Por que uma faculdade de psicanálise não faz sentido — e pode ser perigosa

Imagine se existisse uma faculdade onde se pudesse aprender a sonhar. Um curso em que, semestre após semestre, alguém fosse treinado para amar, sofrer, desejar — e, ao final de quatro anos, recebesse um diploma dourado, atestando que agora está autorizado a mergulhar na alma humana. Haveria salas de aula para decifrar silêncios, laboratórios para estudar a dor invisível, manuais para lidar com o indizível. Seria prático, seguro, talvez até reconfortante. Mas, se a promessa soa sedutora, também carrega algo de sinistro: o inconsciente transformado em grade curricular, a experiência humana reduzida a checklist, o desejo enquadrado em protocolos. Tentar ensinar psicanálise como se ensina anatomia ou cálculo seria como domesticar o vento ou engarrafar o mar. A própria ideia de uma faculdade de psicanálise revela um mal-entendido profundo sobre a natureza do ofício analítico.

Christian Dunker, em uma fala firme e cortante, afirma que transformar a psicanálise em graduação não é apenas um erro teórico — é um desserviço à sociedade. Um analista não se forma por acúmulo de horas-aula, leituras obrigatórias ou provas finais. Sua formação começa em um lugar que nenhuma universidade pode fornecer: a análise pessoal. Freud, ainda no início do século XX, já intuía isso. Para ele, ninguém pode conhecer a psicanálise sem antes se deixar atravessar por ela. Não basta saber sobre o inconsciente; é preciso se ver despido por ele, tocado por forças que, até então, permaneciam invisíveis. A análise não se ensina — ela se vive, e viver implica suportar o desconforto de não controlar o caminho.

Em 1923, Freud definiu a psicanálise como tríplice: método de investigação, método de tratamento e conjunto de teorias em constante mutação. Essa definição revela seu caráter vivo, experimental, em permanente transformação. Enquanto a medicina trabalha com previsões e probabilidades, a psicanálise se move no terreno do imprevisível. Roberto Harari chamou o inconsciente de “saber não sabido”: algo que o sujeito não sabia que sabia, até que, na análise, esse saber emerge como surpresa. O analista, portanto, não aplica fórmulas nem opera como cientista que manipula variáveis. Ele se coloca diante do acaso, do encontro, do que escapa a qualquer previsão. E o acaso, por definição, não pode ser ensinado.

É justamente nesse território do imprevisível que se encontra o núcleo da psicanálise: a transferência. Otto F. Kernberg diferencia o psicoterapeuta de base psicanalítica do analista propriamente dito. O primeiro pode oferecer apoio, cuidado, significados; o segundo arrisca-se no terreno da transferência, onde se jogam afetos profundos, repetições inconscientes, paixões e ódios silenciosos. André Green, ao ser questionado sobre onde estaria o verdadeiro objeto da psicanálise — no paciente ou no analista — respondeu com precisão poética: “Ele não está nem no analista, nem no paciente, mas no espaço que se cria entre eles.” Esse espaço é frágil, vivo, incontrolável. Não existe manual ou estágio supervisionado que possa produzi-lo artificialmente. Sem que o futuro analista tenha vivido sua própria análise, qualquer tentativa de interpretar a transferência não passa de teatro — ou, pior, de charlatanismo travestido de ciência.

Leopoldo Fulgencio, em O método especulativo em Freud, defende que a psicanálise seja vista como uma forma de pesquisa, mas não no sentido laboratorial clássico. Ela é heurística, aberta, voltada para a investigação de processos psíquicos que não se deixam fixar. Elias Mallet da Rocha Barros complementa: é fundamental distinguir descoberta de teoria, descrição de explicação. Uma faculdade de psicanálise, ao tentar padronizar a formação, correria o risco de transformar a investigação viva em dogma morto — confundindo formação com formatação. É como tentar ensinar alguém a escrever poesia apenas decorando regras de métrica: o resultado pode soar correto, mas jamais será vivo.

Essa vitalidade só se preserva porque a formação do analista começa em outro lugar. Dunker insiste: a análise pessoal é a base ética e clínica do ofício. Não se trata de cumprir uma exigência burocrática, mas de atravessar uma experiência transformadora. É ali, no divã, que o futuro analista aprende a suportar o silêncio, a lidar com seus próprios fantasmas, a reconhecer os desejos que movem sua escuta. Sem esse mergulho, qualquer conhecimento teórico se torna estéril, porque não foi atravessado pela experiência que lhe dá sentido.

