A fome de alcance

Há sempre alguém correndo atrás de nós, segurando o selim — um pai, uma mãe, um amigo — sussurrando: não tenha medo. E então, um instante antes do tempo certo, a mão se solta. É nesse momento que aprendemos que equilíbrio não tem nada a ver com segurança, mas com risco. O tremor vira ritmo; o medo se transforma em voo. Entramos no mundo do movimento — e talvez nunca mais saiamos dele.

Aquela primeira pedalada não é apenas uma vitória infantil. É o ensaio da vida moderna: aprendemos a seguir em frente sem olhar para trás, a manter-nos de pé apenas acelerando. A partir desse dia, a velocidade se torna prova de existência. A criança mais lenta cai; a mais rápida chega. Liberdade e medo nascem gêmeos.

O que chamamos de progresso é, muitas vezes, apenas a repetição desse pacto infantil — agora com rodas melhores e metáforas piores. A bicicleta vira carro, o carro vira carreira, a carreira vira performance — tudo movido pela mesma ansiedade de não parar. Corremos atrás de horizontes como se o impulso, por si só, pudesse dar sentido à vida. Mas toda aceleração carrega um fantasma. Quanto mais avançamos, menos sabemos de onde partimos. A expansão se disfarça de sentido; o alcance substitui a profundidade; o aplauso ocupa o lugar da ressonância. O eu moderno — sempre pedalando — esquece que certos movimentos também são formas de fuga.

Talvez, naquela primeira pedalada trêmula, a semente do nosso cansaço já estivesse plantada — a ilusão de que, para sermos amados, vistos, reconhecidos, precisamos continuar desaparecendo do ponto de partida.

Em algum momento da estrada, a alegria simples de pedalar vira fome. Não fome de comida, mas de mais mundo — mais distância, mais público, mais luz. Já não basta alcançar o lago; agora queremos a cidade, o país, o planeta, o céu. O que antes tocávamos com assombro, agora medimos em produtividade. O que antes admirávamos, agora precisamos possuir.

Hartmut Rosa chama isso de a compulsão moderna pela alcançabilidade — o impulso incessante de colocar mais e mais do mundo sob controle. Estendemos as mãos para tudo: o tempo, a natureza, a linguagem, até o coração dos outros. Aprender um novo idioma, dizemos a nós mesmos, é ampliar o mundo; e ainda assim, até esse gesto carrega a mesma promessa febril — a de que a vida será melhor se pudermos acessar mais, compreender mais, possuir mais.

É o mesmo mito de sempre, apenas atualizado com telas mais brilhantes. Antes, o homem devorava maçãs no jardim; agora devora horizontes. O sénateur de Os Miseráveis já havia confessado: je dévore — eu devoro. E nós também: consumimos o que não podemos nos tornar, engolimos o mundo antes que ele nos engula. Ficar parado parece morrer; desacelerar, apagar-se do mapa da relevância. Por isso seguimos nos movendo, postando, melhorando — sem fim, sem fôlego, sem propósito.

E, no entanto, sob essa aceleração há um silêncio estranho. Quanto mais mundo trazemos para perto, menos ele parece nos tocar. Sabemos de tudo, mas nada ressoa. Podemos ir a qualquer lugar, mas nenhum parece chegada. Na fome de alcançar todas as coisas, esquecemos a arte de ser alcançados.

Confundimos proximidade com intimidade, conexão com presença, domínio com sentido. A bicicleta da infância virou o algoritmo da vida adulta — ainda girando, ainda em movimento, mas o cenário se dissolveu em abstração. Nossas vidas passam como paisagens que já não enxergamos. Talvez nossa maior fome hoje não seja por mais mundo, mas por um motivo para parar.

E quando finalmente paramos, percebemos que a estrada está cheia — não de viajantes, mas de espectadores. No começo, queríamos apenas pedalar; agora queremos ser vistos pedalando. O olhar do outro, que antes era espelho, virou mercado. Já não basta existir; é preciso ser percebido. Postamos, performamos, publicamos — não para expandir o mundo, mas para expandir o reflexo que temos nele. Já não conquistamos distância, mas atenção.

Aqui, o valor se torna mensurável: curtidas, seguidores, aplausos — as novas moedas do pertencimento. Mas toda forma de visibilidade cobra um preço invisível. Quanto mais somos vistos, menos espaço sobra para a intimidade respirar. O reconhecimento — esse milagre frágil de ser visto como se é — transforma-se na pressão de ser visto como se espera.

