De onde vem este “eu” que insisto em pronunciar como se fosse propriedade? Será que ele me pertence de fato, ou apenas me atravessa como o vento que circula uma casa sem paredes? Quando tento segurá-lo, ele escapa; quando tento defini-lo, ele se fragmenta em pedaços que não se encaixam. Penso-me inteiro, mas descubro fissuras. Chamo-me sujeito, mas encontro ecos de vozes que não são minhas.
Se insisto em olhar para o espelho, vejo mais do que reflexo. Vejo o olhar de quem primeiro me olhou. Minha mãe, meu pai, meus cuidadores: seus gestos ainda repousam nos meus gestos, suas ausências ainda ressoam em minhas faltas. Carrego na pele a marca de mãos que me sustentaram, de palavras que me nomearam, de silêncios que nunca compreendi. Sou feito de presenças, mas também de vazios; como se cada ausência fosse tijolo invisível na construção do que hoje chamo de eu.
Mas será mesmo um eu? Ou apenas um mosaico de outros, colagem de nomes e interditos que, pouco a pouco, deram-me forma? Talvez eu seja apenas uma tradução imperfeita daquilo que a cultura me sussurra: ande assim, deseje assim, cale-se aqui, grite ali. Até a língua que falo não é minha: recebi-a como herança e prisão. Cada palavra carrega séculos de usos e normas, e até meus desejos falam em idioma emprestado.
E, no entanto, algo insiste em escapar. Entre as frestas da máscara social, lampejos piscam como vaga-lumes: lapsos, sonhos, sintomas, gestos desajeitados que denunciam o subterrâneo. São rebeldias secretas que não se deixam aprisionar. Há uma voz invisível que repete, como segredo: não sou apenas o que esperam de mim.
É nesse ponto que a psicanálise se insinua. Não como ciência exata, nem como manual de instruções, mas como travessia sem mapa. Entro no consultório carregado de perguntas, ansiando por respostas prontas. E saio, muitas vezes, com enigmas ainda maiores. Descubro que não estou ali para aprender como em uma aula, mas para falar — e sobretudo para me escutar no que digo sem saber que digo. O analista não me ensina. Sustenta um silêncio atento, como espelho que não devolve a forma, mas a deformidade. Ele não explica, mas devolve o que estava escondido nas dobras da minha fala.
E é nesse descompasso que algo se move. Tantas vezes já ouvi conselhos de amigos, de amores, de professores. E, no entanto, apenas ali, diante desse outro que não apressa, uma frase banal se abre como chave. O que parecia ruído se revela mensagem; o banal, portal. A psicanálise não oferece respostas, mas devolve perguntas. Coloca-nos frente ao que resiste: repetições que nos aprisionam, desejos que nos surpreendem, lembranças que insistem.
E então surge a questão que não cala: até onde é possível mudar? Talvez a mudança não seja destino, mas apenas deslocamento: o sopro que nos leva um pouco adiante, como folhas que não sabem para onde o vento as carrega. Mudar é perder-se de si e, ao mesmo tempo, encontrar-se em um rosto que nunca vimos. É desenhar-se no ar, sabendo que o contorno nunca será definitivo.
A análise não oferece mapa. É caminho improvisado, trilha aberta a cada palavra, viagem com olhos vendados guiada pelo rumor das próprias pegadas. O chão se constrói enquanto caminho, como se cada frase dita fosse pedra lançada sobre o abismo. E ainda assim, caminhamos. Há coragem no ato de sentar-se diante do desconhecido e falar. Coragem de se deixar surpreender por si mesmo.
O inconsciente é um oceano inalcançável. Não o vejo, mas sinto suas marés. Ele se manifesta nos sonhos que me confundem, nos lapsos que me traem, nos desejos que irrompem sem permissão. É o invisível que mais me revela. A análise é o barco frágil que me lança nesse mar: não me dá garantia de chegada, mas me obriga a soltar o cais.
Penso que o eu não é fortaleza a ser descoberta, mas ponte sempre inacabada, suspensa entre margens que nunca se tocam. Talvez eu seja apenas isso: intervalo entre um passo e outro, vazio que sustenta a travessia.
E nesse vazio, no meio da ponte, algo se torna claro: não sou resposta, sou pergunta. Não sou chegada, sou desvio. Sou fragmento e travessia, eco e silêncio. E é justamente nesse não-lugar, feito de ausência e promessa, que me encontro. Ou, quem sabe, é ali que finalmente me perco — e nesse perder-me descubro outra forma de existir.



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