Quando a vida mia numa noite fria

A sala de espera de um veterinário tem um silêncio próprio — um silêncio que respira. Não é o mesmo das bibliotecas, que se sustenta na ordem das letras. É um silêncio que escuta: patas que tocam o chão, focinhos molhados que farejam a gravidade do ar, olhos que perguntam sem gramática. Eu estava ali com a minha cachorrinha, tentando fazer do colo um abrigo, quando os miados começaram a atravessar a parede com um fio de dor tão fino que parecia cortar o ar. Eram pequenos, quase sussurrados, como quem pede licença para existir. E no entanto, tudo que é miúdo grita mais alto.

Um homem passou apressado, saiu sem dizer nada, como se a pressa fosse o único remédio que conhecia contra o mundo. Logo depois, o veterinário me chamou. Havia algo no rosto dele que não pertence ao ofício — uma espécie de susto que não se aprende na faculdade. Contou que o homem que saíra havia resgatado gatinhos de um bueiro. Dissera ter visto alguém jogá-los lá — a mão humana do abandono. Agora, atrás da porta, tentavam salvar o que pôde ser salvo. Os miados eram ilhas de vida flutuando no cano escuro da noite.

Voltei a sentar. A espera, naquele instante, ficou grávida de perguntas. Como é que se joga a vida fora? Que músculo se contrai dentro de nós para que o gesto aconteça? Às vezes, penso que desaprendemos a reconhecer o outro quando ele não tem voz que se pareça com a nossa. Talvez o tempo em que vivemos tenha adestrado nossa sensibilidade para preferir o que se explica, o que produz, o que responde rápido. O resto — o que apenas olha, respira e confia — vira sobra, vira ruído, vira bueiro. E, no entanto, é justamente aí que a humanidade se testa: no modo como tratamos a fragilidade que não sabe pedir.

Olhei a minha cachorrinha: os olhos dela, como duas jaboticabas, me diziam qualquer coisa que não cabe no raciocínio. Há um amor que não faz conta; é o amor que repousa. Não negocia, não argumenta, não nos posiciona no mundo: apenas nos encosta nele. Os animais sabem dizer com o corpo aquilo que nós desaprendemos a ouvir: que há cura em pertencer e que um colo, às vezes, é um país. Eu, que ganho a vida tentando compreender dores com palavras, pensei se teria fôlego de trabalhar onde a dor quase não pode ser dita. Como suportar diariamente as salas de espera onde até o silêncio sangra? Talvez eu não sirva para ser veterinário; talvez me falte a coragem de quem escuta o indizível com as mãos.

Pensei, também, que há um parentesco secreto entre quem ausculta corações com estetoscópio e quem os escuta deitados no divã. Ambos lidam com aquilo que não encontra nome fácil. O veterinário aprende a ler febres no farejar dos narizes, tremores no modo como a cauda se encolhe; o analista aprende a ouvir as sombras que as palavras projetam. Em um, o amor é termômetro; no outro, é metáfora. Os dois tocam uma dor que, se pudesse dizer-se, talvez se curasse sozinha. E é por isso que admiramos esses ofícios: porque eles estendem uma ponte sobre a mudez do sofrimento.

A notícia dos gatinhos não saía de mim. Imaginei o bueiro como uma espécie de boca do mundo, mastigando o que queremos esquecer. Quantas coisas lançamos ali: restos de afeto, responsabilidades vencidas, culpas sem recibo. O abandono, antes de ser ato, é pedagogia: aprende-se aos poucos, no dia em que não devolvemos o olhar do caixa, na noite em que passamos pelo morador de rua como quem contorna um poste, na vez em que rimos de um erro alheio para acelerar a fila da nossa importância. Vamos ensaiando pequenas deserções até que um dia a mão se acostuma e atira. O mal raramente chega com tambores; geralmente, veste a roupa casual do costume.

