Não consigo lembrar exatamente quantos anos eu tinha quando isso aconteceu — talvez sete ou oito. Nessa idade, o mundo ainda parece vasto, estranho, cheio de sombras à espera de revelar seus segredos. Morávamos numa casa pequena, cuja parede dos fundos dava para um depósito estreito pertencente a um mercadinho da vizinhança. Era o tipo de lugar onde fofoca e medo viajavam mais rápido que o vento, e onde um único boato podia eletrizar todo o bairro.
Naquele ano, um desses rumores se espalhou como fogo em palha seca: um criminoso perigoso havia escapado e dizia-se que estaria escondido por ali. Durante dias, as conversas nas portas e nos balcões das lojas giravam em torno dessa figura assustadora. Ele não tinha rosto, nem nome, mas estava vivíssimo em nossa imaginação. E como meu pai frequentemente trabalhava fora, minha mãe, minha irmã de onze anos, meu irmãozinho de colo e eu ficávamos sozinhos, acompanhados apenas pelos sussurros da rua e pelas nossas próprias mentes ansiosas.
Foi numa dessas noites que o ouvimos pela primeira vez. Um som, baixo mas insistente, atravessando as paredes. No começo parecia algo sendo arrastado, depois como alguém tentando abrir uma porta, e então, inconfundivelmente, como unhas ou ferramentas arranhando a madeira. Minha mãe parou imóvel. Minha irmã me olhou com olhos tão arregalados que pareciam engolir a escuridão. Meu irmãozinho, pequeno demais para entender, balbuciava coisas que só intensificavam a estranheza daquele momento.
Minha mãe se mexeu rápido, empilhando móveis pesados contra as portas, um ritual silencioso de defesa. Todos terminamos amontoados no quarto dela, atentos a cada estalo do piso, a cada sopro do vento lá fora, a cada pulsação da nossa própria respiração. O tempo desacelerou, se esticou, se dobrou em torno daquele som que não conseguíamos explicar. Em algum lugar lá fora — talvez logo atrás da parede — o intruso esperava.
O que me fascina hoje não é o barulho em si, mas o modo como nossas mentes preencheram as lacunas. Porque sabíamos que havia um criminoso à solta, porque o medo já tinha preparado o palco, não conseguíamos mais ouvir um som inocente. O desconhecido se tornou imediatamente ameaçador. O banal foi engolido pelo extraordinário.
É justamente aí que a psicanálise se torna reveladora. Freud, em seu ensaio sobre O Inquietante (Das Unheimliche), descreve aquela sensação peculiar de desconforto quando algo familiar se torna estranho. Uma parede rangendo, uma cortina tremulando, o eco de passos — tudo isso pertence ao campo do comum, mas sob a pressão do medo, se transforma em algo sinistro. O ruído que ouvimos naquela noite não era apenas som; era o retorno do recalcado, uma erupção de ansiedade projetada sobre o mundo exterior.
A mente nunca está inteiramente sozinha. Somos seres porosos, constantemente absorvendo e transmitindo emoções, sobretudo em grupo. O medo é contagioso. A tensão da minha mãe contaminou minha irmã, cujos olhos arregalados me contagiaram, até que todos estávamos presos num ciclo de reforço mútuo. Naquele instante, tínhamos nos tornado um pequeno coletivo emocional, unidos não pela razão, mas pelo pavor compartilhado. Era como se estivéssemos “colonizados” por uma narrativa que nunca foi totalmente nossa, mas sim tecida pela comunidade, pelo boato, pela figura sem rosto que rondava a vizinhança.
Wilfred Bion acrescentaria outra camada. Ele falava frequentemente da dificuldade humana de suportar o não saber, de permanecer aberto à incerteza. Em vez de sustentar o vazio e esperar para ver o que ele poderia revelar, a mente corre para preenchê-lo com fantasia. Bion chamava essa capacidade de sustentar a dúvida de capacidade negativa, emprestando o termo do poeta John Keats. Naquela noite, nenhum de nós a possuía. Diante do arranhar ambíguo na parede, não suportamos a incerteza. Precisávamos imaginar um ladrão, um homem violento, uma sombra pronta para invadir. Era mais seguro, paradoxalmente, inventar uma narrativa apavorante do que admitir que simplesmente não sabíamos.
E assim, nossa pequena casa virou palco para o teatro do medo. Minha mãe, a protetora, erguendo barricadas nas portas. Minha irmã e eu, as crianças vigilantes, forçando os ouvidos em busca de provas da invasão. Meu irmãozinho, alheio a tudo, fazia o papel involuntário de alívio cômico. O inimigo invisível lá fora — vago, poderoso, ameaçador — era o personagem central, embora nunca tivesse aparecido em carne e osso.
A manhã, porém, tem o dom de desmascarar os truques da noite. Com a primeira luz, a coragem voltou. Saímos com cautela, preparados para encontrar sinais de arrombamento, fechaduras quebradas, pertences revirados. O que encontramos, no entanto, nos fez parar imediatamente. A porta do depósito do mercadinho estava cheia de arranhões profundos, não de pés-de-cabra ou facas, mas de patas. Lá dentro, o cachorro do dono, trancado por engano durante a noite, havia passado horas tentando escapar. O ameaçador “intruso” da nossa imaginação era, na realidade, apenas um animal solitário e inquieto, pedindo para sair.
O alívio foi imediato, mas também a gargalhada. Num instante, o grande drama da nossa noite barricada desmoronou em comédia. O vilão da história tinha quatro patas e um rabo abanando. O temível bandido dos rumores do bairro não passava de uma criatura desesperada por um pouco de água e espaço para se espreguiçar.
Olhando para trás, guardo essa lembrança não porque tenha sido assustadora, mas porque ilustra com perfeição o funcionamento da mente. Somos seres que criam sentido. Diante das lacunas, tecemos narrativas. Diante do silêncio, inventamos trilhas sonoras. Diante da incerteza, fabricamos certezas — mesmo que nos apavorem. O barulho do cachorro, em si, não era nada. O que importava era a história que contamos sobre ele, a forma como costuramos boato, medo e imaginação numa fábula de perigo.
Talvez essa seja a lição: nossos maiores inimigos são, muitas vezes, aqueles que fabricamos. A realidade é barulhenta, confusa, ambígua. Raramente se anuncia de forma clara. E como não conseguimos viver indefinidamente nessa ambiguidade, corremos para concluir. Algumas dessas conclusões nos protegem. Outras, no entanto, nos enganam, aprisionando-nos em quartos de nossa própria invenção, barricados contra sombras que nunca estiveram lá.
Naquela noite, o medo colonizou nossas imaginações, e só a luz do dia devolveu a perspectiva. Mas ainda sorrio ao recordar, porque a verdade era deliciosamente absurda. Afinal, o “criminoso” aterrorizante que nos manteve acordados, de coração acelerado e portas bloqueadas, era apenas um cachorro que, literalmente, queria sair.
E talvez essa seja a conclusão mais psicanalítica de todas: por trás das nossas fantasias mais aterrorizantes, muitas vezes se esconde algo absolutamente banal, comum, até cômico. O inconsciente, escreveu Freud, não conhece a negação — ele criará sentido a qualquer custo. Às vezes cria monstros, às vezes bandidos, e às vezes, simplesmente, cães que latem no escuro.



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