quando precisamos nos adaptar demais, cedo demais — surge o falso self: um dublê psicológico que sorri na hora certa, agrada a todos e se desconecta da própria coreografia interna.
Então, voltando aos polegares:
Estariam expressando um ritmo interno espontâneo?
Ou estariam encenando uma cena antiga, familiar, que internalizei para me sentir seguro em conversas de adultos?
No mundo de Winnicott, talvez a resposta seja: ambos. Porque a linha entre verdadeiro e falso self nem sempre é nítida. Na verdade, às vezes o falso self protege o verdadeiro — até que o mundo esteja seguro o suficiente para que ele apareça.
E não é essa, afinal, uma comédia humana?
Caminhamos pela vida encenando gestos, posturas, até personalidades inteiras que um dia nos mantiveram à tona — até que um dia nos damos conta e perguntamos: “Espera… isso sou eu mesmo?”
Winnicott não acreditava em identidades fixas. Ele acreditava num ser que torna–se, num self que emerge nas relações, nos momentos de brincadeira, nos espaços entre um rótulo e outro.
Talvez meus polegares não estivessem me traindo.
Talvez dançassem entre memória e presença, entre segurança e espontaneidade — entre o eu que herdei e o eu que ainda estou descobrindo.
McDougall: teatros internos e a multiplicidade do self
Joyce McDougall provavelmente sorriria com doçura e diria:
“Claro que você viu seu irmão no espelho. O palco estava apenas um pouco lotado naquele dia.”
Porque, para ela, nunca estamos sozinhos dentro de nós.
Ela imaginava a mente como um teatro — às vezes absurdo, às vezes trágico, frequentemente hilário — onde personagens do passado, vozes internalizadas, ecos emocionais e identificações fantasmáticas atuam, discutem, cochicham e tropeçam uns nos outros nos bastidores.
Não somos um monólogo. Somos um elenco.
Sabe aquele momento em que você fala e, de repente, sai o tom de voz da sua mãe? Ou quando uma risada estranha escapa e você percebe que era do seu avô? Ou aquele jeito de suspirar, aquela expressão, aquela frase que não parece totalmente sua, mas também não é totalmente alheia?
McDougall não via isso como patologia. Ela via como riqueza da vida psíquica. A multiplicidade do self não é um fracasso em ser coerente — é testemunho da nossa profundidade. Somos feitos de partes. Algumas ensaiadas. Outras improvisadas. Algumas dramáticas. Outras neutras.
E sejamos sinceros: alguns desses personagens internos merecem um Oscar.
O crítico interno com voz de professor de matemática?
O agradador que se curva ao menor sinal de reprovação?
O adolescente rebelde que desperta quando alguém te dá ordens?
Todos presentes. Todos contabilizados. Todos… você.
Mas não você num sentido essencialista. Você como texto vivo, editado por relações, sonhos, traumas, desejos e imitações silenciosas.
Para McDougall, os sintomas, até mesmo os mais difíceis, muitas vezes são tentativas desses personagens internos de se expressar — mas que acabam silenciados. Quando o teatro interno é reprimido demais, o roteiro desce ao subterrâneo e encontra formas estranhas e indiretas de se manifestar.
Talvez aquele reflexo no shopping, em que vi meu irmão — ou alguém igual a ele — não fosse alucinação. Era um dos meus atores internos entrando em cena. E, por um instante, a cortina se abriu.
Estellon: o corpo como memória e herança silenciosa
Vamos dar um descanso à psique. Hora de falar do corpo.
Esse parceiro tão exigido e tão pouco consultado no mistério do self.
Se Freud mapeou nossos sonhos e McDougall ouviu nosso teatro interno, Vincent Estellon nos lembra que às vezes é o corpo quem lembra do que a mente esquece.
Aquele gesto dos polegares?
Talvez não seja só herança psicológica. Pode ser também um traço corporal — um movimento inscrito há muito tempo, antes da linguagem, antes das perguntas. Antes mesmo da capacidade de introspecção.
Estellon vê o corpo não como um recipiente passivo da vida psíquica, mas como um portador ativo de memórias, de histórias transgeracionais, de repetições silenciosas.
O jeito de andar. A tensão nos ombros. A inclinação da cabeça quando alguém eleva a voz. Esses não são atos neutros. São mensagens criptografadas, roteiros deixados por experiências passadas — às vezes nem nossas.
Porque o corpo, segundo Estellon, não carrega apenas a nossa história. Ele pode carregar os ecos dos traumas dos nossos pais, os silêncios dos avós, o peso cultural de uma identidade reprimida.
Talvez por isso alguns gestos pareçam mais antigos que nós. Como se pertencessem a alguém — mas brotassem pelas nossas mãos, costas, gargantas.
Estellon é especialmente sensível ao indizível — aquilo que éramos pequenos demais para entender, ou assustados demais para sentir — e que muitas vezes escapa do pensamento e se fixa no corpo.
A pausa antes de um abraço.
O congelamento repentino quando somos interrompidos.
O riso sem graça ao receber um elogio.
Esses não são tiques sem sentido.
Podem ser microesculturas da memória, ensaiadas diariamente por um corpo que as aprendeu muito antes de poder nomeá-las.
Talvez meus polegares não estivessem imitando meu pai.