Do outro lado da porta, alguém tentava reverter o irreversível de uma queda. E eu, deste lado, organizava a revolta para que não virasse fúria oca. Há certa saúde em indignar-se, mas ela adoece quando nos absolve do trabalho miúdo de afinar a atenção. Porque o mundo não se melhora só com grandes gestos; muitas vezes, é no pequeno cuidado que reescrevemos o destino de um dia. Um pote d’água deixado no calor para o cão da rua, um anúncio colado no poste em busca de lar, um “posso ajudar?” dito sem currículo. Quem salva gatinhos do bueiro, antes disso, salvou dentro de si mesmo a parte que ainda consegue se comover.

Quando o veterinário voltou, trazia as mãos limpas e os olhos cansados. Me explicou o necessário sobre a minha cachorrinha: remédio, descanso, paciência. E, com poucas palavras, me contou que estavam tentando aquecer os pequenos, que um deles reagira, que os outros lutavam naquele território estreito entre o corpo e a desistência. A clínica, por um momento, pareceu templo. Havia uma espécie de liturgia naquela tentativa: cobertores, seringas, respirações miúdas — tudo conspirava contra a frieza do gesto que os jogara fora. É assim que o mundo resiste: liturgias discretas de cuidado reinstalam sentido onde alguém havia instalado o nada.

Saí para a rua com o passo mais lento. A noite parecia suspensa, como se o tempo tivesse medo de seguir. As janelas apagadas lembravam que quase todos dormiam — e, no entanto, havia uma claridade acesa dentro de mim. Fiquei pensando que, no fundo, toda ética começa por essa pergunta simples: o que eu faço com aquilo que depende de mim? Nem sempre teremos como impedir as violências grandes, mas quase sempre teremos como impedir as pequenas. E são elas, as miúdas, que ensinam a mão a não doer.

Talvez a crueldade não seja um monstro — seja um hábito. E, se for assim, o seu antídoto também é hábito: insistir no gesto que cuida, na frase que respeita, no tempo que abriga. No treino paciente de voltar a olhar. Eu penso que a nossa época desaprendeu a demorar-se: passamos pelos seres como quem passa o dedo na tela — deslizando. E deslizar é a técnica do não-vínculo. O resgate, por sua vez, é o ofício da demora: alguém parou, escutou um miado, seguiu esse fio de som até o subterrâneo do dia, meteu as mãos, sujou-se, trouxe à luz uma vida. Em linguagem de alma, isso se chama “ficar”.

Mais tarde, já em casa, o silêncio era outro. Minha cachorrinha dormia tranquila, enrodilhada no cobertor, o corpo inteiro rendido à confiança. Lá fora, a cidade seguia insone em seus motores e ruídos invisíveis. Fiquei olhando para ela e pensei que talvez o amor seja isso: uma vigília que não cansa, um modo silencioso de permanecer perto. Há dores que nunca aprenderão português, mas ainda assim nos falam. Os olhos dos animais, quando doem, ficam fundidos com um brilho de quem confia: eles não sabem se iremos curar; sabem, porém, que ficamos.

E é desse “ficar” que, penso eu, nasce a espécie de amor que ainda poderá nos salvar — não um amor explicado, mas o amor que sustenta. É o amor que não pergunta se vale a pena; ele é o que faz valer. Não precisa vencer debates; prefere aquecer corpos. Não promete transformar o mundo; transforma o minuto em que toca.

Penso na mão que jogou e na mão que resgatou. Ambas são humanas. E é nesse intervalo — o vão entre uma e outra — que a nossa espécie se escolhe. A cada dia, a cada sala de espera, a cada bueiro escondido, escrevemos com as mãos uma gramática do destino. Talvez a evolução que esperamos não esteja adiante, mas abaixo dos nossos olhos: no gesto que devolve a vida para onde ela estava sendo arrastada.

A noite terminou quieta. Do lado de fora, o mundo ainda late, mia, respira. Dentro de casa, o amor cochila — mas permanece de guarda. E enquanto houver um miado que nos chame de volta para o que importa, ainda estaremos a caminho. O amor não precisa vencer o mundo; basta que o desvie um pouco do bueiro. E se, um dia, alguém perguntar onde começa a humanidade, direi que é neste estofo invisível que guardamos no colo: lá onde o frágil repousa e, repousando, nos ensina quem somos.


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