Obsolescência programada: do café quente a amores frios

Recebi a notícia como quem recebe uma sentença de morte. A minha cafeteira — essa senhora de cápsulas, discreta e eficiente, que por dez anos me serviu com a fidelidade de um mordomo inglês — estava condenada. Não pelo tempo, não pelo cansaço, não pelo estalo final das engrenagens. Mas pela decisão fria de um tribunal invisível: a fábrica. A assistência técnica, em tom burocrático, me informou que o modelo fora descontinuado. Não havia mais peças, nem conserto, nem futuro. A máquina ainda pulsava, ainda borbulhava água, ainda exalava o aroma quente da manhã. Mas, para o mercado, ela já estava morta.

Foi como se dissessem que minha mãe, lúcida e firme, não teria mais direito a médico porque já passara da idade regulamentar. E para completar a crueldade, ofereceram-me cinquenta reais — cinquenta! — para que eles próprios, piedosos coveiros, fizessem o descarte.

A máquina, repito, funciona. É preciso insistir, martelar essa verdade como quem defende um inocente num tribunal de exceção. Funciona! Gira, esquenta, cospe café. O que lhe falta? Nada. O que lhe sobra? Tempo de vida. O que lhe condena? A sentença invisível da indústria.

Não foi o defeito que a matou, foi o calendário. A cada três anos, mais ou menos, ela exigia uma limpeza, um recalibrar. Nada diferente de nós mesmos: o check-up médico, o dentista, a confissão no divã. Mas desta vez não havia salvação. O veredito era seco: “Não atendemos mais este modelo”. E pronto.

E como não bastasse o assassinato técnico, veio o insulto final: ofereceram cinquenta reais para o descarte, como quem oferece uma esmola pelo cadáver. Imagine a cena: eu, enlutado, entregando minha cafeteira viva a um funcionário sorridente, que me garante um destino digno no lixo eletrônico. A indústria, que a matou, ainda se propõe a cuidar do enterro. E com desconto.

Byung-Chul Han já nos avisou: vivemos na era do excesso e do descarte. O objeto não precisa quebrar para ser jogado fora; basta envelhecer, perder o brilho, deixar de exibir a promessa de novidade. A obsolescência programada é a religião do nosso tempo: um culto minuciosamente coreografado em que os deuses são manuais de instrução e os altares, vitrines reluzentes de shopping.

Zygmunt Bauman, por sua vez, falava da “vida para consumo”. Relações, empregos, afetos — tudo convertido em mercadoria com prazo de validade impresso no rótulo invisível. O amor líquido, os objetos líquidos, as promessas que evaporam. A cafeteira não foi descartada porque falhou, mas porque não se encaixa mais na lógica do hiperconsumo.

E Gilles Lipovetsky completaria o coro: é a “felicidade paradoxal”. O mercado nos seduz com a promessa do sempre novo, do mais moderno, do mais rápido — e, para isso, precisa decretar a morte antecipada do que ainda respira. A satisfação não vem de ter, mas de substituir. Cada compra é um velório disfarçado de festa.

No fundo, a cafeteira é apenas a caricatura do que já fazemos com gente. Somos, todos nós, descontinuados em silêncio. O amigo que já não diverte é arquivado. O amor que já não excita é deletado com a frieza de um “arrastar para lixeira”. O corpo que já não corresponde ao ideal estético é banido do altar das redes sociais.

Nelson Rodrigues, se escrevesse hoje, não falaria apenas das traições conjugais. Diria que vivemos na era da infidelidade programada. Não há promessa que dure além da atualização do sistema. Tudo precisa ser substituído — de celulares a convicções morais, de relacionamentos a cafeteiras.

E, no entanto, carregamos essa farsa com naturalidade. Fingimos surpresa quando somos descartados, como se não estivéssemos também descartando outros todos os dias. A obsolescência não é só programada pela indústria; ela se infiltrou na alma. Somos os nossos próprios fabricantes, os nossos próprios coveiros.

Imagino, sem pudor, um velório para minha cafeteira. Ela, deitada sobre uma mesa com o corpo metálico ainda quente, exalando seu último cheiro de café. Em volta, amigos e parentes emocionados — a torradeira, o liquidificador, o micro-ondas — todos já conscientes de que a morte, para eles, também é questão de tempo.

E lá está a indústria, sorridente, trazendo coroas de flores plásticas e folhetos promocionais do novo modelo. Coveiros gentis, vestidos de vendedores. Eles choram por um olho e piscam pelo outro: “Sinto muito pela perda, mas veja só esta oferta imperdível: a nova cafeteira, agora com conexão bluetooth, faz espuma em cinco segundos e, claro, será descontinuada em breve”.

O grotesco se confunde com o sublime. Não é apenas um aparelho que morre, mas uma certa ideia de permanência, de fidelidade. Cada compra já traz embutido o funeral. Cada brinde é uma lápide.

E então me pergunto: se até a cafeteira é declarada obsoleta antes de parar de funcionar, o que dizer de nós? Em que momento alguém nos avisará que já não temos assistência técnica, que nossas peças foram descontinuadas, que não vale mais a pena investir em reparo? Seremos também recolhidos por cinquenta reais e enviados ao descarte ecológico?

Talvez, no fundo, já estejamos vivendo esse destino. Quem nunca sentiu a estranha sensação de ser “atualizável”, de precisar se reinventar não por desejo, mas por decreto? Não se trata de envelhecer: trata-se de ser assassinado pelo calendário.

E é aí que mora a tragédia: na vida contemporânea, nada morre de morte natural. Tudo — pessoas, ideias, máquinas, afetos — é empurrado para o túmulo pela mesma mão invisível que, piedosa, nos oferece o próximo modelo.

Eis a obsolescência programada: a certeza de que, no teatro do consumo, não há eternidade. Apenas uma fila de enterros com hora marcada, cada qual disfarçado de lançamento.


  • Bauman, Z. (2007). Vida para consumo: A transformação das pessoas em mercadoria.
  • Han, B.-C. (2015). Sociedade do cansaço.
  • Lipovetsky, G. (2007). A felicidade paradoxal: Ensaio sobre a sociedade do hiperconsumo.
  • Rodrigues, N. (1993). A vida como ela é.

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