Manual do desastre amoroso: edição para corajosos

O que significa amar e ser amado?

Pergunta simples, mas com armadilhas — principalmente quando a gente tenta responder rápido, entregando um pacote engomado de frases feitas. Amar, dizem, é se entregar. Bonito, mas e se essa entrega virar um sequestro emocional? Ser amado, dizem, é ser visto. Encantador, até perceber que esse olhar que nos observa também nos vigia, avalia e cobra como um fiscal de impostos do coração.

O amor, na vida real — e não nas capas de livrarias — parece mais um cigarro esquecido queimando no cinzeiro do que uma flor delicadamente colhida. É uma conversa atravessada na madrugada, cheia de ruídos, silêncios e tropeços. Amar é não saber exatamente o que fazer com o outro, e às vezes nem com o próprio coração. E ser amado… bem, é aceitar que o outro insista em ter certeza sobre quem você é — mesmo quando você nem sabe.

Vincent Estellon, com seu olhar clínico, chama isso de psychopathologie du lien à la vie amoureuse ordinaire (psicopatologia do vínculo na vida amorosa cotidiana): uma dança bizarra entre querer e temer, que passa pela anorexia sexual, dependência afetiva, amor pela dor e busca por amores impossíveis. Não são malucos excêntricos, mas humanos tentando sobreviver ao risco de amar. Byung-Chul Han poderia dizer que hoje queremos o amor embalado, com garantia, mas o amor se recusa a ser vendido assim — ele só chega cru, instável e sem manual de instruções.

Quando o amor sofre um tombo, a gente monta um arsenal de defesas para se proteger. Estellon as chama de défenses anti-amour (defesas contra o amor): algumas quase coreografadas, como dançar na beira do abismo sem despencar; outras invisíveis, como correntes que não deixam nem pular, nem voar. Tem quem escolha a abstinência do toque para não lembrar da última ressaca emocional, e tem quem vire dependente, transformando o parceiro numa droga que ora alivia, ora corrói — como Lygia Vampré Humberg descreve no tal relacionamento adictivo, esse ciclo vicioso de prazer e tormento.

E quando a dose acaba — seja por separação ou esfriamento — o colapso é brutal. É como investir todas as fichas num único lance e descobrir que a casa fechou. Resta o vazio: um deserto onde nem sombra nem abrigo existem. O que assusta é que esse roteiro vira repeteco de novela: os personagens mudam, mas o texto permanece. Freud já avisava: a gente insiste em buscar o que conhece — mesmo quando isso significa voltar para a dor.

O imaginário romântico insiste em dizer que uma relação amorosa se constrói apenas entre “eu” e “você”. Mas René Kaës nos lembra que, quando dois se encontram, muitos outros chegam junto — e nem sempre são convidados. São as vozes herdadas, os pactos silenciosos da família, os segredos nunca ditos, os lutos não chorados. Tudo isso se infiltra no enlace amoroso como herança invisível, mas determinante.

Kaës fala de pactos denegativos: acordos inconscientes que cada um carrega, feitos em outro tempo e outro cenário, mas que seguem ativos, exigindo fidelidade. É assim que, sem perceber, escolhemos parceiros que não apenas nos atraem, mas também confirmam histórias antigas, mantêm feridas abertas ou repetem destinos.

O amor, então, deixa de ser apenas uma troca de olhares ou de corpos. Ele se torna uma rede complexa, onde o desejo de dois se enlaça a tramas de muitos. E se essas tramas são feitas de fantasmas e interditos, o casal acaba dançando uma coreografia que não criou, mas da qual não consegue escapar.

Talvez seja por isso que, às vezes, amar e ser amado pareça menos um encontro espontâneo e mais um ritual repetido, quase uma cerimônia secreta, cujas regras aprendemos antes mesmo de saber que existiam.

Se dependesse de Byung-Chul Han, talvez houvesse um aviso impresso em cada relacionamento moderno: “Este produto pode conter traços de mistério, imprevisibilidade e risco de fratura emocional”. Mas no mercado afetivo de hoje, o consumidor é exigente: quer amor com prazo de validade, garantia estendida e política de devolução sem perguntas.

Han observa que vivemos na era da transparência, onde tudo precisa ser visível, mensurável e decifrável. Só que o amor — esse bicho indomesticável — morre de asfixia quando perde o seu segredo. No lugar da vertigem, buscamos a segurança; no lugar da alteridade, preferimos o reflexo. É o eros transformado em produto premium: bonito, funcional, e que não dá trabalho — até que um dia percebemos que ele também não dá prazer.

