A solidão precisa de Wi-Fi: um ensaio sobre o prazer-delivery e o eu-offline como post nas redes sociais

Vivemos numa época em que até a solidão precisa de conexão wi-fi. O almoço, que um dia foi um gesto privado — quase sagrado, íntimo como um suspiro entre garfadas — hoje pede registro, filtro, legenda espirituosa e um punhado de coraçõezinhos vermelhos para ser validado. O corpo, que outrora se escondia sob roupas e silêncios, agora se oferece em stories de sessenta segundos, sempre prontos a desaparecer, mas nunca antes de serem devidamente consumidos. O que resta de privado quando até o choro virou conteúdo e o orgasmo virou streaming?

É curioso: o banheiro, esse último reduto da intimidade humana, transformou-se em camarim para selfies e transmissões ao vivo. Já não há gesto banal que não seja convidado a desfilar pela vitrine pública. O privado, se ainda existe, parece ter sido reduzido ao ato quase subversivo de desligar o celular — e mesmo isso só tem valor se compartilhado depois, com uma foto bucólica acompanhada da legenda: “digital detox”.

Entre ironias e likes, a pergunta insiste: onde termina o íntimo e começa a praça pública, se já não sabemos diferenciar casa de palco, espelho de vitrine, segredo de conteúdo?

Se outrora o superego dizia “não gozarás”, hoje ele se atualizou em versão 4G e exige: “goza já, e sem travar a conexão!”. Não há tempo para diferir, nem espaço para desejar devagar. O novo imperativo moral parece ser a urgência — e não há santo freudiano capaz de competir com um aplicativo que promete orgasmo em raio de 500 metros e prazo de entrega de uma hora. O amor virou delivery: clique, aceite os termos de uso, e pronto, o “parceiro ideal” chega embalado a vácuo.

Estellon aponta esse deslocamento curioso: saímos do tempo da repressão para o tempo da compulsão. Já não se trata de conter os impulsos, mas de nunca deixar faltar estímulo. O mercado cuida disso, e bem: corpos fatiados em telas, como se fossem menus digitais — “coxas ao ponto, abdômen definido, olhos azuis opcionais”. Cada um monta o prato conforme o apetite do dia.

Nesse supermercado do desejo, o corpo não é mais sujeito: é mercadoria em promoção relâmpago. E, como na Bolsa de Valores, há quedas bruscas, estagnações, valorização instantânea. Quem nunca se pegou pensando: “estou na alta ou já virei ação podre?” — pergunta que, segundo Estellon, ecoa cada vez mais nos divãs contemporâneos.

O paradoxo é que, na pressa de gozar sem limites, sacrificamos aquilo que talvez desse sabor à experiência: a espera, a falta, o intervalo. O tempo psíquico, esse velho e lento artesão do desejo, parece atropelado pela cultura da atualização automática.

Se antes o corpo era destino, agora virou vitrine. Birman nos lembra que, na contemporaneidade, o mal-estar se escreve diretamente na pele, no abdômen definido, na ruga proibida. Envelhecer já não é destino biológico, mas bug de sistema: algo a ser corrigido com cremes, filtros, bisturis e, quando tudo falhar, use uma boa iluminação de ring light.

O corpo, outrora território íntimo, converteu-se em outdoor de performance. Nele se inscrevem ansiedades, compulsões, pânicos e fadigas crônicas — como se o organismo tivesse virado a última tela ainda capaz de mostrar offline o que as redes tentam esconder online. Tosse fora de hora? Suspeita de fracasso moral. Quilo a mais? Lapsos de caráter. Pálpebras caídas? Desleixo existencial. O corpo já não apenas envelhece: ele falha, e falhar, no nosso tempo, é imperdoável.

O paradoxo, porém, é trágico-cômico: quanto mais se exibe o corpo, menos se toca nele. Quanto mais ele é cultuado, mais se torna frágil, ansioso, ameaçado de colapso. O corpo hiperexposto virou palco de uma comédia sombria, na qual a plateia aplaude músculos, mas o ator, nos bastidores, geme de cansaço.

E é assim que a intimidade, em vez de se revelar no silêncio, se denuncia no sintoma: ansiedade, estresse, palpitação, insônia. O corpo fala quando o privado já não encontra onde se esconder.

