Há dias em que acordo com uma sensação antiga, uma espécie de saudade que não tem nome. Não é de um lugar, nem de uma pessoa. É como se algo dentro de mim tivesse se mudado — e esquecido de deixar o novo endereço.
Os rostos que passaram, as vozes que um dia foram abrigo, ainda acendem pequenas luzes na memória. Mas agora são clarões distantes, lampejos de uma vida que segue em outra frequência. Como se a amizade tivesse aprendido a existir em silêncio — um amor que já não precisa de presença para ser lembrado.
Às vezes penso que a vida é uma sucessão de desencontros bem-intencionados. Nos prometemos reencontros, cafés, risadas, aniversários. Mas o tempo tem o hábito de apagar as anotações das agendas humanas. De um dia para o outro, o “vamos marcar” vira pó de calendário.
No fundo, o afastamento é um outro nome do movimento. A maré baixa que não se despede, apenas recua. E quando volta, já é outra água.

Há lembranças que ainda me cheiram a fruta madura — um quintal, uma piscina, uma risada correndo na rua. A infância tem dessas magias: tudo nela parece eterno, e ainda assim desaparece num sopro. De repente, os amigos de então viram notícias alheias, vozes que ecoam por terceiros, ou apenas perfis que brilham em telas frias. E há um silêncio nisso que não dói — apenas pesa. Como se o coração guardasse um álbum de pessoas que ainda vivem, mas em outro tempo.
Também na vida adulta, a vida se repete em ciclos menores. Três pessoas, um grupo, encontros anuais, o riso num restaurante qualquer… Depois, uma pandemia, compromissos, urgências, desencontros. E, sem que se perceba, o ritual vira lembrança. A mesa fica posta no pensamento, mas o tempo não vem.
Talvez seja assim que as relações envelhecem: não por ruptura, mas por evaporação. Não há brigas, nem despedidas. Só o ar ficando rarefeito entre as palavras, até que o som se dissolve. E o que resta é a ternura das entrelinhas — aquilo que não se disse, mas ficou.
O tempo é um rio que não sabe voltar. E nós, criaturas de margem, aprendemos a nadar sem retorno. De vez em quando, a corrente traz um fragmento — uma lembrança, uma risada antiga, o eco de um nome. É o bastante para que o coração saiba que houve vida ali.
Não sei se é tristeza. Talvez seja um tipo de gratidão discreta. Como quem acende uma vela não para chamar, mas para agradecer o que já foi presença.
Há pessoas que ficam dentro de nós como casas sem morador. Não porque se foram, mas porque já cumpriram o tempo de ser abrigo. E, ainda assim, o chão guarda o cheiro, as paredes guardam ecos. Às vezes passo por dentro dessas lembranças como quem visita uma cidade antiga: reconheço os caminhos, mas não saberia mais viver ali.
O tempo, esse artesão invisível, trabalha com paciência. Apara os excessos, silencia os ruídos, recolhe os vínculos que não cabem mais na pele do agora. E, quando nos damos conta, o que parecia perda era só transformação. Não se trata de esquecer — mas de deixar o amor mudar de forma.
Talvez seja isso o amadurecer: aprender a amar o que se afastou, aceitar a presença que resta na ausência. Amar o outro onde ele está — mesmo que seja longe, mesmo que já não saiba nosso nome.
Às vezes, nas tardes silenciosas, sinto que o tempo se senta comigo. Não fala, não explica, apenas observa. E eu entendo, sem palavras, que a vida não se mede pelo que dura, mas pelo que ressoa. Há amizades que não terminam: apenas mudam de tempo. Como certas canções que continuam tocando mesmo depois do fim.
Então sorrio, sozinho, lembrando do que fomos — e do que seguimos sendo, dispersos, mas ainda parte do mesmo sopro. E penso que talvez o amor, em todas as suas formas, seja isso: um fio invisível costurando o que o tempo tenta desfazer. Uma respiração compartilhada entre ausências. Um modo de continuar dizendo “estou aqui”, mesmo que ninguém ouça.


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