Talvez estivessem lembrando dele de um jeito que minha mente não consegue.
Não por meio de palavras, mas pelo movimento. Pela repetição. Por uma coreografia herdada, não explicada.
Porque o corpo fala. E, às vezes, sussurra em círculos.
Reflexão existencial: ser muitos para ser Um
Agora está claro: eu não sou um solista. Sou mais como uma banda de um homem só, com um tambor meio quebrado, um trompete surpresa e um coral de fundo formado por parentes, versões antigas de mim e umas pessoas que não vejo desde 1998.
E, de algum modo, tudo isso sou eu.
Sim, às vezes é sufocante. Como se eu fosse o anfitrião de um jantar e todos os convidados estivessem dentro da minha cabeça. Alguns são adoráveis. Outros mastigam alto. Alguns insistem em relembrar coisas que eu preferia esquecer.
Mas talvez isso não seja uma crise.
Talvez isso seja simplesmente ser humano.
Filósofos como Sartre diriam que nos tornamos quem somos através do olhar do outro. Que a identidade não é um ponto fixo, mas um ato contínuo de negociação — entre como nos vemos e como somos vistos. O que quer dizer que estamos sempre em construção, moldados por espelhos que nos falam.
Pensadores existenciais flertaram com a angústia diante da multiplicidade.
Mas e se, em vez de angústia, sentíssemos… permissão?
Permissão para sermos complexos. Para não fazer sentido o tempo todo.
Para nos contradizermos — com carinho.
Porque ser muitos não é necessariamente ser fragmentado.
Pode ser, na verdade, o único jeito de atravessar a realidade com um toque de graça.
Se Winnicott nos ensinou algo, foi que autenticidade não é coerência — é vitalidade. É sentir que algo de nós está ali, pulsando, mesmo quando não sabemos exatamente quem está no comando naquele dia.
Talvez haja uma estranha sabedoria nesses meus polegares.
Nesse movimento circular.
Nessa herança inquietante.
Não porque me dizem quem eu sou, mas porque me lembram: eu não estou sozinho em mim.
Sou uma assembleia. Uma colagem viva. Um pronome plural disfarçado de nome singular.
E talvez, só talvez, isso baste.
Conclusão: um último giro dos polegares
E então, voltamos aos polegares.
Dois pequenos filósofos, girando em silêncio no meu colo.
Sem pedir atenção. Sem buscar aplauso.
Apenas… girando.
Como mãos ancestrais num relógio invisível, me lembrando de algo mais antigo que o pensamento.
Engraçado, não é?
Como um gesto quase ridículo pode abrir um corredor tão profundo.
Quer dizer — quem começa uma espiral existencial pelos polegares?
Aparentemente… eu.
Mas talvez seja assim mesmo.
Talvez não se chegue à verdade com trombetas e fogos de artifício.
Talvez a gente tropece nela no meio de uma conversa, num café, com alguém citando Foucault equivocadamente e suas mãos decidindo lembrar do seu pai antes da sua mente.
Talvez a alma tenha senso de humor.
E talvez, só talvez, o corpo esteja por dentro da piada.
A pergunta permanece:
Quem sou eu? Ou melhor… quantos de mim existem?
Não tenho uma resposta. E, a essa altura, nem sei se quero uma.
O que eu tenho é um carinho estranho por todas as versões de mim que atravessam meus dias:
a que soa como minha mãe, a que discute como meu irmão, a que anda como uma lembrança, e a que, às vezes, só senta e gira os polegares em silêncio.
E agora, se me permite:
E você?
Sim — você, que está lendo isso.
Já se pegou no meio de um gesto e pensou: “Espera… de quem é essa vida que estou imitando?”
Já sentiu outra pessoa vivendo dentro da sua voz, da sua postura, da sua risada?
Se ainda não… espere.
Pode ser que apareça no espelho.
Ou, quem sabe… nos seus polegares.
References
Freud, S. (1919). The uncanny. In J. Strachey (Ed. & Trans.), The Standard Edition of the Complete Psychological Works of Sigmund Freud (Vol. 17, pp. 217–256). London: Hogarth Press. (Original work published 1919)
Freud, S. (1923). The ego and the id. In J. Strachey (Ed. & Trans.), The Standard Edition of the Complete Psychological Works of Sigmund Freud (Vol. 19, pp. 12–66). London: Hogarth Press. (Original work published 1923)
Winnicott, D. W. (1960). Ego distortion in terms of true and false self. In D. W. Winnicott, The maturational processes and the facilitating environment (pp. 140–152). London: Hogarth Press.
McDougall, J. (1989). Theaters of the mind: Illusion and truth on the psychoanalytic stage. New York: Brunner/Mazel.
Estellon, V. (2012). Corps, trauma et symbolisation: Cliniques de la chair et psychopathologie contemporaine. Paris: Dunod.
Sartre, J.-P. (1943). Being and nothingness: An essay on phenomenological ontology (H. E. Barnes, Trans.). New York: Philosophical Library. (Original work published 1943)
Nunes, G. R. de L. (2024). Aprendizagem do ponto de vista do adulto que aprende: Experiências de aprendizagem fora do ambiente escolar (Dissertação de mestrado, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo). Programa de Pós-Graduação em Educação: Psicologia da Educação.


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