Eu estava deitado no divã, naquele ângulo esquisito em que a gente vê tudo e não vê nada ao mesmo tempo. O teto, uma nesga da estante, a sombra do abajur… e, no canto da sala, uma mesinha de estudos onde repousava um livro. De onde eu estava, ele parecia um desses volumes antigos: capa de couro escuro, folhas com bordas douradas, aquele brilho discreto que lembra papel-bíblia — ou, pior, uma Bíblia de fato.
E foi aí que começou o incômodo. Não o incômodo religioso — tenho duas ou três Bíblias em casa, cada uma em um idioma, convivemos bem. Mas o incômodo simbólico: o que significaria uma Bíblia na sala do meu analista?
A imagem me atravessou com uma pontada de estranhamento. Seria mesmo uma Bíblia? Por que ali? Por quê agora? Que tipo de sessão saía de uma sala onde uma Bíblia me observava pelo canto do olho? Eu tentava ignorar, mas o livro brilhava — ou talvez fosse só a minha ansiedade lapidando o dourado das bordas.
Até que não aguentei e perguntei. E o analista, com sua pontaria quase irritante, devolveu a questão com uma serenidade olímpica:
— O que mudaria se fosse uma Bíblia?
— E… o que te impede de levantar e ver?
A pergunta caiu como uma pedrinha no lago: pequena, mas fez ondas enormes. Eu deveria verificar? Ou deveria ficar na dúvida, que às vezes é mais confortável — embora nunca pareça?
Fiquei alguns segundos nesse limbo filosófico, como se levantar do divã fosse um gesto grandioso demais, uma espécie de profanação da liturgia analítica. Mas, depois de um debate interno digno de assembleia, decidi levantar.
Atravesso a sala.
Chego perto.
Olho.
E descubro: não era uma Bíblia — sequer um primo distante. Era um livro de psicanálise, provavelmente uma edição de luxo de algum congresso. Um livro inocente que, visto de longe, tinha virado protagonista de um delírio interpretativo.
Voltei ao divã meio rindo, meio envergonhado. No fim das contas, a cena era simples — mas carregava uma potência enorme, quase cômica: como podemos transformar um objeto aleatório em uma narrativa inteira.
E a sessão continuou, mas a pergunta ficou:
quem inventa mais histórias — a literatura ou a nossa própria mente?

