Entre muros e pontes: o lugar dos homens na luta contra a misoginia

Há silêncios que falam mais alto do que gritos. No mundo corporativo, eles se escondem em salas de reunião, planilhas e metas de desempenho. Um chefe que não diz nada quando um colega interrompe a fala de uma mulher. Um amigo que ri de uma piada machista, mas por dentro se sente desconfortável e, mesmo assim, escolhe não dizer nada. Uma empresa que pinta suas campanhas de rosa em março e junho, enquanto segue pagando salários diferentes a homens e mulheres.

Esse silêncio não é neutro: ele é cúmplice. Cada gesto não dito, cada riso abafado, cada desvio de olhar constrói uma muralha invisível que protege a misoginia. É como se estivéssemos todos dentro de uma grande engrenagem — e, quanto mais ela gira, mais difícil parece pará-la.

Byung-Chul Han fala de uma “sociedade do desempenho”, onde as pessoas são reduzidas a máquinas de produtividade. Nesse mundo, não há espaço para a fragilidade ou para a escuta do outro: só há lugar para quem corre, entrega, vence. Essa lógica, aparentemente neutra, combina perfeitamente com a masculinidade tradicional, que ensina os homens a serem competitivos, invulneráveis, imbatíveis. A virilidade se torna, então, um produto corporativo: homens são treinados não só para bater metas, mas para provar que não falham — nem como líderes, nem como homens.

No entanto, nesse mesmo ambiente que exige perfeição, a misoginia se alimenta. Quando uma mulher fala e ninguém escuta, quando ela é interrompida por uma voz masculina mais alta, não é apenas uma disputa de palavras: é a reprodução de séculos de desigualdade. E nós, homens, muitas vezes estamos ali — na mesa, na sala, no chat corporativo — assistindo, calados.

O primeiro passo não é falar. É ouvir o que esse silêncio revela. Ele nos mostra que a mudança não começa quando exigimos que as empresas sejam mais justas, mas quando temos coragem de olhar para dentro e perceber quantas vezes nós mesmos ajudamos a manter o que fingimos combater.

“O inferno dos iguais não nasce do excesso de diferença, mas da homogeneização que transforma o outro em objeto de desempenho.”

– Byung-Chul Han

As empresas adoram se olhar no espelho. Criam campanhas coloridas, slogans inclusivos, treinamentos cheios de palavras em inglês. Falam de diversidade e empoderamento, como se bastasse um post nas redes sociais para consertar séculos de desigualdade. Mas, quando a maquiagem se desfaz, ainda vemos as mesmas estruturas antigas, apenas com um novo verniz.

A socióloga Haude Rivoal, que trabalhou durante três anos dentro de uma grande empresa de logística, descobriu algo perturbador:
quanto mais as empresas falam de igualdade, mais elas aprendem a transformar as críticas feministas em mercadoria. Criam cargos, selos, relatórios, mas não mudam o essencial — os critérios de promoção, os modos de gestão, a lógica que valoriza a voz mais alta na sala. A misoginia não desaparece. Ela se reinventa, aprende a se disfarçar de modernidade.

Edgar Morin nos lembra que a realidade é sempre complexa, feita de fios que se entrelaçam: gênero, classe, raça, poder. A misoginia não se mostra apenas em gritos ou insultos. Muitas vezes, ela se manifesta de forma sutil, quase invisível — no e-mail que nunca recebe resposta, na ideia ignorada até que um homem a repita, na avaliação de desempenho que fala de “falta de firmeza” quando quer dizer apenas “mulher”.

É assim que nascem termos como manterrupting, quando uma mulher é interrompida em sua fala; mansplaining, quando um homem explica o óbvio como se fosse revelação divina; bropriating, quando alguém se apropria da ideia de outra pessoa e leva o crédito. Esses nomes estrangeiros dão um ar moderno a algo muito antigo: a desqualificação sistemática da voz feminina.

Enquanto isso, as empresas continuam celebrando seus programas de diversidade como se fossem atos heroicos. Mas se a liderança permanece quase toda masculina, se os salários seguem desiguais, se as mulheres são vistas como “emocionais” e os homens como “decisivos”, o progresso não passa de marketing social. É como pintar as paredes de uma casa em ruínas: bonita por fora, apodrecida por dentro.

