Da indulgência de Brás Cubas aos desejos de Padre Amaro na era digital

Vivemos tempos em que a realidade já não precisa acontecer para ser sentida — basta ser postada. Os líderes não governam, fazem collabs. Os profetas não pregam, fazem lives. E a verdade? Essa anda ocupada escolhendo filtros no Instagram. Não é que o mundo tenha acabado; ele apenas se tornou mais performático. Agora, tudo precisa ter uma boa iluminação, um storytelling envolvente e uma plateia atenta para reagir com emojis.

Dizem que atravessamos uma crise política sem precedentes. Ingenuidade. O que enfrentamos é uma crise estética. A política virou um reality show de temporada infinita, com vilões bem maquiados, heróis improvisados e roteiros escritos ao sabor das redes. Em algumas geografias, o clímax da série inclui tribunais e condenações. Em outras, termina em podcasts e documentários glamorosos.

E, se olharmos bem, os protagonistas desse espetáculo não são tão novos assim. Eles vêm de longe, das páginas amareladas da literatura, prontos para se reencarnarem em nossos feeds. Basta lembrar de Brás Cubas, o narrador morto de Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis. Um homem vaidoso, preguiçoso, que atravessou a vida sem construir nada de relevante — e que, do além, conta suas memórias com a frieza de quem já não precisa fingir virtude. Brás Cubas é o retrato da elite que ri do caos porque se beneficia dele, que se diverte com o desmoronamento enquanto ostenta uma taça de vinho.

Ao lado dele, Padre Amaro, personagem de Eça de Queirós em O Crime do Padre Amaro. Um jovem padre envolvido em relações ilícitas, preso entre o desejo e a moralidade que ele próprio prega, símbolo de uma religião que prefere o espetáculo da virtude à difícil tarefa da verdade. Amaro é o moralista que condena os outros enquanto negocia seus próprios pecados — e que, se vivesse hoje, teria um canal no YouTube e um contrato de publicidade com uma grande rede de streaming.

Brás e Amaro não estão mortos. Eles apenas trocaram o fraque por terno slim fit, a batina por figurinos estrategicamente escolhidos, e a pena por podcasts. Habitam nossos parlamentos, nossos palcos, nossos templos digitais. São os dois lados da mesma moeda: o cinismo confortável e o moralismo lucrativo. E nós, espectadores, seguimos aplaudindo.

Sloterdijk chamou isso de cinismo moderno: sabemos que o jogo é sujo, mas seguimos participando porque é mais fácil rir de tudo do que arriscar mudar as regras. A política não é mais um projeto coletivo, mas um espetáculo contínuo. Como diria Baudrillard, a simulação venceu: já não há diferença entre governar e performar, entre pregar e vender. Até a indignação precisa de filtro e enquadramento.

Essa estética do espetáculo se alimenta do nosso cansaço. Pensar dá trabalho, exige nuance, exige lidar com contradições. Morin insiste na necessidade de complexidade, de olhar para os problemas como uma rede interconectada. Mas a complexidade não rende likes. A polarização, sim. E, enquanto discutimos em slogans, o mundo se fragmenta em bolhas e curtidas. É mais fácil escolher um inimigo para xingar do que encarar a vastidão caótica da realidade.

Às vezes, porém, um escândalo escapa da bolha e vaza para a superfície, como um glitch na tela. Recentemente, na França, um ex-presidente foi condenado à prisão por conspiração criminosa, em um julgamento que expôs as engrenagens obscuras do poder. Em outros lugares, escândalos semelhantes terminam em aplausos, emojis e streams ao vivo. Enquanto em Paris se discute justiça, em outras latitudes discute-se narrativa. A diferença não está apenas na lei, mas na plateia. Em alguns lugares, a cortina cai; em outros, o show continua, sempre com uma nova temporada já anunciada.

E talvez aqui resida o problema mais profundo: não é apenas o poder que está corrompido, mas o nosso desejo de transformação. Sloterdijk diria que todos sabemos que algo precisa mudar, mas preferimos o conforto da acomodação. É como se estivéssemos hipnotizados diante de uma série interminável. A cada episódio, torcemos, vibramos, odiamos, e depois… desligamos a tela e seguimos a vida, sem mexer nas estruturas que sustentam a trama.

É aqui que Zizek entra com uma provocação radical. Em A Monstruosidade de Cristo, ele fala da ideia de kenosis, a autonegação divina: Cristo que se esvazia de sua transcendência ao se encarnar. Essa imagem, que ele chama de “monstruosa”, não porque seja vil, mas porque rompe todas as expectativas, pode ser lida como metáfora política. Quando não há mais uma figura superior — seja um Deus, um líder, um salvador — somos deixados diante do vazio, obrigados a assumir o fardo insuportável da liberdade. É assustador perceber que não existe um plano secreto, nenhum bastidor onde alguém segura os fios do destino. Só nós, humanos, atolados no palco que nós mesmos construímos.

Esse é o verdadeiro horror: não há ninguém para nos salvar de nós mesmos. A monstruosidade, então, não está em Cristo, mas no que ele revela: a necessidade de nos responsabilizarmos por aquilo que sempre terceirizamos. É mais confortável esperar um herói, um messias, um novo líder iluminado. Difícil mesmo é admitir que talvez sejamos apenas uma multidão desorganizada, tentando improvisar coreografias num palco que desmorona.

Enquanto isso, Brás Cubas continua rindo. Não aquele riso libertador, mas um riso preguiçoso, cúmplice, que anestesia. Padre Amaro continua pregando, agora em HD, vendendo esperança em planos mensais, oferecendo sentido embalado em slogans. E nós seguimos oscilando entre o riso cínico e a fé ingênua.

Talvez não faltem soluções. Falta incômodo.
Enquanto houver stories novos, preferiremos a anestesia da tela ao desconforto da consciência. É mais fácil cancelar alguém do que transformar alguma coisa. A mudança exige se levantar da plateia, e isso implica abandonar o conforto do assento numerado.

Mas será que suportamos a liberdade de um mundo sem salvadores? Ou preferimos continuar acreditando que, nos bastidores, existe alguém segurando as cordas, pronto para corrigir a peça no último ato? E, se não há ninguém, o que nos resta?

Talvez seja esse o milagre: perceber que Brás Cubas e Padre Amaro nunca foram apenas personagens literários. Eles são nós, nossos líderes, nossos influenciadores, nossas sombras projetadas na tela. Se o palco ruir, não haverá mais espetáculo. Só nós, expostos, sem filtros, diante da tarefa impossível de reescrever o enredo.

E então, diante das luzes que piscam e dos aplausos automáticos, a pergunta ecoa, incômoda e silenciosa: Você está na plateia? Ou é você quem dança, sem perceber, no centro do palco?


  • Machado de Assis. (1881). Memórias póstumas de Brás Cubas.
  • Eça de Queirós. (1875). O crime do Padre Amaro.
  • Sloterdijk, P. (1983). Crítica da razão cínica.
  • Baudrillard, J. (1981). Simulacros e simulação.
  • Morin, E. (1990). Introdução ao pensamento complexo.
  • Žižek, S. (2009). A monstruosidade de Cristo.

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