Os desencontros da escuta: entre interrupções e dispersão
Era para ser uma aula de conversação.
Nível avançado. Francês. Um tema foi proposto, uma aluna levantou a mão e começou a falar — com paixão e frases bem articuladas. Quando ela terminou (ou achamos que sim), a professora se virou com gentileza para outro aluno, disse seu nome e pediu sua opinião. Mas a primeira aluna não percebeu. Continuou falando, como se o mundo tivesse silenciado por um instante e só ela tivesse o direito — ou o dever — de preencher o ar. A professora levantou as sobrancelhas, tentou interromper com delicadeza — em vão. Ela já estava no meio da frase, no meio do pensamento, no meio do universo.
Não foi a primeira vez que vi isso acontecer.
Na verdade, tem acontecido com tanta frequência ultimamente que já não parece mais um ruído ocasional na dinâmica da sala. Parece… um sintoma.
As pessoas já não escutam.
Ou melhor: parece que já não conseguem.
Todo mundo fala, digita, reage — mas quem realmente escuta?
Quem de fato recebe o que está sendo dito, deixa aquilo pousar, permitir-se ser tocado, balançado, desorganizado por dentro?
Na psicanálise, escutar é uma arte — uma suspensão ativa do ego, do julgamento, da pressa em responder. Freud falava em “atenção flutuante” — uma espécie de abertura sem captura, uma hospitalidade radical ao inconsciente do outro.
E isso não é pouca coisa: escutar de verdade é correr o risco de se transformar.
Mas talvez a gente não queira mais se transformar.
Só queremos ser ouvidos — não ouvir.
Queremos o microfone, o foco, o palco.
Mesmo que seja só num quadradinho do Zoom.
Rita Lee e a poética da desconexão
“Olho e não vejo nada.”
“Ando meio desligado,
eu não sinto meus pés no chão.”
Foi assim que Rita Lee cantou, numa época em que estar “meio desligado” ainda tinha um charme psicodélico. À primeira vista, ela falava de amor — esse estado de encantamento que desborda os contornos do mundo e gira a bússola interna feito ventilador no teto.
Mas hoje, esses versos soam como um diagnóstico.
Atravessamos os dias sem pisar direito no chão, bombardeados por imagens, opiniões, memes e microdramas. Rolamos a tela, deslizamos o dedo, reagimos e esquecemos. Olhamos, mas não vemos. Ouvimos, mas não escutamos.
O “meio desligado” virou o modo padrão.
Só que agora não tem nada de romântico.
É existencial.
Não estamos flutuando porque estamos apaixonados.
Estamos flutuando porque perdemos a gravidade.
E sem chão, escutar fica difícil.
Escutar exige peso — um tipo de quietude interna, uma disposição para demorar. Para não saber. Mas quando tudo nos empurra a acelerar, seguir em frente, ser produtivos e reativos, escutar vira um ato radical — quase um ato de rebeldia.
Rita talvez não quisesse dizer isso.
Mas estava dizendo.
Ruído, narcisismo e a ética da escuta
(Em diálogo com Byung-Chul Han e Edgar Morin)
Byung-Chul Han, esse cirurgião das patologias contemporâneas, nos alerta em A Sociedade do Cansaço que vivemos num tempo de excesso — excesso de comunicação, de estímulo, de performance.
Falamos, postamos, reagimos, produzimos… mas raramente pausamos.
Raramente escutamos.
Han argumenta que essa positividade hiperativa — a auto-otimização sem fim, a sociedade do desempenho, a compulsão por estar visível e “engajado” — nos deixou exaustos de um jeito muito específico. Não é o cansaço físico da era industrial, mas um esgotamento psíquico, existencial.
Ele chama isso de burnout neuronal.
Não desabamos por esforço — mas por superestimulação.
Nesse estado, escutar de verdade se torna quase impossível.
Escutar exige desacelerar.
Suspender o controle.
Abrir espaço para o que não é você.
E aí entra Edgar Morin — menos apocalíptico, mais esperançoso, mas igualmente lúcido.
Para Morin, escutar não é só um ato cognitivo.
É um gesto ético.
É reconhecer o outro como outro — não como projeção das nossas carências, nem como espelho, mas como um ser singular, com um mundo só seu.
Ele nos convida a acolher a complexidade, a sustentar o desconforto de não saber, de não responder na hora. Escutar, para Morin, é um exercício de humildade epistemológica: é aceitar que o mundo não gira em torno da nossa opinião — e isso, em tempos de identidade construída e marca pessoal, dói.
Juntos, Han e Morin desenham um retrato do nosso tempo:
Uma sociedade que grita no vazio, implorando para ser ouvida — mas apavorada com a ideia de escutar de verdade.
Porque escutar é se deixar tocar.
E mudar, convenhamos, é profundamente inconveniente.
Vincent Estellon e o medo de ser tocado
E se escutar — escutar de verdade — não fosse apenas difícil, mas apavorante?
Vincent Estellon, no livro Terreur d’aimer et d’être aimé, explora a ambivalência profunda que carregamos diante da intimidade. Amar, ele sugere, é se expor.
E o que é escutar, senão uma forma de intimidade?
Uma forma silenciosa e invisível de amar?