A misoginia se adapta porque encontra terreno fértil na lógica corporativa.
Um mundo que só valoriza desempenho e metas acaba reproduzindo os velhos papéis: homens como guerreiros da produtividade, mulheres como auxiliares discretas, sempre gratas pelo espaço concedido. E nós, muitas vezes, não percebemos que, ao aplaudir o progresso aparente, estamos apenas ajudando a fortalecer as correntes invisíveis que mantêm tudo como sempre foi.

Antes de chegar às salas de reunião e aos relatórios de desempenho, a misoginia já habitava os berços e os contos de infância. Simone de Beauvoir nos ensinou que “não se nasce mulher, torna-se mulher”. Essa frase, tantas vezes repetida, revela uma ferida profunda: não é apenas o corpo que define, mas uma educação que molda. Meninas aprendem cedo a ocupar menos espaço, a falar mais baixo, a pedir desculpas por existir. Meninos são ensinados a comandar, a competir, a esconder a dor — como se a vulnerabilidade fosse uma vergonha.

Quando esses meninos e meninas crescem e entram no mundo corporativo, eles não deixam esses roteiros na porta. Carregam-nos como bagagem invisível. É por isso que uma mulher precisa se esforçar o dobro para ser ouvida, enquanto um homem muitas vezes basta estar presente para ser visto como líder. Não se trata de destino biológico, mas de uma longa história que se reescreve a cada geração.

Beauvoir nos alertou que nenhum direito está garantido para sempre. “Basta uma crise política, econômica ou religiosa para que os direitos das mulheres sejam questionados”, dizia ela. Essa advertência ecoa ainda hoje. Por mais que algumas conquistas pareçam sólidas, basta um movimento de retração para que portas se fechem novamente. Vemos isso nas empresas: políticas de diversidade são as primeiras a serem cortadas quando a economia aperta, como se a igualdade fosse um luxo, e não uma necessidade ética.

Um relatório da Equal Measures 2030 mostra de forma brutal essa lentidão. Se as tendências atuais continuarem, uma mulher brasileira de 32 anos só verá leis verdadeiramente eficazes para igualdade no trabalho quando estiver perto dos 60 anos. É uma promessa adiada, como se a equidade fosse sempre um projeto para as futuras gerações, nunca para agora. Enquanto esperamos, a desigualdade segue se reproduzindo em cada promoção negada, em cada reunião onde a voz feminina se perde no ruído.

O mundo corporativo, com toda a sua tecnologia e inovação, ainda carrega uma mentalidade arcaica. É como se estivéssemos vestidos com trajes modernos, mas com uma alma medieval. E enquanto não reconhecermos a profundidade histórica desse problema, continuaremos tratando apenas os sintomas, sem curar a doença.

A misoginia não nasceu nas empresas — mas elas são hoje o palco onde ela se reinventa, ganhando novas formas, mais sofisticadas, mais sutis. Compreender essa raiz antiga é essencial para não sermos enganados pelas promessas de progresso rápido, pois mudar a estrutura exige algo mais do que treinamentos e campanhas publicitárias: exige uma transformação cultural que comece no íntimo de cada um de nós.

“O opressor não seria tão forte se não tivesse cúmplices entre os próprios oprimidos.”

– Simone de Beauvoir

Diz-se que a masculinidade está em crise. Mas, na verdade, talvez ela nunca tenha estado tão viva — apenas mudou de pele, como uma serpente astuta. A filósofa Olivia Gazalé, em O mito da virilidade, nos lembra que a masculinidade tradicional é uma prisão dourada. Dá poder, reconhecimento, prestígio. Mas cobra um preço alto: solidão, medo, violência, uma vida inteira dedicada a provar algo que nunca se pode, de fato, provar.

Desde cedo, os meninos aprendem que “ser homem” significa não falhar. Não chorar. Não mostrar fragilidade. Não pedir ajuda. E, acima de tudo, vencer. Esse script se encaixa perfeitamente no mundo corporativo, onde o verbo “performar” se confunde com o verbo “existir”. Ser homem, nesse contexto, é ser o guerreiro da produtividade, o general das metas, o soldado que nunca dorme. Quem não corresponde a esse ideal é visto como fraco — e, portanto, descartável.

