A psicanálise funciona? E como funciona?
Foi com essa pergunta que Guillaume Bonnet lançou seu podcast Ma dernière séance de psychanalyse, onde convida ex-analisantes — e eventualmente analistas — a compartilharem o relato íntimo de sua última sessão. Ao abrir o microfone para essas despedidas, o autor não só revisita sua própria trajetória analítica, interrompida após dez anos, como também propõe um movimento: escutar a psicanálise por dentro, através de quem a viveu. E mais do que responder, a proposta parece ser a de sustentar a pergunta, como convém ao campo analítico.
Mas afinal, o que significa dizer que algo “funciona”? Quando alguém diz que uma análise “deu certo”, estamos falando de quê? De cura? De adaptação social? De produtividade? De alívio dos sintomas? A partir dessas inquietações, e frente a um cenário cada vez mais dominado por discursos tecnocráticos e por terapias rápidas, revisito aqui algumas das críticas dirigidas à psicanálise — e, com o auxílio de autores como Freud, Roudinesco, Dunker e Vera Iaconelli, tentarei traçar uma costura: o que é que a psicanálise propõe, e como é que ela age?
Ma dernière séance de psychanalyse – um podcast sobre despedidas (e sobre o que nunca acaba)
Quem diria que a psicanálise — essa senhora centenária, muitas vezes acusada de ser lenta, obsoleta e até charlatã — ganharia fôlego num formato tão moderno quanto o podcast? Pois foi exatamente isso que Guillaume Bonnet fez em Ma dernière séance de psychanalyse. Nada de jargões técnicos, sessões simuladas ou aulas teóricas: o que se escuta ali são vozes reais, gente comum, pessoas que viveram a experiência de uma análise e decidiram contar o que se passou ali — especialmente no último ato: o fim.
E não estamos falando de finais dramáticos à la série da Netflix, com gritos e portas batendo. Em muitos casos, a última sessão passa despercebida. Em outros, ela é cuidadosamente anunciada. Às vezes, ela sequer acontece: o sujeito simplesmente desaparece. E tudo isso também “funciona”. Ou, pelo menos, marca.
O podcast começa com o próprio Bonnet narrando sua saída abrupta da análise, contrariando o conselho do seu analista. Ele não foge da contradição — pelo contrário, a expõe: depois de dez anos de sessões, por que resolveu sair? Por que agora? E o que significa “sair” de uma análise? Ela termina mesmo? Spoiler: não. A análise segue, silenciosa, pelos corredores da memória, nas decisões inesperadas, nos sonhos mais bobos e nas frases atravessadas no meio do dia.
A ideia do podcast é simples e genial: dar voz a quem viveu a experiência. Em vez de tentar explicar a psicanálise com teorias debaixo do braço, Bonnet preferiu perguntar: “E pra você, como foi?” E a partir daí, cada episódio é uma travessia. Tem relatos comoventes, hilários, absurdos, estranhamente familiares. A escuta é sempre íntima, mas nunca ensimesmada — e talvez esteja aí o primeiro indício de que a psicanálise, sim, funciona. Ela abre espaço para dizer o indizível, rir do próprio abismo, encontrar palavras onde antes só havia peso.
Talvez o mais irônico (e maravilhoso) seja justamente isso: que a experiência psicanalítica, tantas vezes criticada por ser “incomunicável”, seja agora compartilhada aos milhares, por streaming, no fone de ouvido, na fila do mercado ou dentro do metrô. A psicanálise viralizou — mas à sua maneira: sutil, desconfortável, cheia de entrelinhas e pausas que dizem mais que mil promessas de bem-estar.
As críticas à psicanálise: será que ela ainda tem vez?
Vivemos tempos de respostas rápidas, diagnósticos relâmpago e aplicativos que prometem resolver a sua vida emocional em sete cliques e um Pix. Nesse cenário, a psicanálise parece um monge budista sentado no meio da Avenida Paulista: lenta, silenciosa, profundamente incômoda.
E não faltam críticos prontos para escorraçá-la. Há quem diga que ela “não é científica”, porque não cabe nas regras do método experimental. Afinal, como medir o inconsciente? Como cronômetrar a transferência? Onde estão os gráficos, os números, os resultados? (De preferência com margens de erro e infográficos bonitinhos para o LinkedIn.)
Outros atacam pelo flanco do tempo: “Anos de análise e ainda não resolveu o problema?” — como se a psicanálise fosse um serviço de manutenção hidráulica, onde o sujeito entra com um vazamento e espera sair com tudo vedado em 50 minutos.
Tem ainda os que acusam os analistas de serem mudos, frios ou distantes. De fato, a escuta analítica exige uma presença diferente — e, convenhamos, há quem confunda silêncio clínico com indiferença. Mas a pergunta que poucos se fazem é: por que tanto incômodo com o silêncio? O que o sujeito teme que venha à tona, quando ninguém o interrompe?
