Dia do Psicólogo – Entre a escuta e o existir

A Psicologia nasceu como o desejo humano de compreender aquilo que não se deixa capturar facilmente: a alma, o sopro, o que escapa quando tentamos nomear. Desde os antigos filósofos, que falavam da psyche como princípio vital, até os laboratórios experimentais do século XIX, o que sempre esteve em jogo não foi apenas medir o comportamento, mas buscar um modo de escutar o mistério de ser humano. Psicologia não é só ciência — é também arte do encontro, exercício de atenção, um chamado para cuidar do invisível.

Foi nesse chamado que, sem saber, comecei a me aproximar da Psicologia. Antes de ser psicólogo, fui professor de inglês. Ali, entre livros e quadros, o que mais me fascinava não eram apenas as palavras que ensinava, mas os gestos silenciosos dos alunos diante da aprendizagem. O corpo falava, os olhares diziam, o silêncio gritava. A vida me entregava pequenas pistas de que eu já escutava, mesmo sem saber.

Vieram os livros, como sinais que se deixam encontrar: a mitologia, a linguagem do corpo, as múltiplas inteligências. Cada leitura era como uma porta aberta para dentro de mim mesmo. Mas foi preciso um acidente de carro para que eu decidisse, de fato, atravessar a soleira e ingressar na faculdade de Psicologia.

Como em todo percurso, houve encantos e desencantos. No início, buscava na Psicologia uma métrica, uma objetividade: queria compreender a inteligência em números, a aprendizagem em fórmulas. Encantei-me com as teorias cognitivas e comportamentais, talvez menos pela teoria em si e mais pela professora que, com paixão e rigor, me mostrou que aprender também é um ato de afeto. Foi aí que percebi: ninguém aprende sem ser tocado por alguém. O conhecimento não se transmite apenas, ele se contagia.

Mas então veio a Psicanálise, e foi como dizem os franceses: coup de foudre [tradução literal: golpe de relâmpago – ou o que costumamos dizer: amor à primeira vista]. Ali encontrei não apenas conceitos, mas um espelho para minhas inquietações. Descobri que a Psicologia não era só instrumento de mensuração, mas um mergulho no que se move por baixo da superfície. A clínica me chamava, e a cada passo meus estudos se afinavam com esse espaço de escuta e silêncio.

Após a formatura, a vida, com sua generosidade misteriosa, foi abrindo portas. Uma professora me ofereceu seu consultório, depois um outro professor me ajudou a ter o meu próprio espaço. Vieram cursos, extensão, especialização, mestrado — mas sobretudo veio o compromisso de estar ali, sentado, diante do outro, escutando.

E o que escuto? Mais do que histórias, escuto a vida em sua nudez: o amor, o medo, o desejo de ser amado, as dores, os traumas, os sonhos. Escuto o silêncio e o não-dito. Escuto aquilo que, muitas vezes, o próprio sujeito não sabe dizer de si. E, ao escutar, aprendo que meu ofício não é resolver apressadamente, mas sustentar o tempo necessário para que o quebra-cabeça tome forma, até que juntos possamos vislumbrar uma imagem mais nítida do existir.

Ser psicólogo é caminhar num ofício inquieto, solitário em certos momentos, exigente em todos. Requer estudo constante, supervisão, análise pessoal — mas, sobretudo, requer abertura para ser atravessado pela experiência do outro. Exige a coragem de não fugir do sofrimento humano, de habitar junto com o paciente o espaço onde dor e esperança se entrelaçam.

Hoje, no Dia do Psicólogo, olho para minha trajetória e sinto apenas gratidão. Gratidão aos mestres que iluminaram o caminho, aos colegas que dividem comigo o peso e a beleza desse ofício, e principalmente a cada paciente que se senta diante de mim e me confia sua palavra. A cada um, devo a possibilidade de continuar aprendendo, crescendo e descobrindo que a Psicologia, antes de ser profissão, é um modo de estar no mundo.

Ser psicólogo é, no fundo, um exercício de humanidade. É estar ali, diante do outro, e reconhecer: “eu também sou feito de fragilidades”. É aprender que escutar não é passividade, mas um gesto ativo de cuidado. É saber que, quando alguém ousa falar, não fala apenas de si, mas fala da condição humana que nos habita a todos.

A Psicologia, para mim, é isso: uma forma de dizer sim à vida, mesmo quando ela chega ferida. É dar morada ao ser e é também, como Mia Couto nos lembra, “escutar o silêncio das coisas que não sabem se dizer”.

No Dia do Psicólogo, brindo à escuta que se tornou meu ofício e minha morada. Brindo à coragem dos que buscam a si mesmos, e à generosidade de cada história que me é confiada. Que a Psicologia continue a ser essa ponte entre o que somos e o que podemos ser, essa arte de dar voz ao silêncio e acolher a vida em sua inteireza. Feliz Dia do Psicólogo!


Nota: No Brasil, o Dia do Psicólogo é comemorado em 27 de agosto, data que remete à promulgação da lei que regulamentou a Psicologia como profissão no país. Já no cenário internacional, 14 de abril é celebrado o Dia Mundial do Psicólogo, reconhecido pela ONU, que busca promover debates sobre a Psicologia e a saúde mental em nível global, ressaltando a importância do cuidado psicológico e do bem-estar emocional em diferentes culturas e contextos.

Deixe um comentário

Eu sou Renne

Boas vindas! Este não é um site de respostas rápidas, é um espaço de escuta e reflexão…

Aqui, a psicologia e a psicanálise não aparecem como manuais de comportamento, mas como modos de pensar a experiência humana, suas contradições, seus impasses e suas delicadezas.

Então, se quiser, pegue um café ou uma água de coco e deixe que os textos encontrem o seu tempo.