A mente que completa lacunas — o horror do vazio
A mente humana tem uma alergia crônica ao vazio. Um ponto cego, uma frase cortada, um silêncio mais longo que o habitual — qualquer brecha serve de convite para que ela faça o que mais sabe fazer: inventar.
Quando falta informação, não esperamos. Preenchemos. Costuramos. E bordamos, muitas vezes com linhas que não estavam à venda.
Basta alguém visualizá-lo no WhatsApp e não responder por duas horas: pronto, já criamos um romance inteiro. A pessoa está chateada, desapontada, indiferente, planejando o fim da relação ou — a hipótese mais improvável, logo a mais descartada — apenas ocupada.
Ou o clássico sorriso enviesado na rua. Você o interpreta como ironia, desprezo, desdém. E nem passa pela cabeça que talvez fosse apenas o sol batendo no olho ou um pedaço de alface preso no dente do outro.
Até o “Oi” seco do e-mail vira um teste projetivo de personalidade.
Sem emoji? Deve estar irritado.
Sem vírgula? Está com pressa — ou no limite da tolerância comigo.
Só “Oi”? Está prestes a me demitir.
Ou não. Talvez só esteja dizendo… “Oi”.
Vivemos numa época em que a dúvida virou um escândalo. O não-saber incomoda, arranha, desestabiliza. E o ser humano, que já não tolera fila, notificação atrasada ou barulho de mensagem chegando no celular do outro, também não tolera espaços vazios — especialmente os internos.
Então criamos enredos. Criamos pontes. Criamos monstros e milagres. Criamos para aliviar a tensão de não ter todas as peças do quebra-cabeça. A mente prefere uma mentira bem contada a um silêncio sem explicação. Prefere uma narrativa torta a uma realidade incompleta. Prefere uma Bíblia imaginária a um livro neutro visto de longe.
É esse impulso — tão humano quanto respirar — que nos empurra a transformar sombras em histórias, sinais em certezas, vestígios em conclusões definitivas. E é assim, no cotidiano mais banal, que seguimos fabricando ficções com o entusiasmo de um roteirista mal pago e insone.
A máquina de narrativas
A essa altura, já sabemos: diante de um fragmento, a mente não apenas completa — ela encena. E para entender esse teatro íntimo que começa com um detalhe e termina numa epopeia, vale convocar três autores que, cada um à sua maneira, sabiam que o ser humano é um grande roteirista de si mesmo.
Freud — A realidade psíquica como produtora de mundos
Freud diria que a Bíblia que não era Bíblia nunca precisou existir para existir.
O que importa não é o objeto real, mas o seu efeito dentro de nós.
A fantasia, para Freud, tem estatuto de verdade — e às vezes até mais força que o fato em si. Isso porque carregamos dentro da cabeça um acervo inteiro de memórias, medos, desejos e experiências antigas que se ativam quando encontram um estímulo mínimo.
No meu caso, bastou um livro com brilho dourado. Um detalhe. Um feixe de luz batendo no lugar certo. E, de repente, não era mais um livro: era um símbolo, uma inquietação, uma narrativa emocional que dizia algo sobre mim, não sobre o objeto.
Freud chamaria isso de realidade psíquica: aquilo que acontece dentro vale tanto quanto — ou até mais — do que aquilo que acontece fora. A mente não reage ao objeto; reage ao significado. E os significados, sabemos, são criaturas selvagens.
Bion — A percepção falha, a mente inventiva
Bion entraria na sala dizendo: “Percepção é sempre incompleta.” Ele sabia que aquilo que chamamos de “ver” é, na verdade, uma mistura de sensação, memória, expectativa e invenção. Você não vê exatamente o que está ali. Você vê o que consegue ver — e o resto você preenche com o que tem disponível.
Naquele divã, meu campo visual era limitado: um ângulo torto, luz indireta, distância. Bion diria que esse é o ambiente perfeito para a mente transformar um desconhecido em algo emocionalmente significativo. As lacunas perceptivas viram matéria-prima.
E mais: Para Bion, o não-saber é um território fértil — mas também assustador. É ali que a mente dá seus pulos criativos, cria conexões improváveis, contorna ausências.
A memória falha. A percepção distorce. A imaginação acelera.
No final das contas, o que eu vi não foi o objeto — foi o que eu pude ver naquela situação, naquele estado afetivo, naquele momento simbólico.
Joyce McDougall — Os “teatros do Eu” e a ficção como sobrevivência
Joyce McDougall levaria tudo isso mais longe, com sua sensibilidade estética e dramática. Para ela, o sujeito humano vive dentro de teatros internos, onde personagens simbólicos entram e saem do palco o tempo todo.
No meu pequeno teatro, a Bíblia fez sua estreia sem sequer ter sido escalada para o elenco. Bastou sua aparência sugerir um papel possível — e o Eu, esse dramaturgo compulsivo, escreveu a peça inteira em poucos segundos. Interpretou. Dirigiu. Encenou. O analista virou coadjuvante, o livro virou protagonista, e eu virei plateia e ator ao mesmo tempo.
McDougall diria que fazemos isso para sobreviver emocionalmente: Criamos ficções íntimas para dar forma ao que ainda não entendemos. Transformamos dúvidas em histórias para que o caos fique manejável. Inventamos narrativas porque a vida interna, sem dramaturgia, ficaria insuportável de tão crua.
No fim, a cena do divã era menos sobre um livro e mais sobre o meu teatro emocional improvisado — onde a Bíblia, o medo, a curiosidade e a fantasia dividiram o mesmo palco.

Conclusão: O que fazemos com as Bíblias que não existem?
Quando voltei ao divã naquela sessão, já sabendo que o livro não era uma Bíblia, senti uma espécie de alívio cômico — como quem descobre que o monstro do armário era só uma blusa pendurada em um cabide torto. Mas o ponto não era o livro. Nunca foi. Era o que eu fiz com ele antes de saber o que ele era.
É curioso perceber como objetos neutros vão ganhando roupagem emocional conforme atravessam o nosso teatro interno. Um livro qualquer vira ameaça, uma pausa vira rejeição, um sorriso vira desdém, um silêncio vira sentença. Somos especialistas em construir catedrais narrativas sobre terrenos minúsculos. E, no entanto, continuamos vivendo como se nossas versões da história fossem a história de fato.
Volto então à pergunta que o analista lançou — e que nunca mais saiu de mim:
O que mudaria se fosse?
O que mudaria se não fosse?
Quantas Bíblias inexistentes já guiaram nossas decisões? Quantas histórias escrevemos antes de confirmar um fato? Quantas vezes escolhemos a ficção porque ela parece mais suportável do que o vazio?
A verdade é que nem sempre estamos prontos para levantar do divã, atravessar a sala e encarar o objeto real. Às vezes preferimos a dúvida, às vezes nos escondemos nela, às vezes fazemos dela uma casa — desconfortável, mas conhecida.
Só que viver, de tempos em tempos, exige justamente isso:
Levantar.
Aproximar.
Olhar de perto.
E aceitar que o livro real pode ser bem menos interessante do que a história que inventamos — mas é nele, e apenas nele, que a vida de fato acontece.


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