Havia uma amoreira nos fundos de casa. Alta, generosa, vestida de verde e de promessas. Era primavera, e o ar cheirava a terra molhada e sol nascendo depois da chuva. Eu devia ter uns sete anos. Naquele tempo, a tarde cabia inteira dentro de um quintal.
As amoras se escondiam entre as folhas, pequenas e silenciosas, esperando mãos pequenas para colhê-las. Eu subia num caixote, minha mãe abaixo, com o balde aberto como um coração. A gente ria quando alguma fruta caía no chão e rolava feito bolinha de gude roxa. O tempo tinha outra textura ali — mais lenta, mais doce, como se as horas descansassem entre os galhos.
Depois, a cozinha… As amoras mergulhavam na água fria, manchando o pano, o riso, a memória. Minha mãe misturava ovos, farinha, açúcar, e eu olhava tudo com o espanto das primeiras vezes. O cheiro do bolo subia pelo ar, um cheiro que parecia inventar um mundo.
O creme, lilás. As amoras pousadas por cima, uma a uma, como se ela soubesse que o cuidado também tem gosto. Lembro do sabor — e lembro mais ainda do instante: da cumplicidade muda, da luz atravessando a cortina, do som do forno respirando.

Anos depois, contei essa história à minha mãe. Ela sorriu, mas não se lembrava de bolo algum. Nenhum. E ali fiquei — entre o gosto e o esquecimento — tentando entender se a lembrança era dela ou minha, se tinha acontecido ou se a infância inventou.
Há lembranças que são assim: não se sabe se vieram do tempo ou do desejo. A memória não é fotografia — é pintura. E quem pinta é sempre o coração, com as cores que tem.
Talvez aquele bolo nunca tenha existido. Mas existiu o instante, o afeto, o gesto de colher amoras ao lado dela. Talvez eu tenha chamado de “bolo” só para poder guardar o nome desse amor.
Porque a memória é uma cozinheira distraída: mistura o real com o sonho, o acontecido com o sentido. E, de vez em quando, o que a gente chama de lembrança é apenas o que sobrou de um sentimento que quis continuar existindo.
E talvez seja isso que nos sustenta: o modo como o tempo se deixa inventar dentro da gente. Há lembranças que não se medem pelo que aconteceu, mas pelo que ainda pulsa quando a gente as visita. O tempo, afinal, não passa — ele se transforma em nós.
E eu me pergunto: quantos bolos de amora cada um de nós guarda — doces lembranças de algo que talvez nunca aconteceu, mas que insiste em ser verdade só porque nos fez sentir vivos?
Talvez a verdade não more no que foi, mas no que ainda reverbera. Há coisas que não existiram, mas são tão sentidas que nos habitam como se tivessem sido o próprio chão do vivido. A alma, quem sabe, é esse espaço onde o que foi e o que sonhamos caminham juntos — confundidos, cúmplices, inseparáveis.
E se a vida for isso — uma invenção que acredita em si mesma? Se o real não for o que aconteceu, mas o que ainda nos move quando lembramos? Talvez recordar seja o verbo mais humano que existe: o gesto de refazer o mundo para caber de novo no peito.
E então, ao lembrar, não é o passado que volta — somos nós que nos tornamos o passado, e por um instante, tudo existe outra vez.


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