A epopeia de um motor

Era fim de tarde, e o sol, cansado de tanta cidade, se escondia entre prédios. Eu caminhava, descendo a ladeira do centro — dessas que fazem o corpo lembrar que o chão também tem vontades. As buzinas já tinham o tom nervoso das seis, e o ar cheirava a pressa.

Cheguei ao semáforo no instante em que o verde acendeu. O primeiro carro partiu com o ímpeto dos que sabem para onde vão. O segundo, não. O motor morreu, como um soluço seco. A mulher ao volante — uma jovem de cabelos presos numa pressa desajeitada — girou a chave, tentou de novo, a ladeira respondeu com aquele pequeno recuo que só a gravidade e a ansiedade conseguem fazer juntos. Atrás, buzinas. Não a buzina que chama, mas a que acusa. A cidade tem muitos dedos e todos apontam.

Ela me olhou. Não foi um pedido de socorro inteiro, desses que saem pela janela com o braço, mas um pedido de socorro que só os olhos sabem fazer: “me diga que não sou um erro, que ainda dá.” A mão dela tremia no freio de mão, o pé procurava a embreagem como quem tateia um degrau no escuro. Eu me aproximei e perguntei se ela estava bem. “Sou recém-habilitada”, murmurou, e esse “recém” pesou mais do que a ladeira. Tentei orientá-la com calma: segure o freio de mão, sinta a embreagem, ache o ponto, depois acelere. O motor tossiu, prometeu, desistiu. Atrás, um coro impaciente apertou o ar. Outro motorista pendurou metade do corpo pela janela para assistir a derrota.

Então ela respirou fundo, soltou o volante e, num impulso de quem não quer mais atrapalhar o mundo, pulou para o banco do carona. “Você consegue tirar o carro?”, pediu, quase num sussurro. Entrei. O banco ainda guardava o calor da aflição. Respirei, girei a chave, senti o motor despertar — hesitante, mas vivo. Engatei a primeira, soltei o freio de mão, deixei o carro sentir o peso da ladeira. Quando ele respondeu, leve e firme, segui até um trecho plano e silencioso, alguns metros adiante.

Parecia pouco, mas aquele pequeno deslocamento tinha libertado o trânsito inteiro. As buzinas cessaram, como se o mundo, satisfeito, tivesse voltado a girar. Parei o carro, saí, e ela — ainda trêmula — retomou o lugar ao volante. O rosto dela misturava alívio e espanto, como quem sobrevive a um susto e ainda tenta entender o que aconteceu. Disse que sempre teve medo de que isso ocorresse, e que sonhara mais de uma vez com o carro morrendo na subida.

Eu disse o que pude — talvez com mais intuição do que sabedoria: que era normal; que todos nós, quando ansiosos, esquecemos o ponto exato entre o medo e a confiança; que o carro morrer não é um fracasso, é só um modo do corpo lembrar que também precisa respirar. Ela sorriu de leve, como quem aceita o consolo sem acreditar muito, mas grata assim mesmo. Agradeceu, ajeitou o espelho, respirou outra vez. O motor ronronava, obediente, como se tivesse perdoado o susto.

Antes de seguir, ela me olhou e disse “Obrigada.” Depois, partiu devagar, com uma delicadeza quase cerimoniosa, como se pedisse desculpas à cidade. Eu fiquei parado por alguns segundos, observando o carro se afastar até desaparecer na curva.

Quando retomei minha caminhada, a rua parecia outra. A pressa das pessoas era a mesma, os sons também, mas havia um silêncio diferente dentro de mim — o silêncio que às vezes fica depois de uma cena que ninguém mais notou.

Pensei que viver se parece muito com dirigir. A gente aprende o caminho, estuda os sinais, mas o que realmente importa é o instante em que o motor falha. É ali que se revela quem somos: quando não há manual, quando o corpo precisa encontrar o ponto de equilíbrio sozinho.

Aquela moça tinha vivido, em poucos minutos, um retrato inteiro da existência. Cercada por impaciências, paralisada pela culpa, incapaz de seguir adiante — até que alguém, por acaso, decidiu parar. Não foi heroísmo, foi gesto. Às vezes, é disso que o mundo precisa: de um corpo que não buzine.

Segui descendo a ladeira. A cidade voltava à sua pressa habitual, indiferente ao pequeno resgate que acabara de acontecer. Mas algo ficou comigo — talvez a lembrança daquele olhar entre o medo e a esperança, ou talvez a percepção simples de que, mesmo entre buzinas, ainda há espaço para um pouco de humanidade.

Nunca mais a vi. Não sei se aprendeu a dominar as ladeiras, se ainda teme o ponto da embreagem, ou se conta essa história a alguém. Pode ser que tenha esquecido — a memória guarda o que quer, e a gratidão, às vezes, se dissolve como o vapor do asfalto depois da chuva. Mas toda vez que vejo um carro hesitar num cruzamento, lembro dela. E penso que a vida é exatamente isso: uma sucessão de subidas e paradas, de motores que morrem e mãos que ajudam.

Há dias em que somos estrada, noutros, ladeira. Às vezes motor, às vezes vento. E há momentos em que somos apenas quem observa da calçada, com o coração posto em marcha lenta. Em cada papel, algo em nós se humaniza um pouco mais. Porque o segredo não é nunca deixar o motor morrer — é aprender a ouvir o seu silêncio, reacender a coragem e seguir, mesmo que o caminho ainda tremule dentro de nós.


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