Lição do Rottweiler para sobreviver à Academia (e ao mundo que não para de latir)

Quando entrei no mestrado, recém-saído da graduação, carregava uma sensação quase messiânica: eu, um iluminado portador de ideias transformadoras, pronto para sacudir o mundo acadêmico. É curioso como a formatura nos deixa com essa embriaguez — a gente se sente como se tivesse acabado de receber as chaves de todos os cofres do saber, quando na verdade mal aprendeu a abrir a porta errada com a chave certa.

A instituição onde fiz a graduação era privada, organizada, com rituais e formalidades que davam uma sensação de conforto intelectual. Já a instituição pública onde ingressei para o mestrado era um universo completamente novo — e, em muitos sentidos, mais real. O choque foi imediato: diferenças sociais gritantes, diversidade cultural pulsando pelos corredores e, claro, o inevitável choque acadêmico. Descobri que, depois da graduação, a gente sai sabendo muito pouco… e, para piorar, não é o tipo de pouco que se resolve com um bom Google.

Nesse novo território, conheci dois tipos de criaturas intelectuais. O primeiro grupo era formado por pessoas realmente inteligentes: profundos conhecedores, leitores vorazes, gente que te ouvia com atenção e te fazia pensar melhor. O segundo grupo… ah, o segundo grupo parecia formado por atores de uma novela experimental: citavam teóricos como quem solta nomes de estilistas numa festa chique, num desfile constante de erudição performática. Impressiona no primeiro ato, mas, no segundo, a gente percebe que é só brilho de purpurina: bonito, mas superficial e que cai com a primeira chuva.

Hoje, com o Instagram, TikTok e derivados, imagino que essa turma tenha ganhado um palco muito mais amplo. Antes, o espetáculo ficava restrito à sala de aula; agora, cabe num story com filtro vintage e trilha de jazz.

O mestrado me mostrou que, além do conteúdo formal, existe uma “etiqueta” acadêmica invisível. Não é um manual escrito, mas um conjunto de códigos: como se portar numa banca, como se referir a um autor, quantas camadas de citações indiretas cabem num parágrafo sem que ele desmorone. E, sobretudo, como parecer seguro mesmo quando a gente está completamente perdido.

Nessa selva letrada, o contraste entre os dois grupos era cada vez mais evidente. Os genuinamente inteligentes eram curiosamente acessíveis. Não competiam pelo microfone imaginário, não monopolizavam conversas, e sabiam ouvir. Eram aqueles que, ao invés de se exibirem, criavam espaços para o outro pensar. Foi só muitos anos depois, ao ouvir uma entrevista de Olivia de Lamberterie, sua frase me caiu como um presente:

“Gente inteligente de verdade é acessível e gentil.”

A frase me fez voltar no tempo. Recordei rostos, vozes e gestos. Percebi que, no fundo, era exatamente isso que diferenciava os que realmente sabiam dos que apenas encenavam. Gentileza e inteligência, quando caminham juntas, não precisam de fanfarras.

Já o outro grupo parecia viver num eterno “close” intelectual. Era um balé performático: citações de filósofos em francês (mesmo quando a pronúncia parecia um atentado linguístico), gestos calculados e um olhar sempre buscando testemunhas para o espetáculo. No palco das redes sociais de hoje, penso que seria um carnaval diário — e nem estou falando de carnaval de rua, mas daqueles de camarote VIP com transmissão ao vivo.

Na adolescência, eu tinha um Rottweiler. Grande, musculoso, dono de um andar firme e de um olhar que parecia medir o mundo. Quando saíamos para caminhar, acontecia sempre a mesma cena: nas casas onde havia outros cães, o alvoroço começava. Latidos furiosos, saltos contra o portão, dentes à mostra — uma sinfonia canina de defesa e ameaça.

Meu Rottweiler, no entanto, reagia de forma desconcertante: virava a cabeça lentamente, fitava o cão agitado por um instante e, com um suspiro quase humano, voltava o olhar para frente e seguia seu passo. Não havia aceleração, não havia disputa, apenas a tranquilidade de quem, talvez, soubesse exatamente o tamanho que tinha.

Na época, achei apenas curioso. Hoje, vejo que ele encarnava algo raro — e que tem tudo a ver com o que encontrei no mestrado. É a força silenciosa. A segurança que não precisa se anunciar, a presença que dispensa o ruído.

Winnicott diria que, para que um ser possa sustentar esse estado de calma, precisa ter tido um “ambiente suficientemente bom” — algo que lhe dê uma base segura para existir sem provar o tempo todo o seu valor. Já Heidegger talvez observasse que esse cão simplesmente “era” no mundo, plenamente entregue ao seu caminhar, sem necessidade de representar nada para ninguém.