Por trás dessas críticas — muitas legítimas, outras nem tanto — mora uma angústia: a de que a psicanálise não se preste a um mundo obcecado por eficiência. Ela não entrega garantias, não dá manuais, não fornece certificados de “cura”. É uma experiência que escapa ao controle. E isso, para muita gente, é simplesmente imperdoável.
Além disso, Freud virou quase um meme. Está em camisetas, em slogans publicitários, em frases soltas do tipo “Às vezes um charuto é só um charuto” (mesmo quando ele nunca disse isso). A banalização do vocabulário psicanalítico — ego, trauma, recalque, complexo — alimenta tanto o fascínio quanto a desconfiança. Afinal, se está em todo lugar, será que ainda vale alguma coisa?
Mas o mais curioso é que, apesar de todas as tentativas de cancelamento, a psicanálise segue firme — não como fórmula de sucesso, mas como insistência no enigma. E isso já é uma forma de resistência. Enquanto o mundo tenta nos reduzir a algoritmos, ela segue perguntando: o que você deseja, mesmo que não saiba?
Como a psicanálise funciona: entre escutar e suportar o que vem
Diferente do que muitos pensam, a psicanálise não é uma forma de reeducação comportamental, nem uma aula sobre como ser uma pessoa melhor. Aliás, se alguém sair da análise “melhor”, é lucro — mas definitivamente não é esse o contrato. O que ela oferece, no fundo, é uma travessia: uma escuta radical do que o sujeito tem a dizer — mesmo (ou principalmente) quando ele ainda não sabe que tem algo a dizer.
Freud, o velho vienense que adorava sentar no divã — quer dizer, atrás dele — já avisava: a fala tem efeitos. O inconsciente não é um porão escuro cheio de traumas e ratos, mas uma estrutura que fala, tropeça, escorrega, repete, sabota, goza. E é ali, no que se repete e parece absurdo, que mora a chave do enigma. A psicanálise escuta essa fala falhada. E não corrige. Escuta de novo.
“Mas então o analista não dá conselho?” — perguntam muitos, com o cenho franzido e o WhatsApp aberto na terapia. Não. Ele escuta. E devolve com perguntas, com silêncios, com cortes. A psicanálise não aponta caminhos — ela acende a lanterna e pergunta: “Você viu isso aqui que acabou de dizer?”
Se o mundo quer respostas, a análise devolve perguntas. Se o mundo quer eficiência, ela oferece tempo. Se o mundo quer performance, ela propõe falha. É quase um ato subversivo: em plena era da alta produtividade, alguém se deita num divã para falar de sua impotência. E paga por isso.
A psicanálise funciona porque não promete funcionar. Porque não se presta a operar sobre o sintoma, mas a escutá-lo. Não é contra o sintoma — é com ele. Porque, ali, tudo tem sentido, ainda que o sujeito não saiba qual. O analista, longe de ser um guru que dá a senha para a felicidade, sustenta um lugar de escuta sem juízo. E isso é raro. Muito raro.
Mas atenção: isso não quer dizer que o analista fica lá como um Buda de carne e osso, apenas acenando com a cabeça. A escuta é trabalho. Um trabalho árduo, silencioso e implicado. Suportar escutar alguém sem interromper, sem interpretar antes da hora, sem querer “resolver” — é aí que mora o ofício.
Por isso, a psicanálise é mais experiência do que método. Ela exige presença. E, como diria Lacan, exige que o sujeito consinta em “pagar com palavras”. O preço é alto, mas o efeito… Ah, o efeito. Ele não vem com laudo, mas às vezes surge no meio de uma frase, num sonho mal contado, num choro que ninguém mandou chegar.
Vozes que ressoam: o que dizem os psicanalistas contemporâneos?
Se a psicanálise tivesse ficado presa nos textos de Freud, provavelmente hoje seria apenas uma relíquia de museu, guardada entre uma esfinge egípcia e um charuto vitrificado. Mas o que a mantém viva é justamente sua capacidade de se renovar sem se vender. E para isso, há quem esteja trabalhando muito bem.
Dunker: psicanálise como cartografia do sofrimento ético
Christian Dunker é um desses nomes que virou referência — e meme — ao mesmo tempo. Com sua fala pausada, didática e sempre afinada com as questões sociais, ele lembra a todos que a psicanálise não vive numa torre de marfim. Ao contrário: ela tem tudo a ver com o mundo, com as políticas de subjetivação, com os modos de existir que o capitalismo nos impõe goela abaixo.