Tendemos a pensar na escuta como algo passivo — gentil, talvez até meio entediante.
Mas escutar de verdade é um gesto profundamente ativo.
Requer vulnerabilidade.
Pede que nos abramos ao inesperado, ao incômodo, às partes do outro que podem bagunçar a ordem psíquica que tanto nos custa manter.
Estellon lembra: muitos não temem o amor por serem incapazes de amar, mas por temerem o que o amor pode despertar.
Ser amado é ser visto.
E ser visto é correr o risco de ruir.
Com a escuta, é a mesma coisa.
Escutar alguém — não só suas palavras, mas seus silêncios, contradições, camadas emocionais — é deixar essa pessoa entrar.
E isso, convenhamos, é perigoso.
Não é à toa que nos atropelamos nas falas.
Que fazemos várias coisas ao mesmo tempo enquanto conversamos.
Que aumentamos o volume externo para abafar o ruído interno.
Escutar não é fácil.
É erótico. É existencial. É assustador.
Mas também é onde algo real começa.
Algo profundamente humano.
O silêncio mais barulhento: Baudrillard, Barthes e a alma exibicionista
A vida moderna virou uma grande audição.
Todo mundo performa.
Nos curamos com hashtags, ensaiamos opiniões como slogans, postamos o café da manhã como se fosse manchete.
Jean Baudrillard, com seu cinismo poético de sempre, já alertava: numa sociedade hiper-real, não comunicamos mais — simulamos comunicação.
Não trocamos sentido, trocamos sinais.
A selfie vira mensagem.
O status substitui a conversa.
A presença digital passa a parecer mais real que o próprio corpo.
E no meio desse ruído todo, perdemos a escuta — dos outros, e de nós mesmos.
Roland Barthes, em Fragmentos de um discurso amoroso, já intuía tudo isso bem antes das stories do Instagram. O apaixonado, ele escreveu, fala mesmo quando ninguém escuta.
O discurso amoroso é, muitas vezes, um monólogo em busca de eco.
Mas o que acontece quando todo mundo está fazendo isso — ao mesmo tempo?
Criamos uma espécie de Babel romântica:
Todos querendo ser ouvidos,
Ninguém suportando o silêncio de escutar.
Falamos de conexão, mas o que queremos é atenção.
Oferecemos likes — não presença.
Nos transmitimos ao vazio, torcendo para que alguém — qualquer um — responda com mais do que um emoji.
E assim a tragédia se desenha:
Num tempo obcecado por se expressar,
estamos afogados em falas e famintos de sentido.
Talvez seja isso que Estellon, Han, Morin — e até Rita Lee — estejam tentando nos dizer:
Que escutar de verdade talvez seja o gesto mais radical que podemos fazer hoje.
Num mundo de vozes gritando para serem ouvidas, o verdadeiro ato de coragem é parar.
Ficar quieto.
Escutar.
Conclusão: ecos em uma aula de conversação
E lá estávamos nós.
Numa aula de conversação em francês.
Um espaço supostamente feito para troca, diálogo, escuta.
Mas uma aluna monopolizava a fala, outra congelava, a professora piscava incrédula — e a palavra “conversação” evaporava no ar.
O que houve ali não foi uma conversa.
Foi um cruzamento de monólogos.
E talvez essa seja a melhor metáfora dos nossos tempos:
Achamos que estamos dialogando, mas na verdade só estamos esperando nossa vez de voltar à cena — de preferência com uma frase de efeito, um suspiro dramático ou mais uma história sobre mim, eu mesmo e eu.
Frequentamos “aulas avançadas”, falamos vários idiomas, temos boa formação — e mesmo assim, esquecemos uma das habilidades mais elementares de ser humano:
Escutar sem interromper.
Sem corrigir.
Sem postar nas redes sociais no meio da frase.
Talvez a verdadeira revolução, hoje, fosse chegar numa conversa… e não tentar vencê-la.
Ficar em silêncio — sem postar sobre isso.
Ouvir alguém — sem planejar a resposta.
Vai ver, escutar é a nova fluência.
Um idioma que poucos ainda sabem falar.
E se você não pegou tudo isso, não tem problema.
Provavelmente estava ocupado demais…
ensaiando sua resposta.
References
Barthes, R. (1978). A lover’s discourse: Fragments (R. Howard, Trans.). Hill and Wang. (Original work published 1977)
Baudrillard, J. (1994). Simulacra and simulation (S. F. Glaser, Trans.). University of Michigan Press. (Original work published 1981)
Estellon, V. (2020). Terreur d’aimer et d’être aimé: Psychopathologie du lien et de la vie amoureuse. Érès.
Freud, S. (1912). Recommendations to physicians practising psycho-analysis. In J. Strachey (Ed. & Trans.), The standard edition of the complete psychological works of Sigmund Freud (Vol. 12, pp. 109–120). Hogarth Press.
Han, B.-C. (2015). The burnout society (E. Butler, Trans.). Stanford University Press. (Original work published 2010)
Morin, E. (2008). On complexity (R. Postel, Trans.). Hampton Press. (Original work published 1990)
Rita Lee & Arnaldo Baptista. (1970). Ando meio desligado [Song]. In Jardim Elétrico. Philips Records.


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