Frankenstein: o que ainda sobrevive em nós

Há filmes que não apenas se assistem — habitam a gente por dentro. Frankenstein (2025), de Guillermo del Toro, foi assim. Duas horas e meia diante da televisão, mas o tempo ali parecia dissolvido, como se cada cena me puxasse para um lugar antigo, adormecido, onde o olhar não apenas vê, mas recorda. Quando o filme acabou, percebi que eu ainda estava dentro dele. Ou talvez ele dentro de mim.

Não era a primeira vez que Mary Shelley me prendia o fôlego. Lembro de quando li Frankenstein pela primeira vez, há mais de vinte anos. Li como quem mergulha num lago e só depois percebe que não há fundo. Aquelas páginas tinham uma força que não vinha apenas da história, mas da vertigem de quem ousa criar vida com palavras.

Del Toro recriou o mito, mas preservou o feitiço. A criatura, o criador, a culpa, o abandono — todos renascem ali com a delicadeza e a dor de sempre. Há algo de hipnótico em ver o que já se conhece ganhar outro rosto. O mito envelhece, mas continua nos fitando com olhos novos, como se perguntasse: “E você, o que tem feito com o poder que carrega nas mãos?”

Enquanto assistia, percebi que não era o enredo que me prendia, mas o espelho invisível que ele me oferecia. As histórias que mais nos tocam não são sobre monstros, mas sobre o que deixamos de ver em nós mesmos.

Enquanto o filme seguia, fui lembrando dos Shelley — Mary e Percy — dois nomes que parecem carregar uma ventania dentro. Ela, filha de uma escritora feminista e de um filósofo, escreveu Frankenstein aos dezoito anos, cercada de tempestades, febres criativas e um pressentimento inquietante de futuro. Ele, poeta de imaginação incendiada e olhar voltado para as ruínas do mundo, morreu jovem demais, aos vinte e nove, afogado — como se a água tivesse silenciado um fogo que ainda ardia. Dois jovens que tocaram o limite entre vida e criação antes mesmo de entender completamente o próprio destino.

Há uma cena no filme que me atravessou em silêncio: a criatura aprende a ler e lê Ozymandias, poema de Percy B. Shelley. Um poema que fala sobre a grandeza desfeita, sobre a glória que se transforma em pó, sobre reis que acreditaram ser deuses e acabaram esquecidos na areia.

“My name is Ozymandias, King of Kings;

Look on my works, ye Mighty, and despair.”

Ali, diante da tela, eu senti algo se fechar como um ciclo: o poema do marido sendo lido pela criação da esposa — o verbo e a carne se reencontrando, séculos depois, em forma de imagem. Percy escrevia sobre ruínas; Mary escrevia sobre a criação. E ambos, sem saber, escreviam sobre nós — esse amálgama de desejo e destruição que nos move e nos devora.

É curioso pensar que dois jovens, ainda quase à margem da vida, escreveram sobre o limite da existência. Ele falando da impermanência, ela da criação que escapa ao controle. Talvez amor e morte sejam sempre variações do mesmo espelho: onde um reflete o outro, e o reflexo nunca cessa de nos interrogar.

Há algo de terrivelmente belo nisso — criar algo que nos sobreviva. E há também uma sombra suave — a sensação de que tudo o que nasce de nós nos desloca um pouco, como se cada criação abrisse uma pequena ausência onde antes havia inteireza.

Antes de aprender a ler, a criatura aprende a olhar. Esconde-se nas sombras e observa uma família — o ritmo dos gestos, a doçura dos silêncios, o idioma secreto dos afetos. Há uma música no cotidiano deles que a criatura tenta decifrar: o riso, o abraço, o modo como alguém se cala para escutar o outro. Ali, entre a neve e a solidão, ela descobre o que talvez nenhum livro ensine — que o humano se faz na partilha, não na perfeição.

Ver é o primeiro verbo do amor. E a criatura, antes de falar, ama em segredo o que observa. Imita os movimentos, ensaia sons, sonha o calor de um lugar à mesa. Mas tudo lhe escapa — como se o idioma dos humanos fosse feito de carne, e não de som. Há uma dor profunda em querer pertencer a algo que não reconhece o seu rosto. E é nesse exílio — entre o desejo e o espanto — que ela começa a ser.

