Há sempre um instante em que o lugar que nos abriga já não nos cabe. O útero, tão seguro e morno, um dia se converte em cárcere: não porque tenha mudado de forma, mas porque já não comporta a vida que pulsa e exige espaço maior. Nilton Bonder lembra disso com precisão: o crescimento é, antes de tudo, uma forma de expulsão. Somos sempre convidados — ou lançados — a seguir adiante, como quem troca de pele sem pedir licença.
Talvez seja essa a lógica secreta de todo amadurecer: escapar dos ninhos que antes pareciam eternos. O berço, pequeno barco de madeira, cede lugar à cama de solteiro; esta, à de casal; e assim vamos trocando os móveis da vida como quem troca de horizontes. A cadeirinha da escolinha um dia nos parece acento de trono, mas logo é substituída pelo banco da universidade, que por sua vez se torna cadeira de escritório — e, se tivermos sorte, poltrona de sala de estar onde a velhice gosta de repousar. Tudo isso são metáforas da mesma pedagogia: crescer é mudar de assento, aceitar que a antiga morada, tão querida, já não comporta o corpo que insiste em se alongar.
E, no entanto, há algo de engraçado nesse ritual. Passamos metade da vida acreditando que o próximo espaço é maior e melhor, quando na verdade ele apenas troca de medida, desloca nossas perspectivas. Não é que os lugares encolham ou cresçam: é a nossa própria forma de habitá-los que muda de escala. O que era imenso vira estreito, o que era estreito se revela amplo — e o que parecia definitivo se revela provisório.

A memória como espaço ampliado
Quando eu era criança, havia uma sala que parecia uma catedral. Não era feita de vitrais nem tinha o eco solene das igrejas, mas para mim era imensa: um território onde cabiam primos, brinquedos, brigas, videogame e até as noites abafadas de verão. O piso, desenhado como um mosaico secreto, parecia sussurrar segredos aos olhos curiosos, enquanto o cheiro da casa brincava de traduzir cores em aromas e tornava cada passo uma pequena travessura dos sentidos.
Ali, descobri que o espaço da infância não se mede em metros quadrados, mas em intensidade. Quanto mais riso, suor e confusão, maior ficava a sala. As paredes, obedientes, recuavam diante de nossas invenções. A rampa dos fundos, escorregadia e proibida, era quase uma montanha-russa particular, e a laje de concreto — simples laje! — se erguia em minha memória como o mirante de uma metrópole. Criança não vê lajes: vê platôs infinitos, trampolins para o céu, pistas de decolagem para o impossível.
Sloterdijk diria que vivíamos dentro de uma bolha afetiva. E a bolha da infância, convenhamos, é sempre maior do que o espaço real. É como se a casa se inflasse só para caber nossos delírios, nossas alianças secretas, nossos pactos de primo contra o mundo adulto. Hoje penso: talvez a sala nunca tenha sido grande; éramos nós que, pequenos, a tornávamos imensa, como se o tamanho do corpo encolhido desse mais fôlego ao tamanho do sonho.
E havia nisso uma graça involuntária: quanto menor a estatura, maior a grandeza do lugar. Talvez seja essa a equação mais sincera da infância.
O retorno e o desencanto
Duas décadas depois, voltei àquela mesma casa. Não por uma temporada de férias, mas pelo tempo breve de um cafezinho. E ali estava ela: a padaria na esquina, teimosa em sobreviver; as casas vizinhas, iguais a si mesmas, só que enrugadas; a rua, que antes era de terra, agora domesticada pelo asfalto. O bairro parecia congelado numa fotografia desbotada — o tempo havia passado, mas com preguiça.
E então entrei. A sala, que fora meu estádio olímpico particular, revelou-se… minúscula. Quase uma maquete. Fiquei me perguntando: como é que cabiam tantas crianças ali dentro? Onde se escondiam os gritos, as corridas, as quedas, os pactos de segredo? O piso antigo ainda rangia, fiel ao tempo, mas o mosaico que antes saltava aos meus olhos agora se escondia, brincando de virar outro — como se o chão tivesse adquirido segredos que só a memória poderia tentar decifrar. E a rampa dos fundos, ah, aquela montanha-russa de infância! Hoje não passa de um pedaço de concreto inclinado, incapaz até de assustar uma formiga apressada.
