Foi diante de uma tela, revendo o Harry Potter 20th Anniversary: Return to Hogwarts, que me vi tomado por uma estranha melancolia. Não era apenas um reencontro com atores que haviam crescido, mas um reencontro com o tempo — esse personagem invisível que sempre está em cena, mesmo quando fingimos que não existe.
A cada bastidor revelado, não era a magia do cinema que mais me prendia, mas a alquimia da vida: crianças que aprenderam a adolescer sob câmeras, amizades que resistiram às marés dos anos, capítulos que se fecharam como livros que já não terão continuação.
Emma Watson, ao recordar o abraço de Hermione em Harry, pouco antes de ele seguir sozinho à floresta proibida, confessou que sabia: aquele gesto não era só parte de um roteiro. Era o adeus a uma era inteira, à infância compartilhada, ao ciclo que se encerrava diante de milhões de olhos. E foi nesse instante que compreendi: cada despedida guarda, silenciosamente, a revelação de que a travessia chegou ao seu destino.
Percebi então algo simples e profundo: a vida é feita de capítulos que, ao se encerrarem, deixam atrás de si um silêncio que não é vazio, mas eco. Esse eco é memória — a lembrança de quem fomos, do que sonhamos, das mãos que nos acompanharam por um tempo e depois seguiram outros caminhos.

Ciclos da vida
Tudo que começa já traz em si o anúncio da despedida. Como uma semente que, ao romper a terra, já carrega no ventre a promessa da árvore e a certeza da queda das folhas. A vida não se desenrola em linha reta, mas em círculos que se abrem e se fecham, silenciosamente, no compasso do tempo.
A infância é o primeiro desses grandes ciclos: lugar de invenção, de brincar, de experimentar-se em mundos possíveis. Winnicott dizia que o brincar é o laboratório da alma, o ensaio de um ser que ainda não sabe o que será. Já a adolescência é o ensaio maior — é quando arriscamos os primeiros voos, acreditando que cada amizade será eterna, que cada paixão carregará o selo do “para sempre”.
Mas o tempo, mestre paciente, ensina-nos outra coisa. Amigos que jurávamos inseparáveis se perdem na distância; sonhos que pareciam urgentes se dissolvem como neblina. O que fica? Talvez apenas marcas — não marcas que se veem, mas que se sentem: na forma como aprendemos a confiar, a amar, a temer, a esperar. A adolescência não termina; ela se aloja em nós como uma sala onde ainda ressoam vozes antigas.
Assim, cada ciclo é mais que passagem: é morada. E quando partimos dele, levamos conosco não apenas lembranças, mas também a forma como aprendemos a habitar o mundo.
Memória e nostalgia
Há lembranças que não voltam como fatos, mas como perfumes. Um aroma esquecido que invade o ar e, de repente, nos devolve àquele quarto pequeno, ao riso de uma tarde, ao toque de uma amizade que já não existe mais. A memória não se comporta como arquivo: ela é mais parecida com a água — escapa entre os dedos, mas deixa a pele úmida, marcada.
Na adolescência, eu escrevia cartas. As palavras demoravam a atravessar o tempo, viajando em envelopes que carregavam não apenas tinta, mas também silêncio e incerteza. Havia beleza nesse intervalo, um espaço onde a imaginação florescia. Hoje, a tecnologia roubou esse encanto: tudo chega depressa, sem margem para a demora, sem o mistério do desconhecido. As respostas que outrora repousavam numa caixa, ao lado de postais vindos de cidades em que nunca estive, eram mais do que lembranças — eram espelhos. Ali, entre papéis amarelados, eu me descobria, mesmo antes de saber quem seria.
René Kaës lembra que levamos dentro de nós as vozes daqueles que estiveram próximos. Eles nos habitam como presenças invisíveis, mesmo quando já não sabemos por onde andam. Talvez seja isso que a nostalgia nos ensina: o que passa não passa inteiramente. Fica entranhado no corpo, nos gestos, até no modo de olhar o mundo.
Às vezes, basta um filme, uma música, uma fotografia esquecida para que esse passado desperte. É como se alguém batesse levemente à porta da alma e dissesse: “ainda estou aqui”. Não como presença concreta, mas como lembrança viva, como marca que não se apaga.
E, no entanto, a nostalgia não é apenas perda. É também reencontro. Ao recordar, não volto ao que foi; volto ao que permanece em mim do que foi. A saudade, então, é um modo de permanecer habitado — por amigos que já não vejo, por sonhos que já não sonho, por amores que ficaram na curva do caminho.
Complexidade da existência
A vida não se deixa prender em mapas. É rio que se divide em afluentes, é maré que avança e recua, é caminho que se bifurca sem pedir licença. Edgar Morin nos lembra que somos seres de complexidade: feitos de contradições, de fios entrelaçados, de destinos que não se desenham em retas.
Cada ciclo que se fecha não é apenas término — é também dobra, desvio, mutação. O que chamamos fim é, muitas vezes, uma metamorfose discreta: uma amizade que muda de forma, um sonho que se reconfigura, um amor que se transforma em silêncio. Viver é aprender a reconhecer que a continuidade se esconde dentro da mudança.
Heidegger falaria do “ser-para-o-tempo”: estamos sempre a caminho, lançados numa travessia que não sabemos aonde leva. Não existe ponto fixo: apenas instantes que se acendem e se apagam, como estrelas que brilham só até onde a vista alcança. Somos sempre inacabados, provisórios, feitos de fragmentos.
E, no entanto, é nesse inacabamento que a existência encontra sua beleza. Se tudo fosse definitivo, não haveria espaço para o novo. O inesperado, o acaso, as reviravoltas — são eles que dão espessura à vida. Morin nos ensina que a complexidade não é um problema a resolver, mas um modo de habitar o mundo: aceitar a incerteza, acolher as ambiguidades, reconhecer que somos feitos de múltiplas histórias ao mesmo tempo.
Assim, cada ciclo que termina não nos reduz — nos multiplica. O passado não é descartado: ele se reescreve em nós, como camada, como palimpsesto. E é nesse entrelaçamento de tempos que seguimos, sustentados pelo que já fomos e impulsionados pelo que ainda não sabemos ser.
Esperança e sonhos
Manoel de Barros nos oferece um verbo raro: transver. Não basta olhar, não basta rever; é preciso dar ao mundo novos olhos. “O olho vê, a lembrança revê, e a imaginação transvê.” A esperança talvez more nesse espaço: na possibilidade de não nos contentarmos com a superfície do real, mas ousarmos enxergar o que ainda não existe.
Os ciclos, quando se fecham, podem parecer definitivos, mas a arte de transver nos mostra outra saída: aquilo que terminou pode ser visto como início, o que se perdeu pode se reinventar em nova forma. A despedida, transvista, é também promessa.
“Só a alma atormentada pode trazer para a voz um formato de pássaro”, escreveu Manoel. Talvez seja esse o segredo do sonho: mesmo ferida, a alma ainda encontra asas. Não se trata de negar a dor, mas de transformá-la em voo.
Assim, sonhar não é ingenuidade, mas resistência. É o gesto de quem insiste em criar futuros mesmo no terreno das ruínas. É a coragem de olhar para o mundo gasto, repetido, cansado — e ainda assim enxergar nele um lampejo de novidade.
Esperança é isso: a capacidade de transver. De olhar para a vida não como um inventário de fins, mas como uma sucessão de metamorfoses. Cada ciclo que se encerra não é um ponto final, mas um convite a imaginar outros caminhos possíveis.