Mas há algo perverso nessa lógica: o homem se torna não apenas o opressor, mas também o oprimido pela própria virilidade. Ele precisa provar sua força, sua competência, sua liderança, todos os dias, diante de si mesmo e dos outros. E, quando falha — porque todos falham —, vem o fantasma da humilhação. Esse medo secreto alimenta a competitividade tóxica e, muitas vezes, a violência simbólica ou física contra mulheres e outros homens.
Como se o mundo corporativo fosse uma arena, e a masculinidade, a armadura que ninguém pode deixar cair.

Essa dinâmica se manifesta de formas diferentes dependendo da classe social. Nos cargos de liderança, a masculinidade se veste de terno e gravata, fala de resultados e “meritocracia”. Nos galpões, nos setores operacionais, ela aparece em piadas agressivas, disputas físicas, exibições de força. São expressões distintas de um mesmo enredo: o medo de parecer fraco. O medo de não ser “homem o suficiente”.

E, no meio disso, as mulheres seguem sendo alvo. Não porque sejam naturalmente “rivais”, mas porque, para manter a própria posição, muitos homens sentem a necessidade de reafirmar constantemente a hierarquia. A misoginia se torna, então, uma estratégia de sobrevivência masculina. Desqualificar a mulher é, para alguns, a forma mais rápida de se sentir grande.

Olivia Gazalé nos convida a olhar para essa ferida com coragem. Se a virilidade tradicional é uma prisão, libertar-se dela não significa perder poder, mas ganhar humanidade. Significa reconhecer que homens e mulheres não precisam estar em guerra para existirem plenamente. E que a verdadeira força não está em dominar, mas em se permitir ser vulnerável, imperfeito, inacabado.

“A virilidade tradicional é uma armadilha: ela promete glória, mas entrega solidão e medo.”

– Olivia Gazalé

A crise da masculinidade, portanto, não é uma ameaça: é uma oportunidade histórica. Um convite para que os homens desmontem, peça por peça, a armadura que os sufoca — e que, ao mesmo tempo, sufoca as mulheres ao redor. É só quando esse gesto começa a acontecer que podemos imaginar um ambiente corporativo onde igualdade não seja apenas discurso, mas experiência real.

Fomos educados para acreditar que basta não sermos “machistas” para estarmos do lado certo da história. Mas a neutralidade é um mito confortável. Diante da misoginia, o silêncio não é inocente — ele é uma forma de cumplicidade. Como disse Edgar Morin, em tempos de complexidade, o maior risco não é o conflito, mas a indiferença. E, no ambiente corporativo, a indiferença veste terno, usa crachá e fala em metas.

Ser homem, hoje, exige mais do que não praticar violência: exige desconstruir os pequenos gestos que a sustentam. É não rir da piada que desumaniza, mesmo quando todo mundo ri. É perceber quando interrompemos uma mulher em uma reunião e escolher, conscientemente, devolver a palavra. É não falar por elas, mas criar espaços para que suas vozes sejam ouvidas. É dividir o peso das responsabilidades em casa — porque igualdade no trabalho não existe se ela não começa dentro de casa.

Essa transformação não acontece de uma vez. Ela começa com escuta. Escutar as mulheres ao nosso redor não para responder ou justificar, mas para compreender. Escutar as nossas próprias resistências, nossos medos, nosso desconforto. Muitos homens se sentem ameaçados por essa mudança porque confundem igualdade com perda de poder. Mas a verdade é outra: igualdade não rouba nada de ninguém — ela multiplica possibilidades.

Byung-Chul Han nos lembra que vivemos na era do desempenho, em que cada pessoa se torna uma empresa de si mesma. Nesse cenário, até a mudança de comportamento pode virar marketing: o homem que se diz “desconstruído”, mas só performa para parecer moderno. A luta contra a misoginia não pode ser mais uma vitrine: precisa ser ética e concreta, feita de atitudes cotidianas, não de hashtags.

