Virilidade à venda: a tragédia cômica de ser homem

Cá estou eu, mais uma vez, para falar de um tema que já trouxe aqui antes. E, como sempre acontece quando penso que já explorei o assunto, aparece algo que me cutuca de novo. Desta vez, foi o podcast francês Les Couilles sur la table que me deixou inquieto e inspirado a escrever sobre virilidade — esse enigma cultural que atravessa séculos, ritos, guerras, humilhações e, mais recentemente, até corridas de espermatozoides em Los Angeles.

Seja na Grécia Antiga com seus rituais iniciáticos, seja no serviço militar com marchas exaustivas e cabeças raspadas, ou ainda nas salas de aula da escola republicana com castigos e obediência forçada, a mensagem parece sempre a mesma: ser homem não é algo dado, é algo conquistado à custa de dor, silêncio e, de preferência, uma boa dose de violência.

E aqui falo também como homem: cresci dentro desse cenário, ouvindo cobranças explícitas e sutis, a imposição para ser “forte”, “duro”, “invulnerável”. Spoiler: nunca será suficiente. Sempre há alguém para lembrar que você pode — e deve — ser “mais homem”. A virilidade é uma corrida sem linha de chegada, uma maratona que começa cedo e nunca termina.

Talvez por isso, quando escuto essas conversas e leio autoras como Olivia Gazalé, percebo que não se trata apenas de um conjunto de práticas culturais, mas de um verdadeiro sistema: uma engrenagem que molda, oprime e vigia. Um sistema que parece ter menos a ver com o “pai” — como o termo patriarcado sugere — e mais com o espetáculo constante da virilidade, aquilo que Gazalé chama de “sistema viriarcal”.

Olivia Gazalé chama de sistema viriarcal essa engrenagem que fabrica homens viris em série. Diferente do termo patriarcado, que coloca o poder na figura do pai, ela prefere enfatizar a exigência de exibir atributos viris — força, dureza, potência — como condição de reconhecimento social. Não basta nascer homem: é preciso provar, performar, repetir.

Esse sistema tem três pilares nada discretos: dominação, repressão emocional e violência. Dominação sobre a natureza, sobre povos, sobre mulheres, e sobretudo sobre outros homens. Repressão das emoções, porque chorar, sentir medo ou admitir vulnerabilidade sempre foi “coisa de mulher”. Violência, porque sem a promessa de saber bater e aguentar pancada, o ingresso no clube da virilidade não se valida.

E como todo bom mito, a virilidade não é natural: foi inventada. Alain Corbin, Jean-Jacques Courtine e Georges Vigarello mostram, em sua monumental Histoire de la virilité, que o que significa “ser viril” mudou radicalmente ao longo dos séculos. O guerreiro romano, o cavaleiro medieval, o cortesão renascentista e o soldado republicano francês não têm muito em comum, exceto a necessidade de encarnar uma versão aceitável do ideal do seu tempo.

Elisabeth Badinter, em XY: De l’identité masculine, também lembra que a fórmula cromossômica não basta para definir a identidade masculina. Durante muito tempo, parecia óbvio que todo homem deveria corresponder a um ideal fixo. Mas, com o movimento feminista e as mudanças culturais do último século, esse ideal ruiu. Hoje, os homens se veem obrigados a perguntar o que significa, afinal, ser homem — e a resposta não está em nenhum manual de genética.

Pierre Bourdieu ajuda a entender por que tudo isso parece tão “natural”. Em La domination masculine, ele mostra que a virilidade é um poder simbólico: uma construção cultural que se impõe como se fosse evidente, inscrita nos corpos, nos gestos, na linguagem. O que soa como “instinto masculino” é, na verdade, resultado de séculos de pedagogia da virilidade, de ritos dolorosos e de um policiamento cotidiano das condutas. É a naturalização do artificial.

O problema é que esse ideal nunca foi democrático. Ele excluiu e estigmatizou todos os que não se encaixavam: os pobres, os estrangeiros, os homossexuais, os homens considerados “afeminados”. A virilidade é uma festa de poucos, paga com o sofrimento de muitos. Uma armadilha em que homens e mulheres acabam presos.

Se a virilidade fosse só uma questão de se impor sobre mulheres ou conquistar território, ainda seria relativamente simples — embora nada agradável. Mas não, ela também se exerce entre homens. E é aqui que o sistema viriarcal mostra seu lado mais perverso e cômico: golpes, humilhações, testes de resistência, rituais dolorosos e a eterna competição pelo selo de “verdadeiro homem”.

Do serviço militar com marchas exaustivas e instruções de obediência cega, às humilhações na escola, passando pelos ritos de iniciação que mais parecem tortura, os homens aprendem cedo que fazer parte do clube da virilidade exige sofrimento. Não é apenas sobre força física: é sobre provar que você consegue aguentar a pressão, engolir o medo e esconder qualquer sinal de fraqueza.

Crescer nesse cenário se percebe muito cedo que nunca há descanso. Sempre há alguém avaliando — e criticando — sua masculinidade. E, caso falhe, a humilhação vem em dose dupla: a primeira, interna, pelo próprio julgamento; a segunda, externa, pela pressão social. Homens aprendem a vigiar uns aos outros como fiscais de um manual invisível, aplicando castigos simbólicos que vão do sarcasmo à exclusão.

E, claro, nem precisamos recuar à Grécia Antiga ou à obediência fascista para entender o mecanismo. A lógica permanece: a virilidade se sustenta e se reproduz por meio de violência entre pares. É uma competição contínua, um reality show cruel sem câmeras, mas com plateia sempre pronta a julgar.