Depois vem o livro. A linguagem se abre como ferida e revelação. Ao ler Ozymandias, de Percy Shelley, ela entende que os impérios desmoronam, que o poder apodrece, que até os deuses morrem de si mesmos. Mas ela não — ela não pode morrer. E é justamente isso que a fere: a eternidade é uma prisão sem esquecimento. A criatura não teme o fim, teme o nunca. Quer o consolo do limite, o alívio de deixar de ser.

Por isso deseja uma companheira — não por amor romântico, mas por partilha ontológica: alguém que saiba o que é existir sem poder cessar, alguém que divida o silêncio de não morrer. Porque o que ela busca não é a vida, é a comunhão do impossível. O que ela busca é o espelho que falta — outro corpo onde possa reconhecer-se sem se perder.

E talvez seja nisso que ela se aproxima de nós: enquanto o humano luta para prolongar a vida, a criatura sonha em poder terminá-la. Entre uma e outra forma de angústia, há apenas o mesmo verbo — ser.

Victor Frankenstein queria tocar o mistério da vida, mas esqueceu que toda criação exige cuidado. Quis ser deus, mas sem piedade. Quis gerar, mas sem gestar. E nesse salto, perdeu a alma no meio do caminho.

Há algo de profundamente humano nessa arrogância — o desejo de dominar o que não se compreende. O cientista que fere o limite não é apenas ambicioso; é órfão de sentido. Como se dissesse: “se não há quem me faça, farei eu mesmo.” Mas o problema de brincar de deus é não saber amar o que se cria. Criar é fácil; sustentar é que exige humanidade.

Frankenstein quis ultrapassar a morte, e por isso criou algo que não pode morrer. Mas, no fundo, o que buscava não era imortalidade — era redenção. Queria se reconciliar com o próprio limite, mas o fez pelo caminho da negação. E o que nasce da negação nasce órfão.

Toda criação é também uma confissão. Ao dar forma à criatura, Frankenstein revelou seu desamparo — um homem tentando costurar o vazio com músculos e fios. Mas a vida não se inventa, se cuida. O que ele construiu foi um corpo sem história, uma existência sem origem. E toda origem negada retorna em forma de assombro.

Talvez o verdadeiro horror de Frankenstein não seja a criatura, mas o criador que não suporta o espelho de sua obra. O monstro não é o erro da ciência — é o castigo do orgulho. Porque quem cria sem amor está condenado a ser perseguido pelo que fez. E o que Frankenstein não compreendeu — o que muitos de nós ainda não compreendemos — é que todo poder sem vulnerabilidade se transforma em solidão.

Entre o criador e a criatura há um abismo que não é de carne — é de linguagem. Nenhum dos dois sabe dizer desculpe. Frankenstein foge do que criou; a criatura persegue o que o negou. E nessa dança de fuga e busca, ambos se tornam reféns do mesmo desamparo.

O perdão, talvez, seja o que falta entre eles. Mas o perdão exige algo que nenhum dos dois possui: o reconhecimento do outro como semelhante. Para perdoar, é preciso aceitar que o outro nos habita. Frankenstein não suporta isso — recusa o espelho. A criatura, ao contrário, o deseja com desespero. Ela quer ser olhada, nomeada, reconhecida. Quer o gesto inaugural que dá sentido à existência: alguém que diga “você é.”

Freud dizia que amar é reconhecer o próprio limite. Mary Shelley parece responder: criar é o mesmo. Ambos envolvem a mesma renúncia — a de controlar o que nasce. Frankenstein não soube fazê-lo. E por isso, sua criação, sem nome e sem rosto, vaga entre mundos em busca daquilo que faltou no instante da origem: um olhar que acolha o erro como parte da vida.

Há algo de profundamente humano em querer ser perdoado — mesmo quando não há culpa definida, mas apenas o peso de existir. A criatura, que não pode morrer, talvez busque no perdão um tipo de fim: o descanso de ser compreendida. O criador, que é mortal, busca o mesmo — a absolvição de ter ousado demais. Ambos desejam o mesmo gesto — um toque que reconcilie o humano com o inumano, a criação com o limite.

