A fruta e o sorriso

Começou como começam quase todas as noites — com o zumbido dos elevadores e a lenta descida ao subsolo, onde a cidade perde a voz. Lá embaixo, sob o clarão frio do térreo, fica a garagem — o ventre oco de concreto e eco, cheirando levemente a óleo e solidão. Eu chegava sempre no mesmo horário, ao fim de um longo dia de escuta — aquele tipo de escuta que nos deixa porosos, ao mesmo tempo cheios e esvaziados do mundo.

Ele era novo. O atendente. Um homem quieto, de rosto contido. Nem hostil, nem grosseiro — apenas fechado, como alguém que aprendeu a segurança do silêncio. Quando eu aparecia no fim do corredor, ele fazia um leve aceno de cabeça, buscava meu carro e o trazia até um ponto onde o ar voltava a ser quase respirável. Depois, me entregava as chaves sem dizer uma palavra.

No começo, não pensei muito sobre isso. Éramos ambos eficientes, anônimos, cumprindo nossos papéis nesse pequeno teatro subterrâneo das partidas. Mas havia algo no seu mutismo que permanecia comigo. Talvez porque, àquela hora, quando as luzes do prédio já se apagavam, todo gesto parecia mais audível — e toda ausência de gesto, ainda mais.

Então, numa noite, quase por brincadeira, deixei umas balinhas sobre a mesa ao lado da cadeira dele. Sem bilhete, sem explicação. Apenas uma doçura esquecida num espaço que cheirava sobretudo a motores. Na noite seguinte, deixei uma banana. Depois, um iogurte. Às vezes uma tangerina, às vezes um biscoito. Coisas pequenas, ofertas inúteis — daquelas que não fazem sentido dentro da lógica da eficiência.

Eu fazia isso em silêncio, enquanto ele buscava meu carro. Havia uma ternura nessa clandestinidade, uma alegria frágil em fazer algo que talvez permanecesse invisível. Não era caridade — era algo mais delicado do que isso. Talvez fé. Ou aquilo que Christian Bobin chamaria de o serviço invisível do amor, a arte de tornar o mundo um pouco menos cego.

Os dias passaram. Nada mudou. O rosto dele seguia o mesmo, fechado, o mesmo ritual imóvel. Ainda assim, o gesto começou a ganhar um brilho próprio, como um pequeno ritual particular. O ato bastava. Deixar algo sem saber se faria diferença — isso, por si só, já era respirar de outro modo.

Até que, certa noite, aconteceu. Ele me viu. Não por acaso — viu-me colocando a fruta sobre a mesa antes de eu seguir em direção ao carro. Nossos olhares se cruzaram por menos de um instante. E, nesse intervalo frágil, algo estremeceu no ar. Seu rosto, antes guardado, se suavizou. Um sorriso — hesitante, incerto, mas luminoso — se abriu. Eu sorri de volta. O subsolo, aquele mundo de concreto, pareceu subitamente mais leve, quase sagrado.

Desde então, ele sempre me cumprimenta. O carro já está ali me esperando, com os faróis alinhados na direção da rampa, pronto para subir à superfície. O ritual continua — sem palavras, apenas gestos que sussurram sob o ruído do mundo.

Hartmut Rosa escreve que a vida moderna silencia o mundo. Ele se torna mudo, diz ele — incapaz de responder ao nosso toque. Movemo-nos cada vez mais rápido, mas nada mais ecoa de volta. O que ele chama de ressonância é esse instante raro em que o mundo responde — quando algo ou alguém vibra em resposta à nossa presença. Naquela noite, sob aquela luz subterrânea, a ressonância voltou. O sorriso foi o seu som.

Bobin contaria a história de outro modo. Diria que o infinito se esconde no ordinário: numa fruta deixada sobre uma mesa, num olhar que perdoa o dia. “A alma”, ele escreveu, “se alimenta daquilo que não pode ser comprado.” Suas palavras me acompanham toda vez que desço a rampa estreita. A gentileza, afinal, não tem a ver com recompensa — é uma maneira de ver. É poesia contrabandeada para dentro da rotina.

Talvez o mundo não precise de grandes gestos para se curar. Talvez o que o mantém suportável sejam esses atos discretos, não registrados — um sorriso sob a luz fluorescente e fria, uma fruta esquecida sobre uma mesa de plástico, um carro esperando à beira da noite. Às vezes me pergunto se ele conta isso a alguém, se a história atravessa as paredes e carrega consigo esse pequeno rumor de graça.

Nunca falamos sobre isso. E nem precisamos. Alguns silêncios, uma vez tocados pela gentileza, continuam ecoando muito depois que os motores se calam.



Bobin, C. (1992). Le Très-Bas.

Rosa, H. (2019). Resonance: A sociology of our relationship to the world.

Deixe um comentário

Eu sou Renne

Boas vindas! Este não é um site de respostas rápidas, é um espaço de escuta e reflexão…

Aqui, a psicologia e a psicanálise não aparecem como manuais de comportamento, mas como modos de pensar a experiência humana, suas contradições, seus impasses e suas delicadezas.

Então, se quiser, pegue um café ou uma água de coco e deixe que os textos encontrem o seu tempo.