Conclusão: páginas da vida
Volto à cena inicial: Emma Watson abraçando Harry antes de sua travessia solitária na floresta proibida. Não era só Hermione despedindo-se do amigo. Era também Emma despedindo-se de uma infância vivida sob câmeras, de uma era que não voltaria mais. Havia nesse abraço o gesto simples e imenso de quem sabe: certos ciclos não se repetem, apenas permanecem como eco.
Enquanto assistia, recordei meus próprios abraços de despedida. Lembrei das cartas guardadas numa caixa, dos postais que vinham de cidades distantes, do hospital onde, ainda menino [um dia conto esta história], aprendi que o corpo é frágil e a vida é sempre por um fio. Tudo isso são capítulos que não voltam, mas que seguem em mim como cicatrizes luminosas. Cada perda, cada travessia, cada espera me compõe como quem borda um tecido cheio de remendos — e é nesses remendos que a vida mais respira.
Talvez viver seja isso: estender um adeus até que ele se transforme em encontro. É saber que o fim se aproxima e, mesmo assim, guardar a coragem de continuar. É olhar para trás e reconhecer que cada ciclo não se perdeu: ele apenas mudou de roupa dentro de nós.
Os ciclos nos ensinam que não somos donos do tempo. Somos apenas hóspedes de instantes. E cabe a nós habitá-los com delicadeza, como quem escreve uma carta sem saber se ela será respondida.
Porque no fundo, cada fim é também convite. Convite para novos mundos, novas amizades, novas histórias que ainda não sabemos nomear. A vida é esse livro que nunca se fecha de verdade: apenas vira páginas. E enquanto houver páginas, haverá também o milagre de começar outra vez.
Referências
- Barros, M. de. (2016). Livro sobre nada. Rio de Janeiro: Alfaguara.
- Kaës, R. (2001). A psicanálise e os grupos: da relação primária ao grupo-psicoterápico. Rio de Janeiro: Zahar.
- Morin, E. (2005). Introdução ao pensamento complexo. Porto Alegre: Sulina.
- Winnicott, D. W. (1975). Playing and reality. London: Tavistock.
- HBO Max. (2022). Harry Potter 20th Anniversary: Return to Hogwarts [Special].


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