Mas, se pensarmos bem, talvez seja isso que torna o sistema tão resistente: a virilidade nunca é apenas individual; ela é coletiva, performada e monitorada, internalizada pelos próprios homens. Um círculo vicioso de pressão, dor e performance, que transforma a vida adulta em um palco constante, onde todos esperam que você seja mais forte, mais rápido, mais duro — mais homem.

Se no passado a virilidade se media em batalhas, rituais de dor ou concursos de força, hoje ela se transformou em espetáculo — literalmente. Em Los Angeles, no dia 25 de abril, ocorreu a primeira corrida de espermatozoides do mundo, batizada de Spermule 1. Um evento com direito a público, comentaristas, luzes de palco e até bilheteria VIP. E, claro, todo o glamour de um show hollywoodiano.

A lógica é simples e absurda: os homens agora podem competir para descobrir quem tem os espermatozoides mais rápidos, fortes… e, vejam só, mais “deliciosos”. O que poderia ser apenas uma curiosidade científica virou uma performance simbólica da masculinidade, com regras próprias e uma cerimônia que mistura frustração, euforia e humilhação pública. O perdedor, aspergido com um líquido suspeitosamente parecido com sêmen, é lembrado de que, afinal, a virilidade ainda é uma corrida — agora microscópica, mas igualmente cruel.

E há um fundo sério por trás do show: a queda de fertilidade masculina nas últimas cinco décadas. É a versão contemporânea de medir a potência masculina, mas agora com câmeras de alta definição e gráficos 3D. A competição não é mais apenas simbólica; ela é biológica, monitorada e transmitida ao vivo, um espetáculo que mistura ciência, marketing e um certo toque de sadismo.

Se Bourdieu estivesse aqui, provavelmente chamaria isso de poder simbólico em alta definição: a virilidade não é apenas o que você sente ou faz, é também como ela é performada, observada e avaliada. Da espada de Aquiles às microcorridas de espermatozoides, o homem ainda se encontra em competição — mas, agora, com público, luzes e hashtags.

Observando esse panorama, fica evidente como a pressão silenciosa para se tornar “mais homem” atravessa gerações e contextos. A virilidade, longe de ser um atributo natural, mantém-se como uma performance cultural, agora intensificada por cenografia, marketing e transmissão em tempo real, revelando a teatralidade de padrões que moldam comportamentos e expectativas.

Se a virilidade sempre foi uma corrida — às vezes sangrenta, às vezes tragicômica — talvez esteja na hora de parar de medir tudo com régua, cronômetro ou microscópio. Olivia Gazalé insiste: o caminho não é resgatar o antigo modelo, mas criar espaço para uma masculinidade plural, capaz de abraçar vulnerabilidade, afeto e diversidade.

Hoje, ser homem não precisa mais significar engolir medo, esconder emoções ou provar força a cada esquina. É possível imaginar homens que se expressem sem a constante vigilância do “manual invisível da virilidade”, homens que dialoguem com seu próprio corpo, com seus sentimentos e com o mundo de forma mais ampla. Badinter já anunciava isso nos anos 1990: a identidade masculina não se reduz à fórmula XY, e nem precisa se submeter a estereótipos rígidos.

E há algo civilizatório nesse colapso do mito da virilidade: quando a pressão para performar desaparece, abre-se espaço para relações mais igualitárias, para escolhas conscientes e para um humor saudável sobre o que significa ser homem. Afinal, se a virilidade pode ser medida em espermatozoides correndo, talvez também possa ser medida em empatia, criatividade, escuta ou simplesmente liberdade.

O simples fato de existir diálogo — entre mulheres e, sobretudo, homens — sobre a questão da virilidade indica que há esperança. Reinventar-se não é sinal de fraqueza, mas de coragem: é rir de si mesmo, acolher vulnerabilidades e, ao mesmo tempo, repensar o que realmente vale a pena perseguir.

Da lança de Aquiles às corridas de espermatozoides em Los Angeles, os homens sempre encontraram formas engenhosas — e pateticamente criativas — de provar sua virilidade. Ritos dolorosos, humilhações escolares, serviços militares, testes de força e, agora, gráficos 3D de esperma em pista de corrida: parece que nada escapa à necessidade de medir quem é “mais homem”.

Crescer nesse cenário é como participar de um reality show absurdo sem saber que há câmeras escondidas. Aprendemos a engolir lágrimas, a mascarar medo, a rir de nós mesmos enquanto a sociedade nos observava julgando cada gesto, cada respiração, cada desempenho. E, mesmo assim, nunca éramos suficientes. Sempre havia um árbitro invisível pronto para nos marcar um “erro de masculinidade”.

Mas, e se a grande graça desse teatro todo for justamente perceber que a virilidade sempre foi uma farsa? Que o manual que nos deram é tão útil quanto uma bússola quebrada no deserto? Talvez o verdadeiro poder esteja em rir disso — de rir alto, de rir juntos, de rir de si mesmo — e ao mesmo tempo escolher uma masculinidade que não precise de troféus microscópicos, uniformes rígidos ou testes de resistência perpétuos.

Ser homem, afinal, não precisa ser sinônimo de dominação, silenciamento ou espetáculo. Pode ser coragem para sentir, para errar, para se transformar. Pode ser ética, empatia e criatividade. Pode ser poesia, vulnerabilidade, liberdade. Quem sabe, finalmente, possamos transformar a eterna corrida da virilidade em algo mais interessante: uma dança — imperfeita, humana e coletiva — onde cada homem decide seu próprio ritmo.

E, convenhamos, seria delicioso assistir a todos os aspirantes a “mais viris” tropeçando juntos nesse palco da vida, sem prêmio, sem microcâmera, apenas rindo da própria loucura. Porque talvez, no fim, o maior ato de coragem masculina seja não levar a virilidade a sério.


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