Para Dunker, a psicanálise é antes de tudo um modo de lidar com o sofrimento ético. Aquele que não se resolve com rivotril, nem com frases motivacionais de coach. Um sofrimento que nos atravessa por sermos sujeitos divididos, implicados, e não plenamente adaptáveis — por mais que o RH da empresa tente.
Ele insiste que a análise não serve para tornar o sujeito mais “funcional”, mas mais responsável pelo que deseja. O que já é um escândalo em tempos de conformismo em alta performance.
Roudinesco: contra o esquecimento e a banalização
Rigorosa e mordaz, Elisabeth Roudinesco é aquela intelectual que topa o debate — e sabe usar a espada. Suas obras, como Por que a psicanálise?, defendem o campo com argumentos históricos, políticos e éticos. Ela lembra que a psicanálise sobreviveu a ditaduras, guerras, perseguições e modismos — e que hoje, paradoxalmente, seu maior risco é a indiferença.
Contra os ataques caricaturais, ela propõe memória. Contra o discurso da eficiência, ela insiste na singularidade. E contra a pasteurização da subjetividade, ela defende o sintoma — esse incômodo necessário que nos lembra que nem tudo deve ser “curado”.
Iaconelli: a coragem de contar o avesso
E aí vem Vera Iaconelli, com seu estilo direto, inteligente, e — o que é mais raro — afetivo. No livro Análise, ela faz o que muitos evitam: coloca o próprio percurso analítico na roda. Fala da dor, da vergonha, do riso no meio da sessão, do desconcerto. Não como confissão, mas como gesto ético. Mostrar que o analista também é analisante. Que ninguém escapa.
Ao compartilhar suas sessões, Vera abre uma fresta rara: a de ver a psicanálise como um campo de humanidade. E isso inclui as falhas, as demoras, os tropeços. É um livro que mostra que “funcionar” não é sinônimo de “consertar”, mas de transformar a relação com aquilo que não tem conserto.
E mais: Ferro, Ogden, Ansermet…
Poderíamos citar muitos outros. Antonino Ferro, por exemplo, que propõe a clínica como criação de narrativas psíquicas, uma coautoria de mundos internos. Thomas Ogden, com seu conceito de “sonhar a experiência”, onde o analista empresta à análise sua própria capacidade de sonhar com o outro. E François Ansermet, que dialoga com as neurociências, mostrando que o inconsciente não é inimigo da biologia — apenas fala outra língua.
Esses autores, cada um a seu modo, mostram que a psicanálise não está morta — está inquieta. E isso é um excelente sinal. Porque morto mesmo está o pensamento que se fecha em verdades absolutas.
Conclusão: A psicanálise funciona? Funciona do seu jeito, e é isso que a salva
Então, a psicanálise funciona? Depende do que você entende por “funcionar”. Se você procura uma fórmula mágica, uma receita pronta ou um botão para “desligar a ansiedade”, vá de aplicativo de meditação — que são maravilhosos, diga-se de passagem, mas não confundam.
A psicanálise não funciona como um produto de prateleira, nem como um gadget novo da Apple. Ela funciona como um convite: o convite para se olhar de frente, para ouvir o que você não queria escutar, para acolher aquilo que até agora deu jeito de esconder — e para, quem sabe, começar a transformar essa bagunça toda.
Ela funciona porque aceita a falha, a contradição, o abismo — e porque não promete “consertar” você, mas te convida a andar com suas próprias pernas, mesmo que vacilando.
Como bem colocou Vera Iaconelli, “funcionar” é transformar a relação com aquilo que não tem conserto. E isso é um convite e uma resistência ao mesmo tempo.
No fim das contas, o que a psicanálise nos ensina é que o desejo não se explica — se escuta. Que o sujeito não se entende — se vive. Que o fim não é um corte seco — é um processo contínuo, uma última sessão que nunca termina.
Guillaume Bonnet, com seu podcast, mostrou que a última sessão é sempre uma história aberta — uma despedida cheia de ecos. A psicanálise funciona porque ela não termina, porque ela persiste. E essa persistência, em tempos de respostas rápidas e certezas baratas, já é uma forma poderosa de resistência.
E você? Está disposto a escutar o que a sua última sessão tem a dizer?
Referências
Bonnet, G. (Host). (2023, setembro). Ma dernière séance de psychanalyse [Podcast]. Louie Media. https://maderniereseance.mystrikingly.com/
Dunker, C. B. (2011). Estrutura e constituição da clínica psicanalítica: Uma arqueologia das práticas de cura, psicoterapia e tratamento. Annablume.
Freud, S. (1912). Sobre o início do tratamento. In Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud (Vol. 12, pp. 123–144). Imago.
Iaconelli, V. (2025). Análise. Zahar.
Roudinesco, É. (1999). Por que a psicanálise? (M. B. Gomes, Trad.). Jorge Zahar Editor.


Deixe um comentário