Winnicott falava do falso self como uma defesa contra a ameaça ao núcleo mais íntimo do ser. Pois bem: se ele estivesse vivo hoje, talvez chamasse o Instagram de “a Disneylândia do falso eu”. Ali, cada um constrói sua própria maquete existencial: sorrisos calculados, pores do sol repetidos, pratos gourmet que já esfriaram, abraços congelados em filtros sépia. É a vida transformada em vitrine — mas uma vitrine que brilha oco, porque atrás do vidro não há mercadoria, apenas reflexo.

Fulgencio lembra que o mal-estar não é apenas o da falta, mas o da necessidade de ser que não encontra ambiente para se realizar. No lugar de vínculos vivos, colecionamos seguidores; no lugar de presença, acumulamos views. Preenchemos o vazio com coisas, mas o vazio, malandro que é, segue intacto, só que mais bem embalado.

É curioso como a intimidade virou marketing: “ser autêntico” hoje já não significa mostrar-se, mas sim performar autenticidade com boa curadoria de hashtags. A futilidade veste roupas de profundidade; a irrelevância dança em reels motivacionais de 30 segundos. O íntimo virou slogan, e o real, quando insiste em aparecer, é rapidamente silenciado pelo próximo filtro.

O resultado? Uma multidão de perfis lotados de imagens, mas habitados por sujeitos que sussurram em silêncio a Winnicott: “doutor, eu não me sinto real”.

Edgar Morin nos lembra que o indivíduo habita a sociedade e a sociedade habita o indivíduo — como um holograma onde o todo está na parte e a parte está no todo. Parece poético, mas hoje esse holograma ganhou patrocinadores: o Eu vive no Nós, mas só se o Nós dar like. E o Nós, por sua vez, só existe se cada Eu mantiver o Wi-Fi ligado.

A recursividade moriniana — esse vai e vem entre indivíduo e sociedade — virou um feed infinito: nós produzimos a rede, que nos produz, que nos pede mais produção, que nos consome e nos reproduz de volta em memes. É uma dialética com trilha sonora de notificação.

O mais curioso é o antagonismo: o indivíduo quer se esconder, mas precisa se mostrar; deseja ser único, mas corre para caber na trend do momento. O Eu, que sonha com silêncio, não resiste a anunciar que está offline. A sociedade, que exige coletividade, vive fragmentada em bolhas que não se falam. O resultado é uma coreografia estranha: um balé em que cada dançarino gira sozinho, mas todos seguem a mesma música de fundo.

No fim, eis a ironia: nunca fomos tão Nós e tão Eu ao mesmo tempo — só que agora com filtros e legendas. O drama é que, ao mesmo tempo em que compartilhamos tudo, continuamos assombrados pela velha pergunta íntima: “alguém realmente me viu?”

Resta a pergunta que incomoda como uma pedra no sapato: ainda existe privado? Ou será que o íntimo já foi despejado em praça pública, convertido em espetáculo, onde até a dor precisa de legenda e o silêncio pede trilha sonora?

Estellon lembraria que a intimidade nasce da possibilidade de preservar um segredo. Winnicott diria que precisamos de um canto silencioso dentro de nós, um espaço potencial onde ninguém entra sem convite. Morin, sempre poético, talvez sugerisse que o íntimo é esse fio invisível que resiste às redes, o lugar onde complexidade e mistério ainda se abraçam.

Mas o problema é que, quanto mais tentamos guardar, mais cresce a tentação de compartilhar. O íntimo é paradoxal: precisa do escondido para existir, mas parece que só acreditamos nele quando há prova pública de sua existência. É o segredo que pede vitrine, a solidão que anseia por likes.

Talvez o último gesto verdadeiramente íntimo seja desligar o celular e ouvir o silêncio. Mas então, quem vai acreditar que você existiu fora da tela? Talvez o privado ainda exista — frágil, quase clandestino —, naquele instante em que não se sente a necessidade de contar a ninguém. Uma intimidade tão rara que, ao invés de ser mostrada, só pode ser vivida.

E fica o eco, entre riso e desconforto: se o íntimo só sobrevive no invisível, estamos preparados para existir sem plateia?


  • Birman, J. (2017). Arquivos do mal-estar e da resistência. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.
  • Estellon, V. (2023). Terreur d’aimer et d’être aimer. Toulouse: érès.
  • Fulgencio, L. (2010). Um mal-estar na cultura para Freud e para Winnicott. In C. Oliveira (Org.), Filosofia, psicanálise e sociedade (pp. 137–146). Rio de Janeiro: Beco do Azougue.
  • Morin, E. (2012). O método 5: A humanidade da humanidade. Porto Alegre: Sulina.

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