A escolha entre psicanálise ou placas de sinalização

Entre psicanálise e placas de sinalização, há uma escolha que não se faz com a cabeça — faz-se com o corpo. É o corpo que sente quando o chão cede, quando o mapa falha, quando a teoria se cala e a floresta começa. Volta e meia alguém me pergunta em que a psicanálise difere das outras abordagens.

Geralmente sorrio antes de responder, não por falta de resposta, mas porque a pergunta sempre me parece nascer de outro lugar — talvez do desejo de encontrar o caminho mais curto até o humano. E o curioso é que, na psicanálise, não há atalhos.

Gosto da relação que podemos fazer com a imagem entre a trilha no parque e a trilha na montanha. No parque, o caminho já vem pronto: as placas orientam, o solo é nivelado, as flores foram cuidadosamente escolhidas para agradar os olhos. É possível caminhar distraído, conversando sobre o tempo ou checando o celular — a segurança permite isso.

Na montanha, não. A trilha é áspera, irregular, feita de improviso. Cada pedra pode ser obstáculo ou degrau, depende do passo. O corpo precisa se adaptar ao terreno, o olhar precisa se abrir para o inesperado. Há riscos, há silêncio, há momentos em que a mata parece fechar — mas é justamente aí que algo se abre dentro de nós.

A psicanálise é essa trilha de mata adentro. Não há mapa, nem roteiro, nem certeza de chegada. Há o gesto de caminhar — e o que se descobre nesse gesto é sempre mais vivo do que qualquer teoria poderia prever.

Costumo dizer aos alunos que, para sustentar a experiência psicanalítica, é preciso fazer o luto dos cinco anos de faculdade de Psicologia. E não é uma provocação — é um aviso compassivo. Porque quem chega à psicanálise munido de teorias, diagnósticos e classificações, logo descobre que esses instrumentos não servem para abrir trilhas na mata. São ferramentas de parque: afiadas, úteis, mas feitas para caminhos previsíveis.

A clínica psicanalítica, no entanto, é um terreno onde o chão cede, o vento muda, o tempo dobra sobre si. Não há manual que ensine a suportar o que emerge do silêncio de um paciente. Há algo de profundamente antipedagógico na psicanálise — ela desensina para ensinar, desfaz para permitir pensar.

Por isso falo em luto. Luto do saber técnico, do desejo de controlar, da pressa de interpretar. Luto, sobretudo, da ilusão de que compreender é o mesmo que sentir. A psicanálise nos obriga a ficar na experiência, não a escapar dela por meio de conceitos. É preciso deixar morrer o estudante que busca respostas, para nascer o analista que suporta perguntas.

Há quem precise de placas. E há quem só encontre sentido quando o caminho se apaga sob os pés. A psicanálise, penso, nasce desse segundo tipo de caminhada: aquela em que o chão se inventa enquanto se pisa. Não há mapa, bússola ou trilha anterior — há o corpo tentando escutar o mundo, o sopro das folhas, o rumor de algo que pede passagem.

É nesse terreno irregular que, às vezes, o pensamento floresce. Não como ideia, mas como gesto. Não como resposta, mas como presença.

Lembro-me então de um poema de Alberto Caeiro, que sempre me devolve o essencial:

“Se algumas vezes eu digo que as flores sorriem
E se digo que os rios cantam
Não é porque eu penso que existem sorrisos nas flores
E canções nos rios.
É porque desta forma, eu faço os homens falsos sentirem
A real existência de flores e rios.”

Talvez seja isso que fazemos na análise: tentamos sentir de novo a existência das coisas. Depois de tanto estudo, tanta teoria, tanta tentativa de entender, o que resta é apenas isso — aprender a ver o que está vivo, a ouvir o que respira.

O resto é floresta.

Talvez toda análise seja isso: uma travessia pela mata do que não se entende. No começo, o sujeito quer mapa, bússola, nome para cada ruído. Depois, aos poucos, aprende a caminhar com o som do próprio passo, a respirar junto com o desconhecido. Há um instante em que o medo se transforma em curiosidade — e o que antes parecia denso demais começa a revelar pequenos brilhos entre as folhas.

No fim, ninguém sai da floresta com as mesmas certezas com que entrou. Sai com algo mais discreto, mas mais vivo: um olhar que sabe esperar. Uma escuta que não se apressa. Uma fé miúda no que é invisível, mas insiste.

A trilha na montanha não promete atalhos — promete presença. E talvez seja disso que se trate a psicanálise: não de ensinar a chegar, mas de acompanhar quem ousa ficar.


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