Há gestos simples, mas poderosos, que os homens podem praticar no ambiente de trabalho:

  • Reconhecer ideias roubadas: se alguém se apropria da fala de uma mulher, dar crédito público a quem de fato a trouxe.
  • Questionar processos injustos: se promoções privilegiam sempre os mesmos perfis, perguntar o porquê.
  • Ser aliado sem se apropriar: apoiar causas feministas sem se colocar como protagonista delas.
  • Nomear a violência: não deixar que comentários, piadas ou “brincadeiras” passem como normais.

Essa não é uma batalha solitária. É um trabalho coletivo, uma teia de pequenas resistências, como diria Morin. Quando um homem se posiciona, ele não está apenas defendendo mulheres: está ajudando a libertar a si mesmo de uma masculinidade que exige perfeição e violência constantes. Está dizendo que quer ser mais do que uma máquina de resultados, que deseja relações baseadas em respeito e não em medo.

No fim, lutar contra a misoginia não é apenas um ato de justiça social — é um ato de autodefesa existencial. Porque um mundo onde as mulheres são silenciadas é também um mundo onde os homens nunca podem, de fato, se ouvir.

E se a misoginia não fosse apenas uma estrutura lá fora, mas também uma voz que habita em nós? Aquela que, sem perceber, interrompe, ri, diminui, silencia. Quantas vezes você se calou diante de uma injustiça porque era mais confortável assim? Quantas vezes se disse neutro, quando na verdade estava apenas escolhendo o lado do mais forte?

Não existe neutralidade quando alguém é diminuído. O silêncio não é vácuo: ele é cimento que sustenta paredes antigas. E cada pequeno gesto — a piada que você não contestou, a reunião em que deixou alguém ser interrompida, a promoção que você não questionou — constrói um edifício inteiro de desigualdade.

Você já se perguntou em que andar desse edifício mora a sua própria história? Será que, sem querer, você também é pedreiro dessa obra que insiste em se perpetuar? Ou está disposto a ser aquele que começa a derrubar tijolos, mesmo sabendo que pode se machucar no processo?

A misoginia não é apenas uma guerra contra mulheres: é um campo onde homens também se perdem, porque precisam usar máscaras que nunca lhes caberam de verdade. Quantas vezes você se sentiu obrigado a ser mais forte do que podia? Quantas vezes engoliu o choro para não parecer fraco? Quantas vezes usou a voz não para dialogar, mas para dominar?

Um mundo igualitário não se constrói em treinamentos corporativos nem em discursos prontos. Ele se tece na coragem miúda do cotidiano: no homem que escolhe ouvir em vez de interromper, no colega que diz “essa ideia não é minha, é dela”, no líder que recusa o poder que oprime para criar espaços de partilha. É nas escolhas invisíveis que se decide se o futuro será ponte ou abismo.

Talvez você esteja pensando que isso é tarefa grande demais. Mas lembre-se: a misoginia também começou pequena. E foi crescendo porque ninguém ousou pará-la. Hoje, ela está diante de nós — não como um monstro distante, mas como reflexo. E a pergunta que ecoa, incômoda, não é sobre o que as empresas, as leis ou os governos farão. É sobre você. Sobre mim. Sobre nós.

Que papel você tem desempenhado na história que diz querer transformar? E, quando finalmente se encarar no espelho, terá coragem de sustentar o olhar?


  • Beauvoir, S. de. (1949). Le deuxième sexe. Paris: Gallimard.
  • Gazalé, O. (2017). Le mythe de la virilité. Paris: Robert Laffont.
  • Han, B.-C. (2015). A sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes.
  • Morin, E. (2005). Introdução ao pensamento complexo. Porto Alegre: Sulina.
  • Rivoal, H. (2023). La fabrique des masculinités au travail. Paris: La Découverte.
  • Equal Measures 2030. (2024). Gender Equality Index. Disponível em: https://equalmeasures2030.org/
  • Binge Audio. (2025). Les Couilles sur la table – Épisode 11 septembre: L’entreprise entre mecs. Spotify. Disponível em: https://open.spotify.com/episode/1kX074jEGV1ziMIOVLgpQ9?si=1d488c92ee404c4c

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