O dia se derramava sobre o campo como um fio de ouro líquido — desses que brilham antes de escurecer. O sítio, especializado em azeites raros, era um daqueles lugares em que o tempo parece decantar junto às oliveiras. Falava-se de acidez, de colheita manual, de notas frutadas e perfumes verdes — e cada palavra tinha o tom cerimonioso de quem tenta capturar a natureza dentro de uma garrafa.
Depois da visita guiada, do passeio entre os galpões e da degustação cuidadosa, os adultos se dispersaram pela loja, comparando preços, rótulos, origens. Do lado de fora, o fim de tarde respirava lento. E foi nesse intervalo entre o luxo e o pó, entre o discurso e o chão, que a criança se afastou em silêncio. Atrás do galpão, encontrou um pé de amora — antigo, esquecido, generoso. Enquanto nós ainda falávamos de sabor, ela já tinha o rosto roxo, os dedos pintados, a boca cheia de sol.
As frutas se acumulavam nos galhos como pequenas promessas escuras, e logo formamos uma pequena procissão em direção ao pé. Ríamos, provávamos, manchávamos as mãos, o rosto, as roupas — havia algo de ritual nesse gesto coletivo, quase uma comunhão pagã.
Foi então que a criança, de súbito, ergueu a voz num tom de súplica:
— Mãe, me dá amora. Eu não comi nenhuma.
A frase ecoou entre risos contidos, porque o rosto da criança estava inteiramente manchado de roxo — lábios, queixo, dedos. A mentira era tão óbvia quanto inocente, tão humana quanto cômica.

Mas havia ali algo maior do que o riso. Um segredo discreto, um instante inaugural: o momento em que a linguagem se descobre autônoma, capaz de inventar um desvio entre o que é e o que se diz. A mentira — percebemos — não é o contrário da verdade. É seu primeiro ensaio.
A criança mente, talvez, não para enganar, mas para prolongar o encanto. Mentir é uma forma de continuar brincando, de permanecer dentro do jogo do desejo. Dizer “não comi nenhuma” é o modo de dizer “me dá mais”, mas de um jeito que preserve a doçura do pedido. É o artifício de quem ainda acredita que a palavra pode fabricar o real.
Nesse pequeno teatro doméstico, algo da humanidade se revela. Mentir é um gesto de imaginação: o instante em que o sujeito descobre que a verdade não basta. E talvez a cena se repita, em escalas maiores, por toda a vida — cada vez que tentamos parecer inteiros, felizes, resolvidos, ainda que algo em nós, invisível e doce, revele as manchas que o tempo não apaga.
Talvez seja isso: mentir é a forma que encontramos de continuar pertencendo.
A verdade em movimento
Nietzsche dizia que a verdade é “um exército móvel de metáforas”. Não há palavra que não disfarce o mundo — toda linguagem nasce de um desvio, de um gesto que tenta tocar o real e, ao mesmo tempo, o perde. O que chamamos de verdade talvez seja apenas uma mentira que aprendeu a se comportar.
A palavra, quando nasce, já nasce torta: precisa se afastar da coisa para poder nomeá-la. É nesse afastamento que surge o pensamento — e também a fenda por onde a mentira entra. Por isso, mentir não é o oposto de dizer a verdade. É apenas lembrar que toda fala é uma invenção.
Dizer é sempre deformar. E talvez a criança, ao negar a amora que ainda lhe pinta o rosto, repita o gesto inaugural de quem fala pela primeira vez: tentar traduzir o vivido em algo que caiba no mundo dos outros. Mentir, nesse caso, não é enganar — é criar uma ponte entre o que se sente e o que se pode dizer. É transformar o real em linguagem, e a linguagem, em abrigo.
Nietzsche desconfiava que o homem mente para continuar de pé diante do insuportável. Que a linguagem é uma invenção para adocicar o real — uma forma de sobrevivência. A verdade absoluta, se existisse, talvez nos cegasse.
A mentira, ao contrário, nos permite olhar.
E entre a criança e o filósofo, a lição é a mesma: falar já é mentir um pouco — e talvez o perigo maior não esteja na mentira, mas em esquecer que toda palavra carrega um pequeno desvio de beleza e engano.
O preço de falar
Freud dizia que, às vezes, quando dizemos “não”, estamos apenas encontrando um outro jeito de dizer “sim”. O “não” é um disfarce. A criança, com a boca manchada de amora, ao negar o que é visível, talvez não queira enganar — apenas dizer o indizível. Naquela pequena negação mora tudo o que não cabe inteiro no mundo: o desejo, o prazer, a culpa e o medo de perder o amor de quem a escuta.
A mentira, nesse sentido, não é um erro, mas uma tradução. Traduz o que sentimos, mas ainda não sabemos dizer sem nos ferir. É um modo de proteger o que há entre nós — esse laço invisível que sustenta o amor mesmo quando a verdade pesa demais. Às vezes, mentir é apenas isso: o gesto de quem ainda busca um colo, mesmo depois de ter crescido.
Falar é sempre um risco. Cada palavra que sai de nós carrega um pedaço do que não conseguimos dizer. A realidade, quando ganha nome, já se parte em fragmentos. E é nesse espaço entre o que sentimos e o que conseguimos pronunciar que a mentira nasce — não como engano, mas como tentativa de permanecer.
Há mentiras que protegem. Que guardam a ternura dentro do silêncio. Que adiam a ferida até que o amor esteja pronto para escutá-la. Porque há verdades que, ditas cruas, podem destruir o que tentamos preservar.
Talvez mintamos para não quebrar o espelho do outro. Para continuar sendo amados, compreendidos, acolhidos. E também porque certas dores só podem ser ditas em voz baixa — ou cobertas de doçura, como quem pinta de amora o rosto para disfarçar o gosto da falta.
Falar é arriscar-se. E o preço de falar, assim como o preço de viver, é nunca poder dizer tudo. A mentira, nesse jogo, é apenas uma pausa — uma respiração entre o que o coração sabe e o que a palavra suporta.