A graça de amar está justamente em não existir manual de instruções. E, claro, em aceitar que o outro não é um aplicativo com atualização automática, mas uma presença que nos desinstala — às vezes de forma dolorosa, outras vezes deliciosa. Talvez seja isso que nos assuste tanto: a impossibilidade de “otimizar” o amor como se otimiza um motor de busca.

Afinal, amar e ser amado é também perder o controle — e para um mundo obcecado por performance e eficiência, poucas coisas soam tão perigosas quanto isso.

Amar e ser amado é navegar no mar instável de uma ambivalência profunda: o desejo acende, mas o medo paralisa; a atração fascina, mas a dor espreita. Vincent Estellon nos mostra que essa tensão pode se manifestar em inúmeros sintomas — da dependência afetiva à anorexia sexual — como formas de se proteger do risco inerente ao vínculo. É o coração que se arma para não ser dilacerado.

Lygia Vampré Humberg entra com a imagem do relacionamento adictivo, onde o outro é uma droga que tanto alivia quanto destrói, um ciclo que se repete mesmo quando o sofrimento já está decorado na pele. Essa repetição revela uma escolha inconsciente por aquilo que nos faz falta, mesmo que seja o próprio vazio.

René Kaës amplia a cena, lembrando que o amor nunca é só entre dois corpos: é também uma dança com fantasmas, pactos silenciosos, heranças invisíveis que arrastamos sem pedir licença. O vínculo amoroso, então, é tecido num tear onde se entrelaçam passado e presente, desejo e memória, medo e esperança.

Byung-Chul Han completa o quadro, apontando que vivemos num tempo que quer eliminar o mistério, o risco e o inesperado do amor. Um tempo que deseja um amor “otimizado”, transparente e previsível — mas que, no fundo, não suporta a beleza brutal de se deixar desinstalar pela presença do outro.

Entre o desejo e o medo, talvez o que nos reste seja aceitar essa ambivalência como condição humana — e, quem sabe, reconhecer que amar é antes de tudo um ato de coragem e resistência.

Ah, amar e ser amado… Que tarefa ingrata, essa que nos faz poetas e alucinados, heróis e covardes, vítimas e carrascos. Se alguém prometeu que o amor seria um mar de rosas, certamente esqueceu de avisar que também tem espinhos, urtigas, e aquela irresistível mania de arrancar pedaços da gente mesmo quando queremos só flores.

Vivemos numa época em que o amor virou quase uma commodity: rápido, descartável, regulado por algoritmos e curtidas, um produto que precisa estar sempre em alta performance — com certificado de garantia e direito a devolução. Que decepção descobrir que o amor verdadeiro é bem mais complicado que um aplicativo intuitivo, e que às vezes a gente perde, cai, sofre, e ainda assim volta pra jogar de novo.

Mas talvez seja essa a sua maior virtude — um desafio que não quer ser domesticado, um risco que só vale a pena porque dói, uma vertigem que só existe porque temos medo. E nessa dança de desejos e defesas, entre amores impossíveis e vícios afetivos, cabe a cada um de nós ousar pisar no vazio, rir das próprias feridas e se deixar desmontar pela imprevisibilidade do outro.

Porque, no fundo, amar e ser amado não é um destino, nem um prêmio; é uma aventura permanente, um convite para se perder e se encontrar sem mapa — e, quem sabe, uma das últimas formas de nos sentirmos verdadeiramente vivos.

Então, que tal deixar de lado as certezas por um momento e se arriscar nesse terreno escorregadio? A vertigem do amor está aí, à espera de quem tenha coragem de mergulhar — mesmo sabendo que, no fim, ninguém sai ileso.

E você, vai encarar?


Estellon, V. (2020). Terreur d’aimer et d’être aimé : Psychopathologie du lien et de la vie amoureuse. Éditions érès.

Vampré Humberg, L. (2016). Relacionamentos adictivos: vício e dependência do outro. Editora CLA.

Han, B.-C. (2012). The transparency society [A sociedade da transparência]. Stanford University Press.

Kaës, R. (1999). L’inconscient dans le groupe. Dunod.

Freud, S. (1920). Beyond the pleasure principle. Standard Edition, 18, 1–64.

Green, A. (1999). The dead mother. Karnac Books.

McDougall, J. (1989). Theatres of the body: A psychoanalytic approach to psychosomatic illness. Free Association Books.

Ogden, T. H. (1994). Subjects of analysis. Jason Aronson.

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