Era fim de domingo — aquele instante em que o dia parece cansado de existir e o silêncio se espalha pela casa como uma névoa delicada. No banheiro, o som distante do vento misturava-se ao rumor suave da lâmina sobre a pele. O espelho devolvia não apenas meu rosto, mas o rastro dos dias que já haviam passado. Eu fazia a barba sem pressa, como quem tenta prolongar o tempo antes do recomeço da semana.
Entre uma passada de lâmina e outra, o acaso — sempre ele — trouxe à superfície uma canção. Stromae. Papaoutai. Já a tinha ouvido antes, sem nunca lhe prestar escuta real. Mas naquele fim de tarde, talvez por estar mais vulnerável ou mais atento, uma frase se destacou como se tivesse sido dita diretamente a mim:
“Tout le monde sait comment on fait les bébés, mais personne sait comment on fait des papas.” [Todo mundo sabe como se fazem bebês, mas ninguém sabe como se fazem pais.]
Fiquei em suspenso por alguns segundos, com o rosto meio ensaboado, a navalha parada no ar. Havia algo naquela frase que não era apenas musical — era um espelho maior, voltado para o mundo. Entre a espuma e o pensamento, senti uma inquietação antiga ganhar corpo: afinal, onde estão os pais?
Curioso, deixei a barba de lado e fui atrás dos números. Descobri que, no Brasil, mais de 91 mil crianças foram registradas sem o nome do pai em 2024, segundo a Associação Nacional dos Registradores de Pessoas Naturais. São cerca de 460 registros por dia, um espaço em branco onde deveria haver um nome — e, sobretudo, uma presença. Desde 2016, já são mais de 1,2 milhão de crianças que nasceram sem esse reconhecimento.
Procurei entender se isso era um fenômeno global, mas percebi que o mundo tampouco tem um índice unificado. A ausência paterna parece tão difusa quanto o próprio silêncio que a cerca. Um relatório da Unicef fala de milhões de crianças sem registro algum — não apenas sem o nome do pai, mas sem o reconhecimento de sua própria existência.
E, como se o acaso insistisse em costurar coincidências, naquela mesma manhã eu havia recebido um vídeo simples: uma criança pequena, vibrando de alegria ao ver o pai chegar. Anos depois, já crescida, a mesma alegria, o mesmo brilho. Na legenda, lia-se: “Os anos passam, mas minha filha ainda tem a mesma reação quando o pai chega.”
Talvez tenha sido isso — a canção, os números, o vídeo — que me fez pousar a navalha e me perguntar, com um nó na garganta e uma ponta de esperança:
o que significa, afinal, ser pai?

Ser pai talvez não seja uma condição, mas uma construção. Não começa no nascimento de uma criança, mas no momento em que um homem se permite sair do centro de si e abrir espaço para outro existir. O pai não é aquele que ensina o mundo — é aquele que o apresenta, que o torna habitável, que o traduz em gestos de segurança e curiosidade.
Há quem pense que o pai entra em cena apenas depois que tudo já está formado — depois da gestação, depois da amamentação, depois do vínculo estabelecido. Mas o que muitos esquecem é que a presença do pai não se mede pelo número de horas passadas em casa, e sim pela capacidade de sustentar o espaço entre: o espaço entre o corpo da mãe e o corpo do bebê, entre o dentro e o fora, entre o conhecido e o desconhecido.
Quando um pai está emocionalmente presente, ele oferece ao filho algo que nenhuma teoria explica por completo: o direito de existir no mundo sem se perder nele. Ele introduz o real de maneira amorosa — como quem segura uma lanterna, e não uma espada.
Ser pai é, em alguma medida, ser tradutor da ausência. É ensinar que o amor também se manifesta na espera, no intervalo, na ausência momentânea que permite ao filho aprender a estar só sem se sentir abandonado. É ele quem, ao acolher a mãe, permite que ela possa também ser mulher, e não apenas função. É ele quem, ao brincar, ao errar, ao rir de si mesmo, mostra que o cuidado não precisa ser solene — pode ser terno, leve, humano.
A presença paterna, quando verdadeira, não divide tarefas, mas compartilha humanidade. Ela não substitui nem compete, mas compõe. Talvez o pai mais essencial não seja aquele que “ajuda” a mãe, mas aquele que habita o verbo cuidar como uma forma de estar no mundo — com a mesma delicadeza com que se aprende a segurar um corpo frágil pela primeira vez.