Inventar a verdade
No fim, talvez mentir seja apenas uma forma de cuidar do que é frágil. Mentimos quando queremos proteger o outro — ou quando não suportamos o próprio reflexo. Mentimos para ganhar tempo, para não ferir, para não perder o olhar que nos reconhece. E, às vezes, mentimos sem saber, como quem fecha os olhos diante da luz forte e chama isso de descanso.
A verdade é uma fruta rara: precisa do momento certo para amadurecer. A mentira, quando não fere, é apenas o abrigo temporário daquilo que ainda não pode ser dito. Há quem viva tentando arrancar as máscaras; há quem descubra que é nelas que respiramos.
A criança das amoras já cresceu, mas segue dentro de nós — cada vez que disfarçamos o medo, ou o cansaço, ou a vontade de ser amados apesar das manchas. Continuamos a inventar versões de nós mesmos: algumas mais doces, outras mais sombrias, todas um pouco verdadeiras e um pouco não. É nesse entremeio que seguimos humanos.
No fim, talvez a mentira não seja o contrário da verdade, mas o modo humano de se aproximar dela sem se queimar. Um jeito imperfeito — e por isso mesmo terno — de continuar existindo.
Há mentiras que nascem da ternura, da tentativa de proteger o que ainda pulsa; mentiras que sopram tempo sobre a ferida até que ela possa ser nomeada. Essas, em geral, brotam do medo e do amor — e nelas o humano se revela em sua fragilidade mais bela.
Mas há outras, feitas de sombra e cálculo. Mentiras que não disfarçam o medo, e sim o prazer em enganar; que não protegem o laço, mas o rompem; que usam a palavra como lâmina e o silêncio como armadilha. Essas já não pertencem ao terreno da inocência, e talvez nem da linguagem — pertencem ao do poder.
Entre uma e outra, há um abismo feito de intenções. A mentira que nasce da dor ainda quer preservar o outro; a que nasce do vazio quer apenas vencê-lo. Uma busca abrigo na ternura; a outra, domínio.
E talvez, por isso, seja impossível falar da mentira sem falar também da condição humana: somos criaturas que desejam a verdade, mas que só conseguem tocá-la quando misturada à ilusão. E é nesse intervalo, entre o que escondemos e o que revelamos, que continuamos, teimosamente, a existir.
E você, que chegou até aqui, talvez se pergunte, num canto silencioso da memória: quando foi mesmo a última vez que contou uma mentirinha?


Deixe um comentário