Baudrillard poderia rir disso: a sala real não corresponde ao simulacro que minha memória construiu. O que vi não foi um espaço encolhido, mas o desmoronamento de uma imagem. A infância cria hologramas grandiosos; a vida adulta devolve paredes rachadas e tetos baixos. E é nesse descompasso que a gente percebe: o lugar nunca foi como lembrávamos — era a lembrança que o inflava até a glória.
É engraçado (ou cruel?) notar que, em matéria de escala, o tempo tem senso de humor. Os olhos crescem, o corpo se alonga, mas a sala diminui. Talvez seja esse o troco secreto da vida: ela nos dá centímetros, mas rouba metros.
Filosofia do tempo e do espaço
O tempo tem esse talento perverso: reorganiza os espaços como um decorador impaciente. O que antes era vasto, agora é estreito; o que nos parecia um abismo, hoje é apenas degrau. A infância enxerga dimensões com olhos de exagero, enquanto a maturidade insiste em devolver proporções mais modestas. É como se a vida fosse um arquiteto sem humor, reduzindo nossas catedrais pessoais a quitinetes de concreto.
Freud talvez chamasse essa experiência de estranho-familiar (unheimlich): retornar a um lugar amado da infância é ao mesmo tempo aconchegante e perturbador. Reconhecemos as formas, mas elas nos traem; sentimos nostalgia, mas junto vem um desconforto súbito, como se o cenário estivesse fora de lugar — ou, pior, como se nós estivéssemos fora de lugar nele.
Winnicott, por sua vez, lembraria que a infância é perita em expandir o espaço pelo brincar. Uma sala pequena, atravessada por jogos, gargalhadas e fantasias, pode se tornar continente inteiro. O famoso “espaço transicional” não se mede em paredes, mas em invenções. Talvez por isso, ao voltar adulto, encontramos apenas o esqueleto daquilo que já foi um universo: não vemos mais o palco, apenas o tablado.
E então Baudrillard sopra no ouvido: nunca voltamos ao espaço real, voltamos ao simulacro que nossa memória inventou. A “sala enorme” não existiu de fato; existiu a intensidade com que a habitamos. E Sloterdijk completaria com ironia: crescemos dentro de esferas afetivas, e cada esfera tem seu limite. Quando ela estoura, não resta mais a grandeza inflada, apenas a bolha murcha — ainda visível, mas incapaz de nos conter.
O desconcerto, afinal, é perceber que não foi a sala que encolheu. Fomos nós que crescemos, e com isso os lugares perderam a aura que lhes emprestávamos. O tempo não tira metros; tira mitos.
O medo como espaço deformado
Se a memória tem o dom de inflar salas pequenas até parecerem palácios, o medo faz ainda mais: ele infla corredores até virarem labirintos, sombras até se tornarem monstros. Quem nunca, na infância, hesitou diante de um quarto escuro, convencido de que atrás da porta havia um exército de fantasmas? Bastava acender a luz para que o exército se revelasse… cabide.
Freud já sabia que o medo é menos sobre o objeto e mais sobre o desconhecido que projetamos nele. A mente, diante da incerteza, prefere fabricar gigantes a admitir o vazio. É mais fácil acreditar no monstro debaixo da cama do que aceitar que debaixo da cama não há nada além de poeira.
Winnicott, com sua delicadeza, lembraria que o brincar também tem esse lado: ele nos ensina a lidar com o que assusta, criando mundos intermediários onde o medo pode ser ensaiado. O urso de pelúcia, a cabana improvisada com lençol, o jogo de esconde-esconde — tudo isso são miniaturas do terror, ensaios para que possamos rir dele depois.
E então entra Adorno, sempre ácido: boa parte da vida adulta é descobrir que os tabus e receios que nos imobilizavam não eram montanhas, mas pequenas colinas. O suposto perigo era apenas um cenário mal iluminado. Descobrimos que a sala escura é só uma sala, que o barulho no telhado era apenas o vento — e que muitos dos “grandes medos” eram apenas construções sociais ou psíquicas, infladas para manter-nos obedientes.
