Por que escrevo?


Talvez porque não sei — e gosto desse não saber como quem gosta de flanar, aberto ao acaso, só para viver experiências que nem se imaginava.

Marguerite Duras dizia que escrever é tentar saber o que escreveríamos se escrevêssemos. É um labirinto de palavras que só se revela depois de algumas esquinas. Eu caminho dentro dele sem mapa, confiando mais nos tropeços do que nas placas. Não sei se vou encontrar um salão iluminado ou um quarto úmido e abafado. Sei apenas que, onde quer que eu chegue, sairei diferente.

Outro dia, ouvindo o podcast Reading Wild, Adèle van Reeth descrevia a si mesma como leitora em constante mutação: ora compulsiva, ora saturada, ora frustrada. Reconheci-me nesse retrato — não apenas como leitor, mas também como escritor. Porque escrever, no fundo, é aceitar que haverá dias de fúria e dias de jejum. Há textos que se escrevem sozinhos; outros resistem como portas emperradas. E há aqueles que só se abrem quando se deixa a chave de lado e se chuta a fechadura.

Clarice Lispector dizia que escrevia como quem aprende.
Talvez por isso eu escreva: para não me tornar um repetidor de frases prontas. Para ter que caçar a palavra certa como quem caça um animal arisco no mato alto — às vezes ele aparece, às vezes escapa, e aí tenho que inventar outro. Não há nada mais desesperador (e mais excitante) do que se perder no meio de uma frase e não saber como sair dela.

Roland Barthes falava que escrever é o corpo se inscrevendo na linguagem.
Gosto de pensar que, a cada texto, deixo pedaços meus grudados entre as letras. Pequenas pegadas na areia. Não duram muito — a maré vem. Mas, até que a água chegue, alguém pode passar por ali e imaginar quem fui. E, se eu tiver sorte, essa pessoa também deixará uma pegada ao lado da minha. Mesmo sem saber, textos são sempre encontros de rastros.

Camus dizia que escrevia para dizer não e dizer sim ao mesmo tempo.
Eu também. Digo “não” à pressa, à avalanche de vídeos que piscam na tela e desaparecem antes mesmo de fixar um pensamento. Mas digo “sim” à demora. Ao sabor de uma frase que se mastiga devagar. À teimosia de um parágrafo que resiste a ser concluído. Talvez escrever seja meu modo de puxar o freio de mão do mundo — ainda que ele continue correndo.

Para quem escrevo?
Às vezes, para um rosto imaginado. Outras, para os ecos das sessões com meus pacientes — não como relato, mas como prolongamento silencioso. E há dias em que escrevo como quem fala sozinho, só para ver se as palavras ecoam de volta.

No fundo, escrevo para mim.
Para manter as perguntas afiadas, o pensamento inquieto, a atenção menos dócil. Para resistir à maciez hipnótica da distração infinita — sempre colorida, ruidosa, mas esquecida no instante seguinte. Escrevo porque, se não escrevo, começo a sentir que a maré está subindo rápido demais, apagando tudo.

Quando termino um texto, leio-o como quem encontra uma fotografia antiga. É meu, mas já não sou exatamente aquele. E isso é libertador: é sinal de que o próximo virá com outra pegada, outro cheiro, outro peso.

Não escrevo porque sei por que escrevo.
Escrevo para continuar a não saber — mas de um jeito cada vez mais meu.

E, se um dia eu souber… talvez nem conte. Vai que estraga o mistério.

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