Perdoar é admitir que tudo o que criamos é imperfeito — e ainda assim digno de continuar existindo. O perdão, nesse sentido, é o gesto mais criador de todos. Porque ele não apaga o erro: o acolhe. E talvez seja por isso que, diante do perdão, até o monstro se torna humano — e o humano, enfim, deixa de ser deus.

Há perguntas que não envelhecem — apenas mudam de voz. “Quem sou eu?” talvez seja a mais antiga de todas. A criatura a pronuncia como quem inaugura o verbo ser, como se toda a sua existência, feita de pedaços, pedisse uma costura que só a origem poderia dar. Mas o criador foge, e o eco da pergunta fica suspenso no ar, como uma prece sem endereço.

Saber de onde viemos é mais do que curiosidade — é necessidade. Sem origem, o sujeito se fragmenta; sem história, o corpo se torna estrangeiro a si mesmo. A criatura busca no passado um lugar para repousar — não por nostalgia, mas por identidade. Ela quer um nome, uma genealogia, um rosto que a preceda. Quer o laço que falta — aquele que o nascimento costuma oferecer, mas que a criação artificial lhe negou.

Há algo de profundamente humano nesse anseio de origem. Talvez todos sejamos criaturas à procura do nosso criador — um pai, uma mãe, um amor, um sentido. E quando não encontramos, inventamos. A psicanálise sabe disso: o sujeito nasce do encontro com o outro, mas também das lacunas que o outro deixa. A identidade não é herança — é invenção sobre ruínas.

Quando a criatura pergunta “quem sou eu?”, ela nos obriga a olhar para o espelho e suportar o mesmo vazio. Não somos o que fizeram de nós, nem o que gostaríamos de ser. Somos o intervalo entre ambos — o espaço onde a pergunta ainda pulsa. E talvez seja isso que nos humaniza: não a resposta, mas o movimento de perguntar.

No fim, a criatura não encontra o criador — encontra o próprio abismo. Mas há dignidade nesse encontro. Porque quem busca sua origem já está, de algum modo, criando a si mesmo. O “quem sou eu” é sempre também um “como posso ser?”. E é nesse entre que habitamos — frágeis, curiosos, e, ainda assim, vivos.

Quando a tela escureceu, fiquei algum tempo em silêncio. O filme havia terminado, mas algo continuava aceso — uma espécie de claridade interna, como se as imagens ainda respirassem dentro de mim. Na sala, o som do silêncio misturava-se aos créditos. A televisão refletia um rosto — o meu. Por um instante, pensei que talvez fosse ele, o monstro, me olhando de volta. Mas logo entendi: talvez sempre tenha sido assim. Somos todos, em alguma medida, o que criamos — e o que abandonamos.

Frankenstein nunca foi uma história sobre monstros. É uma história sobre o humano — essa criatura que constrói deuses para depois destruí-los, que sonha a eternidade e, ao mesmo tempo, suplica pelo esquecimento. Del Toro apenas acendeu outra luz sobre o mesmo abismo: o de criar sem saber amar, o de existir sem saber cessar. E Mary Shelley, aos dezoito anos, já havia pressentido o que tantos séculos depois continuamos a não compreender: que toda criação, para ser viva, precisa de cuidado; e todo criador, para ser humano, precisa aprender a perder.

Enquanto desligava a televisão, pensei no tempo. Mais de vinte anos desde a primeira leitura, e o mesmo fascínio. Talvez porque Frankenstein não envelheça — ele muda conosco. A cada reencontro, é outro espelho que se acende. E cada vez que olhamos, vemos algo diferente — ou talvez, algo mais nosso.

Não sei se saí do filme com respostas. Mas fiquei com uma pergunta que ainda me acompanha, discreta, como uma respiração no fundo da alma: quem é, afinal, o verdadeiro criador — aquele que dá a vida, ou aquele que a reconhece?

Talvez ser humano seja isso: seguir diante do espelho, com medo e ternura, tentando não fugir do que nos olha de volta.


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