A infância amplia espaços pelo encantamento. O medo os amplia pelo terror. Ambos distorcem a escala, ambos nos enganam. A diferença é que a memória ainda nos arranca um sorriso; o medo, quando se desfaz, quase sempre nos arranca um riso nervoso: “era só isso?”.
Existência, crescimento e desencanto
Crescer, no fundo, é um exercício de desencanto. As casas encolhem, os brinquedos quebram, os heróis de infância revelam costuras malfeitas. Mas junto a essa perda de grandeza externa, algo silencioso acontece: os espaços internos se ampliam. Ganhamos memória, pensamento, imaginação — e descobrimos que o verdadeiro infinito não cabe na sala da tia, mas na cabeça que insiste em revisitá-la.
Sloterdijk diria que a vida é uma sucessão de casulos. Cada etapa é uma bolha protetora que, cedo ou tarde, estoura. O berço, a sala, a escola, a universidade, o escritório: todos são casulos temporários. E cada vez que um se rompe, sentimos o desconforto da nudez, até encontrarmos outra esfera para habitar. O paradoxo é que nunca mais cabemos nos antigos, mas também nunca entramos totalmente nos novos. Estamos sempre no entre: nem lá, nem cá.
Eis a ironia: o desencanto não é um fracasso, é um convite. Quando percebemos que a montanha era colina, que a sala era pequena, que o medo era sombra, descobrimos também a vastidão da consciência que nos permite rir disso tudo. Adorno cutuca ao lembrar que a cultura insiste em inflar mitos para nos manter dóceis; mas crescer, talvez, seja justamente aprender a esvaziá-los com uma boa agulhada crítica.
E assim seguimos: de sala em sala, de casulo em casulo, de mito em mito. A cada vez, menos deslumbrados e mais atentos. Descobrimos que a infância nos deu a graça de ver o mundo maior do que ele era; a vida adulta nos dá a graça de perceber que nós ficamos maiores do que o mundo.

Conclusão: o riso diante do tempo
E então rimos. Não de forma estrondosa, mas daquele riso contido, quase cúmplice, que nasce do choque entre expectativa e realidade. A sala da infância encolheu, a rampa virou simples concreto, o medo desinflou — e nós? Nós crescemos, expandimos, nos tornamos espaço suficiente para compreender que a vida brinca conosco em escala e perspectiva.
Talvez a graça seja justamente essa: se a sala ficou pequena, se o medo era sombra, se o herói se revelou humano, não importa. Rimos porque entendemos que o mundo nunca esteve realmente fora de nós; estivemos sempre crescendo dentro dele, e ele dentro de nós. Cada espaço, cada objeto, cada lembrança é agora um fragmento de cosmos pessoal, pronto para ser revisitado sem pressa, sem necessidade de caber em medidas antigas.
E há ironia nisso: as grandes experiências da infância continuam vivas, mas nós não cabemos mais nelas — ou talvez elas nunca tenham cabido em nós, apenas pareciam grandes o suficiente para nos ensinar a rir do tamanho das coisas. Crescer é isso: perceber que a grandeza não está na sala, nem na rampa, nem no medo; está em nossa capacidade de atravessá-los, de rir deles, de carregar dentro de nós o mapa secreto de todos os lugares que já habitamos, mesmo que eles agora pareçam tão pequenos.
No fim, o tempo não nos rouba metros, só nos ensina a medí-los com o olhar adulto, sábio e ligeiramente zombeteiro. E isso, convenhamos, é a maior sala que poderíamos desejar.
Referências
- Adorno, T. W. (2024). Minima Moralia: Reflexões a partir da vida danificada. São Paulo: Ática.
- Bonder, N. (1998). A alma imoral: traição e tradição através dos tempos. São Paulo: Rocco.
- Baudrillard, J. (1994). Simulacros e Simulação. São Paulo: Loyola.
- Freud, S. (2002). O estranho [Unheimlich]. In Edição standard das obras psicológicas completas de Sigmund Freud (Vol. XVII). Rio de Janeiro: Imago.
- Sloterdijk, P. (2000). Esferas I: Bolhas. São Paulo: WMF Martins Fontes.
- Winnicott, D. W. (1971). Playing and reality. London: Tavistock Publications.


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