Durante muito tempo, o ideal de masculinidade foi uma couraça — um modo de estar no mundo sem se deixar tocar por ele. O homem aprendeu que sentir demais era fraqueza, que cuidar era coisa de mulher, que o silêncio era sinônimo de força. E assim, geração após geração, o masculino foi se afastando da ternura como se ela ameaçasse sua virilidade.
A cultura heteronormativa reforçou essa distância, como quem escreve um roteiro que precisa sempre ser repetido: o pai trabalha, a mãe cuida. Ele provê; ela acolhe. Ele ensina; ela protege. Ele é o verbo fazer, ela o verbo sentir. Mas esse roteiro, já gasto e sem alma, começa enfim a se desfazer — e talvez seja justamente nesse desmanche que nasça uma nova possibilidade de ser homem.
Porque ser pai não é “ajudar” a mãe, como ainda se ouve em tantos discursos bem-intencionados e mal formulados. Ajudar pressupõe que o cuidado é tarefa de outro, e não sua. O pai que “ajuda” é o mesmo que se mantém à margem, ainda que sorria na foto. A verdadeira presença não ajuda: participa, compartilha, se implica.
Há algo de profundamente transformador quando um homem se autoriza a participar da criação de um filho não como dever, mas como experiência humana. É nesse gesto que se quebra o pacto do silêncio, que se desmonta a caricatura do “homem forte” e se inaugura um novo tipo de fortaleza: a que nasce do afeto.
Nos últimos anos, vemos sinais disso — discretos, mas promissores. Pais que vão às reuniões escolares, que fazem o lanche, que trocam fraldas e histórias, que erram e tentam de novo. Homens que compreendem que a paternidade não é um cargo, mas um laço; que o amor não os diminui, mas os humaniza.
E talvez aí resida o maior desafio de todos: desaprender o mito da força para reaprender a presença. Porque, no fundo, o que as crianças mais desejam não é um pai perfeito, mas um pai que esteja. Que olhe, que escute, que erre, que peça desculpas — e que siga amando, mesmo quando o amor exige delicadeza e renúncia.

Conclusão
Voltei ao espelho, já com o rosto limpo e a pele um pouco ardida — não apenas pela lâmina, mas pelo que a música havia me provocado. A voz de Stromae ainda ecoava pelo banheiro: “Où t’es, papa, où t’es?” [Onde você está, papai, onde você está?].
Pensei nos tantos filhos — pequenos e crescidos — que talvez sigam repetindo a mesma pergunta em silêncio. E nos pais que, mesmo presentes, ainda não aprenderam a chegar. Há ausências que têm corpo, e presenças que não sabem habitar.
Mas também pensei nos homens que começam a descobrir um outro caminho possível. Homens que não têm vergonha de chorar, de errar, de voltar atrás. Que aprendem a segurar o filho com as duas mãos — não como quem carrega um dever, mas como quem sustenta o próprio coração fora do peito.
Enquanto guardava a lâmina e a espuma se dissolvia, percebi que talvez “saber fazer um pai” seja isso: desaprender a dureza herdada e reinventar o gesto. Um pai não nasce pronto — ele se faz entre o erro e o perdão, entre o medo e a ternura. É um verbo em construção.
Gosto de pensar que a música de Stromae não é apenas uma pergunta, mas um convite. Porque “um dia ou outro, seremos todos pais”, canta ele. Pais de filhos, de ideias, de gestos, de mundos possíveis. E talvez o que nos salve seja justamente isso: a vontade de aprender a cuidar do que nasce, de estar perto, de permanecer mesmo quando o tempo corre e a vida chama.
De algum modo, o espelho me devolveu um rosto um pouco diferente — não mais jovem, nem mais velho, apenas mais consciente de que o amor, quando amadurece, deixa de ser promessa e se torna responsabilidade.
E assim, entre a canção que ainda tocava e o reflexo que me fitava, escrevo esta carta breve — não a um filho, nem a um pai, mas ao futuro:
que venham dias em que a palavra pai não precise rimar com ausência,
em que o verbo cuidar seja conjugar o humano, e em que cada chegada — no fim de um dia, no fim de um domingo, no fim de um medo — seja recebida, sempre, com o mesmo brilho nos olhos de uma criança que corre, feliz, ao ver o pai chegar.


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