Cruzando fronteiras na borda de uma piscina

Sempre achei que as palavras têm cheiro. As de inglês me lembravam chiclete de hortelã, as de francês tinham gosto de perfume caro, e as de alemão… bem, as de alemão soavam como trovões simpáticos. Quando criança, passava horas folheando uma coleção de minidicionários que meus pais tinham em casa — inglês, espanhol, francês, alemão, italiano. Eu não sabia gramática, conjugação ou sintaxe, mas já sabia brincar com palavras como quem constrói castelos de areia: meio tortos, mas cheios de imaginação. Enquanto outras crianças colecionavam figurinhas, eu colecionava verbos irregulares e frases inventadas.

Anos depois, lá estava eu, um pré-adolescente de 12 ou 13 anos, na piscina de um hotel, alternando entre mergulhos e planos mirabolantes para conquistar o mundo — ou, pelo menos, um sorvete de chocolate depois do almoço. Foi quando notei uma família conversando. Ao longe, parecia inglês. “Ahá, minha chance!”, pensei, ajustando minha boia imaginária de coragem. Mas, quando me aproximei, percebi que não era inglês… era alemão. A maioria das pessoas provavelmente se afastaria, mas eu não. Algo naquela água de piscina parecia me dar superpoderes sociais — uma coragem clorada que me empurrava para frente. Respirei fundo, ensaiei mentalmente um “Hi, how are you?” e… falei. Em alto e bom som. Para minha surpresa, eles sorriram e me responderam em inglês. E, entre uma braçada e outra, trocamos frases aleatórias sobre nacionalidades, origens, o clima e outras banalidades que só fazem sentido em conversas de piscina, como se o mundo se resumisse àquele espaço molhado, azul e efêmero. Era um diálogo simples, mas, para mim, parecia uma viagem intercontinental sem sair da borda.

Hoje penso nisso e rio. Naquela época, eu não sabia, mas aquele impulso infantil de me jogar — tanto na água quanto na conversa — estava me ensinando algo muito maior: não ter medo de errar. Talvez aprender uma língua seja isso: um eterno mergulho. Primeiro, você engole uns goles de água salgada (ou clorada). Depois, descobre que pode flutuar. E, quando vê, já está nadando entre palavras, fazendo amizades improváveis e experimentando a deliciosa sensação de se perder e se encontrar numa frase.

Com o tempo, percebi que essa disposição de brincar com idiomas não ficou restrita às línguas estrangeiras. Na vida adulta, ela me levou a querer explorar outras formas de linguagem: a da mente, a do inconsciente, a das emoções. Porque, no fundo, cada gesto, cada silêncio, cada afeto também fala um idioma próprio, cheio de sotaques invisíveis. E talvez seja por isso que sigo mergulhando — agora não só em piscinas, mas em conversas profundas, em sonhos, em histórias — tentando, sempre, aprender novas gramáticas para decifrar o mistério de ser humano.

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