A equação que não existia

Matrizes são como pequenas cidades. Cada número é um habitante que mora na casa certa, na rua certa, na coluna certa. Quando tudo está no lugar, a cidade respira em harmonia. Linhas são avenidas, colunas são vielas, e há sempre uma lógica secreta que liga cada ponto a outro. Basta, porém, que uma única rua desapareça, que um quarteirão se perca no mapa, e todo o desenho se desfaz. Não há como andar por uma cidade cujas estradas não se conectam. É como tentar resolver um labirinto sem saída: você anda, anda, e não chega a lugar algum.

Foi numa manhã abafada de Ensino Médio que essa metáfora se materializou em carne, giz e suor. Naquele tempo, os professores ainda escreviam as provas na lousa, e nós, alunos, copiávamos cada questão com uma mistura de ansiedade e superstição, como quem anota uma receita mágica. O professor, homem de passos firmes e coração distraído, caminhava de um lado a outro com o giz na mão, rabiscando a última questão com a solenidade de quem entrega um enigma. Na lousa surgiu uma matriz quase perfeita. Quase.

Faltava uma coluna.
Como se uma rua inteira tivesse sido engolida por um buraco negro do esquecimento.

Ninguém percebeu.
Ou talvez ninguém ousasse perceber, porque naquela idade a pressa de acertar costuma ser maior do que a coragem de olhar com calma.

A sala mergulhou no silêncio denso das batalhas intelectuais. O som dos lápis era o único sinal de vida. Alguns colegas franziam a testa, outros mordiam a borracha como quem tenta negociar com o desespero. Vi braços suando, olhos arregalados, cérebros tentando, a qualquer custo, encaixar fórmulas em um problema que simplesmente não existia. Era como assistir a uma multidão tentando abrir uma porta que nunca foi construída.

Eu olhava a matriz com estranheza. Primeiro, pensei que era eu quem não estava entendendo. Mas, aos poucos, a certeza foi se formando: não havia solução, porque não havia problema. Sorri por dentro. Peguei minha caneta, desenhei calmamente o símbolo (não existe), fechei a prova como quem fecha uma janela, e fui o primeiro a me levantar.

O professor, ao receber minha folha, olhou o símbolo, depois me olhou. Seus olhos correram até a lousa, e em segundos o mistério se revelou. Ele sorriu. Era um sorriso pequeno, cúmplice, quase travesso, como quem confessa:

“Você viu o que ninguém viu.”

Atrás de mim, meus colegas continuavam lutando contra o impossível. Era uma cena que, se não fosse trágica, seria cômica: cabeças tombadas sobre os cadernos, equações se multiplicando sem rumo, um ou outro suspirando fundo, como se estivesse prestes a decifrar o segredo do universo — quando, na verdade, o segredo era simples: faltava uma coluna.

Na aula seguinte, as provas foram entregues. Apenas uma folha trazia aquele símbolo libertador. Todos os outros haviam se perdido na miragem de um problema inexistente. Meu nome foi sussurrado pelos cantos, como se eu tivesse realizado uma proeza sobrenatural. Mas não era feitiçaria, apenas atenção.

Eis o que aquele episódio me ensinou, muito além da matemática: a vida também nos oferece, vez ou outra, matrizes incompletas. Problemas que parecem urgentes, mas que talvez sejam apenas ilusões. Quando a pressa domina, aplicamos fórmulas antigas, repetimos conselhos herdados, seguimos caminhos já traçados — e, sem perceber, ficamos presos a equações que não existem.

Quantas vezes alguém passa noites em claro tentando resolver dores imaginárias, colecionando respostas para perguntas que nunca foram feitas?
Quantas vezes brigamos com fantasmas, ferindo-nos em batalhas contra sombras que só existem dentro de nós?
O que sentimos pode ser tão intenso que parece real, mas nem sempre está no mundo. Às vezes, é apenas uma rua ausente no mapa interno, um vazio que inventamos para ter onde derramar nossos medos.

Como naquela manhã, é fácil confundir a realidade com o reflexo da nossa ansiedade. Quanto mais tentamos resolver, mais nos enredamos. É preciso, de tempos em tempos, parar, respirar e olhar com calma: será que esse problema existe mesmo, ou é apenas uma equação desenhada na lousa da mente?

Há uma beleza silenciosa em perceber que nem todo enigma precisa ser decifrado. Quando se entende que não há equação a resolver, é possível deixar o giz cair, fechar a prova imaginária e se libertar — não porque se resolveu o problema, mas porque se descobriu que ele nunca existiu.

E, às vezes, basta o sorriso cúmplice de alguém — como aquele sorriso quase travesso do professor — para nos lembrar que estamos sendo vistos. Esse sorriso diz, sem palavras, que mesmo diante das equações invisíveis que carregamos, existe um olhar que nos entende. É nesse instante que a vida se abre como uma lousa limpa, pronta para ser reescrita, enquanto seguimos adiante, leves como quem enfim encontrou uma saída no labirinto da própria mente.


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