Penso que muitos dos que encontrei no ambiente acadêmico — e fora dele — poderiam aprender com aquele Rottweiler: menos energia gasta em latir, mais em caminhar.

O mestrado também revelou um espetáculo paralelo ao conteúdo dos seminários: a encenação. E não falo só dos alunos. Alguns professores eram verdadeiros diretores desse teatro, conduzindo cenas com entonação dramática, pausas calculadas e expressões que mereciam um close de cinema europeu. Outros, mais passionais, confundiam ênfase com agressividade, como se o valor de um argumento estivesse no volume da voz ou na força do olhar.

Baudrillard provavelmente se sentiria confortável ali. Ele diria que vivíamos num simulacro de erudição: não importava tanto o que se sabia, mas o quanto aquilo podia ser exibido como signo de conhecimento. O seminário deixava de ser um espaço de investigação e se transformava num desfile — cada fala, um look conceitual.

Já Sloterdijk talvez visse a cena como uma bolha de ar rarefeito: um ecossistema próprio, com suas pressões internas e oxigênio limitado. Ali, o reconhecimento era o verdadeiro combustível. E, como em toda bolha, havia quem flutuasse com elegância e quem passasse o tempo tentando desesperadamente não afundar.

O curioso é que, assim como no teatro, o público (os colegas de sala) tinha um papel ativo: ora aplaudia com entusiasmo, ora torcia o nariz, ora fingia que não via. No fundo, todos estávamos cientes de que, naquele jogo, não bastava ter conteúdo — era preciso performá-lo com alguma graça.

Há algo de inevitável na vida acadêmica — e, arrisco dizer, na vida em geral: estamos sempre sob o olhar de alguém. E, ao mesmo tempo em que julgamos, queremos ser julgados de forma favorável. É um jogo de espelhos, às vezes distorcidos, onde buscamos refletir nossa melhor imagem, mesmo que isso custe algum malabarismo interno.

Winnicott nos lembraria que, para sustentar-se de forma autêntica nesse jogo, é preciso ter um “verdadeiro self” suficientemente vivo para não ser engolido pela necessidade de agradar. Mas, convenhamos, é fácil se perder. O desejo de ser reconhecido, admirado, “o brilhante da turma” pode transformar qualquer pessoa em um personagem cuidadosamente editado para o público.

Na sala de aula, isso se traduzia em apresentações impecavelmente ensaiadas, citações milimetricamente escolhidas e até risadas no tom certo. Fora dela, hoje imagino que se manifestaria em stories de livros abertos com marca-texto, cafés em canecas conceituais e hashtags pretensamente despretensiosas como #EstudosNoAr ou #PensamentoCrítico.

O problema é que, quando a vida vira performance, o risco é esquecermos de viver a própria experiência — como se, ao final, estivéssemos mais preocupados com a foto da trilha do que com a caminhada em si.

Anos depois, continuo achando que meu Rottweiler era mais sábio do que muita gente que conheci no mestrado — e fora dele. Ele conhecia o próprio tamanho e não precisava provar nada a ninguém — ao menos gosto de pensar que sabia disso. Talvez aí residisse sua verdadeira força: não se deixar arrastar pelo barulho dos portões alheios.

O mundo acadêmico — assim como as redes sociais — está cheio de latidos. Uns para intimidar, outros para se proteger, e alguns apenas para lembrar que estão ali. Mas, se inteligência e gentileza andam juntas, como disse Olivia de Lamberterie, talvez o desafio seja aprender a caminhar em silêncio, olhando de frente quando necessário e seguindo adiante quando não vale a pena parar.

No fundo, fico pensando que poderíamos trocar algumas falas inflamadas por um simples suspiro e um passo firme. Menos “story” com filtro e mais substância sem legenda. Afinal, se o que temos a dizer realmente importa, não é preciso gritar.

E, se tudo isso soar provocativo demais, ótimo. Provocação é um convite à conversa — e, quem sabe, à possibilidade de que, no próximo encontro, a gente troque menos latidos e mais ideias.


Baudrillard, J. (1991). Simulacros e simulação. Lisboa: Relógio D’Água.

Heidegger, M. (2005). Ser e tempo (F. Castilho, Trad.). Petrópolis, RJ: Vozes. (Obra original publicada em 1927).

Sloterdijk, P. (2016). Esferas I: bolhas. São Paulo: Estação Liberdade.

Winnicott, D. W. (1975). O brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Imago.

Minne, S. (Host). (2025, 9 fevereiro). Reading wild – stay wild keep reading: Episode 31 [Entrevista com Olivia de Lamberterie] [Podcast]. Reading Wild.

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