A velha intuição de Freud retorna como um sussurro: sentimos fortes quando nos sentimos amados. Mas em nosso panteão digital de auto exposição, confundimos amor com luminosidade — como se o calor do afeto pudesse ser substituído pela luz fria da visibilidade. Ser aceito vira performance; ser amado, métrica. Aceleramos não para chegar, mas para não desaparecer.

E mesmo sob o aplauso há uma pergunta silenciosa — aquela que Rosa chama de ressonância: o que acontece quando o mundo deixa de responder? Quando nossos gestos, palavras e esforços não encontram eco? É então que o mundo se achata — e o eu, ainda que hiperexposto, torna-se inaudível.

Victor Hugo zombou da promessa divina: “A imortalidade do homem, um velho conto de ninar.” Mas a imortalidade voltou, disfarçada em pixels. Trocamos a eternidade pela visibilidade — e parece quase o mesmo, até que deixa de parecer. Porque, mesmo sob tanta luz, algo em nós ainda deseja a sombra.

Mais cedo ou mais tarde, até o ciclista mais fiel precisa parar de pedalar. Não porque a estrada acabou, mas porque o fôlego acabou. E nessa pausa — esse silêncio frágil entre duas acelerações — algo diferente começa a falar. Não é o zumbido das máquinas nem o aplauso dos espectadores. É a vibração tênue do próprio mundo: o farfalhar das folhas, o pulso suave do tempo, a voz de alguém ao lado que não está representando.

Rosa chama isso de ressonância — a capacidade de ser tocado e responder, de deixar o mundo falar de volta. Não é domínio, é encontro. Não é controle, é conversa. A modernidade nos ensinou a ampliar nosso alcance, mas não a sustentar nosso eco. Aprendemos a tocar tudo, mas esquecemos como ser tocados. Confundimos acesso com pertencimento, aceleração com vitalidade. Mas o mundo, como uma pessoa, não se abre pela conquista — ele se abre pela confiança.

Ser aceito, então, não é ser impecável nem impressionar. É ser acolhido na própria imperfeição — no tremor que outrora nos definiu, antes de sermos dominados pela eficiência. Talvez a coragem hoje não esteja em alcançar a lua, o mercado ou o aplauso, mas em desacelerar o bastante para ouvir o eco do que ainda está vivo dentro de nós.

Encontrar o mundo não como conquistador, mas como ser ressonante. Deixar que o olhar do outro se torne abrigo, não julgamento. Parar de devorar — e começar a escutar. Talvez o equilíbrio nunca tenha sido sobre velocidade, mas sobre aprender a cair sem perder o chão do coração.

Cada época, afinal, inventa sua própria teologia para fugir do terror de ficar parado. A nossa trocou a salvação pela velocidade. Já não rezamos — atualizamos. Já não confessamos — postamos. E quando o silêncio chega, rolamos a tela um pouco mais rápido, como se a eternidade pudesse aparecer na próxima notificação.

A voz de Hugo ainda murmura ao fundo: je dévore. Sim — devoramos o mundo, e o mundo nos devora de volta, suavemente, quase com gentileza. Chamamos isso de engajamento.

Mas Rosa nos convida a outro gesto — terno, quase ingênuo em sua lentidão: parar de tratar o mundo como algo a ser alcançado e começar a encontrá-lo como algo que pode responder. Redescobrir a alegria não no controle, mas na ressonância.

Talvez ser verdadeiramente moderno, hoje, signifique resistir à ilusão do domínio sem ceder ao desespero; rir baixinho da absurda tentativa de comandar o que nunca nasceu para obedecer.

A criança na bicicleta já sabia antes de nós: não se mantém o equilíbrio segurando com força, mas ouvindo o ritmo da estrada sob as rodas.

Então, que saibamos rir — não o riso cínico do cansaço, mas o riso límpido de quem finalmente parou de disputar com o vento. Que deixemos o mundo nos tocar novamente — e aceitemos, com um sorriso sereno, que mesmo que já não possamos conquistá-lo, ainda podemos pertencer a ele.


(1)Mas eu terei desfrutado. Minha escolha está feita. É preciso ou comer, ou ser comido. Eu devoro. Melhor ser os dentes do que a erva. Essa é a minha sabedoria.” [Tradução minha].


  • Hartmut Rosa. Resonance: A Sociology of Our Relationship to the World. Polity Press, 2019.
  • Hartmut Rosa. The Uncontrollability of the World. Polity Press, 2020.
  • Victor Hugo. Les Misérables. 1862.

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