20 de novembro: uma data que, no calendário brasileiro, pousa como uma pedra de memória no meio do caminho. Antes de escrever qualquer palavra, sinto que preciso primeiro me mover um pouco desse lugar onde a branquitude costuma se deitar: um território confortável demais para quem vive num país construído sobre o desconforto de tantos.
O Dia da Consciência Negra não chega como celebração: chega como chamado. Chamado para recontar nossa história pelo avesso — não mais pelo 13 de maio que romantiza a assinatura de uma lei, mas pelo 20 de novembro que honra a luta de Zumbi dos Palmares e de tantos que, anonimamente, mantiveram acesa a chama da liberdade quando tudo à volta era cinza.

No mundo, ecoa o 21 de março, instituído pela ONU como o Dia Internacional contra a Discriminação Racial — outra data, outra dor, outro pedido de vigilância. Mas aqui, neste solo brasileiro, o 20 de novembro é também um espelho: não é ao outro que ele questiona, é a mim.
E eu, de onde escrevo?
Escrevo deste lugar de privilégio branco, onde o mundo nunca me tratou como ameaça, onde meu corpo nunca precisou justificar sua existência para viver. E é por isso que não posso tratar o racismo como algo que está fora de mim: a minha branquitude faz parte dessa engrenagem, mesmo quando eu desejaria que não fosse assim..
Não escrevo para ensinar — não posso. Escrevo para não me ausentar, para não repetir o silêncio confortável que tantos de nós, brancos, herdamos como hábito.
Carrego comigo vozes que me atravessam e me deslocam — presenças cuja força torna impossível permanecer adormecido diante da história.
Penso em Conceição Evaristo, que escreve o Brasil como se costurasse cicatrizes com música.
Penso em Machado de Assis, cuja genialidade tantas vezes foi embranquecida para caber num desconforto nacional.
Penso em Angela Davis, que transforma pensamento em levante.
Em bell hooks, que ensinou o amor como verbo político.
Em Chimamanda Adichie, que ilumina as fraturas do mundo com delicadeza e precisão.
Penso em Elza Soares, que cantou da sua própria ruína para erguer uma nação.
Em Nina Simone, que fez da dor piano.
Em Aretha Franklin, que transformou voz em território.
Em Viola Davis, que reescreve o próprio rosto como manifesto.
E em Emicida, que transforma a língua em ferramenta de futuro.
Penso em Nelson Mandela, que fez da liberdade uma ética e não um slogan.
Em Rebeca Andrade e Simone Biles, cujos corpos desafiam gravidades e narrativas que o mundo insiste em impor.
Penso também em Djamila Ribeiro, que insiste na prática cotidiana do antirracismo, e em Virgínia Bicudo, cuja trajetória na psicanálise brasileira é testemunho de coragem, pioneirismo e resistência.
Se há consciência, ela nasce deste encontro com tantas presenças que mudam o chão que eu piso. E é impossível não reconhecer que — enquanto essas figuras precisaram escalar montanhas — a branquitude recebeu rampas e atalhos. Essa é a verdade que dói, mas ilumina o que precisa ser visto.
E, ainda assim, este texto é pequeno demais para carregar todos os nomes que deveriam caber aqui. Há uma constelação inteira de artistas, intelectuais, líderes, ativistas, escritoras, atletas, mães, pais, trabalhadores, pensadoras, crianças e ancestrais que sustentam o que chamamos de Brasil — mas cujos rostos continuam invisibilizados, apagados, marginalizados.
20 de novembro não gira em torno da minha experiência — mas me atravessa, abrindo em mim um espaço para uma consciência mais responsável. É sobre não recuar para o conforto da neutralidade. É sobre aprender, escutar, ler, revisar, errar menos, acertar mais, abrir espaço, ceder voz, desmanchar hábitos. É sobre transformar a consciência em prática e não em calendário.
Que a consciência negra nos atravesse como um vento que move, sacode, abre frestas — sem apagar nenhuma chama. Que o desconforto seja fértil. Que a responsabilidade seja viva. Que o compromisso seja cotidiano.
E que este texto seja apenas isso:
um pequeno gesto de respeito a quem veio antes, a quem está aqui, e a quem ainda virá — ocupando os espaços que sempre foram seus.



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