Wilfred Bion leva essa visão a um extremo poético e radical em A Memória do Futuro, sua obra mais ousada. Diferente de seus textos técnicos, aqui ele abandona a rigidez conceitual e escreve como quem sonha acordado: em fragmentos, metáforas, personagens simbólicos. O livro não busca apenas interpretar o passado do paciente, mas explorar o próprio processo de pensar, a experiência emocional e o encontro com o desconhecido. Conectando-se ao conceito de capacidade negativa, inspirado em John Keats, Bion propõe a habilidade de suportar o não saber, a dúvida, a incerteza — sem a pressa de preencher o vazio com respostas fáceis. O analista, nessa visão, se torna quase um artista da escuta, alguém que ajuda o paciente a transformar fragmentos caóticos em narrativas significativas, sem jamais fechar o sentido. Essa proposta desafia radicalmente a lógica universitária, que valoriza certezas, protocolos e produtos finais. A psicanálise, para Bion, não é um conhecimento a ser aplicado, mas uma criação contínua — e a criação, como a vida, não cabe em diplomas.

Nada disso significa que a psicanálise não deva ocupar espaço na universidade. Ela pode e deve ser estudada como campo teórico, dialogando com Psicologia, Medicina, Filosofia, Educação. É legítimo que seus conceitos sejam debatidos e pesquisados no ambiente acadêmico. O problema começa quando se confunde estudo teórico com formação clínica. Conhecer a teoria não equivale a estar pronto para a escuta analítica. Seria como conceder licença de piloto a alguém que só conhece aviões por manuais e simuladores: na clínica, o voo só se aprende voando — e voando dentro de si mesmo.

Mas vivemos em uma sociedade obcecada por títulos. Faculdades privadas funcionam como empresas, vendendo sonhos, status e promessas de empregabilidade. Uma faculdade de psicanálise correria o risco de se tornar mais um produto de mercado, oferecendo diplomas reluzentes que, na prática, nada garantem. O perigo não é apenas teórico: é social. Pacientes poderiam confiar suas histórias mais íntimas a pessoas que dominam conceitos, mas não sustentam a escuta necessária. Na psicanálise, a verdadeira credencial não se pendura na parede — ela se constrói na análise pessoal, na supervisão constante, na escuta viva de cada encontro.

Roberto Harari nos lembra que a psicanálise depende, em grande parte, do azar — não como improviso irresponsável, mas como abertura ao imprevisível. Enquanto a medicina trabalha com estatísticas e prognósticos, a análise se funda no singular, no que não se repete. Cada processo analítico é único, uma história inédita. Como ensinar o imprevisto? Como padronizar o indomável? Uma faculdade de psicanálise, ao tentar normatizar o encontro clínico, corre o risco de trair exatamente aquilo que deveria proteger. Transformaria a escuta viva em protocolo, a singularidade em estatística, o desejo em checklist.

Freud já nos alertava: a psicanálise só pode ser conhecida por quem se deixa transformar por ela. Dunker reforça que ela deve permanecer na universidade como objeto de reflexão, mas jamais como graduação independente. A formação de um analista é uma jornada artesanal, feita de silêncios, riscos e descobertas, incompatível com a lógica industrial do ensino superior. Talvez a pergunta mais urgente não seja se uma faculdade de psicanálise faz sentido, mas o que está em jogo quando se deseja criá-la. Buscamos segurança? Controle? Mercado? Ou tentamos, sem perceber, domesticar aquilo que mais nos assusta: a imprevisibilidade do desejo, a estranheza do inconsciente, a fragilidade de sermos humanos? Uma faculdade promete respostas, mas a psicanálise começa exatamente onde as respostas falham. No espaço entre dois seres humanos, onde, como dizia André Green, o verdadeiro objeto da análise não está nem no paciente nem no analista — mas no entre, no intervalo vivo em que algo pode nascer. E esse nascimento, como os sonhos, jamais caberá em uma grade curricular.


Bion, W. R. (2018). A memoir of the future. New York: Routledge.

Dunker, C. (2025, setembro 14). Faz sentido existir uma faculdade de psicanálise? | Falando nIsso [Vídeo]. YouTube. https://www.youtube.com/watch?v=eoUlwM3-wQY

Figueira, S. A. (Org.). (1994). Como Freud analisava? Escritos sobre a técnica e casos clínicos. Rio de Janeiro: Editora Grypho.

Freud, S. (1923). Psycho-analysis and the theory of libido. London: Hogarth Press.

Freud, S. (1925). An autobiographical study. London: Hogarth Press.

Freud, S. (1933). New introductory lectures on psycho-analysis. London: Hogarth Press.

Fulgencio, L. (2008). O método especulativo em Freud. São Paulo: EDUC.

Fulgencio, L. (Org.). (2018). A bruxa: Metapsicologia e seus destinos. São Paulo: Blucher.

Green, A. (Org.). (2003). Psicanálise contemporânea: Revista Francesa de Psicanálise: Número especial, 2001. Rio de Janeiro: Imago.

Harari, R. (2008). O psicanalista: O que é isto? Rio de Janeiro: Cia de Freud.

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