Há viagens que não começam nos quilômetros, mas nos gestos pequenos que antecedem a partida. A minha começou assim: antes de arrumar a mala, eu já alinhava o tempo. Quatro dias de descanso, pensei. Um feriado que coubesse na vida sem desalojar compromissos. Apenas um atendimento permanecia firme no centro do dia, guardado como estrela que não admite adiamento.
Por ser online, imaginei que tudo se ajeitaria. Mas a casa onde eu ficaria tinha paredes finas demais para confidências. E a pequena cidade, apesar de seu sossego quase mineral, não oferecia esses espaços instantâneos que brotam nas capitais, onde tudo se aluga, até o silêncio.
Foi então que pensei nos muitos colegas que conheço ali. Não buscava um favor gratuito, mas um lugar temporário, um canto neutro, pago, onde eu pudesse cumprir meu ofício sem invadir a vida de ninguém. A ideia parecia simples: tocar uma porta e alugar um horário. Só isso. Um acordo breve, limpo, profissional.
Mas a vida, às vezes, gosta de nos ensinar que o simples também tropeça. Começou, assim, minha pequena epopeia. A saga discreta de quem sai por aí batendo de porta em porta, não com o desespero de quem suplica, mas com a confiança de quem acredita que a gentileza é uma língua ainda falada.
A primeira resposta veio luminosa, quase maternal: uma ex-professora dizendo que abriria a própria casa, não fosse o fato de também estar viajando. Depois, o caminho mudou de textura: respostas frias, negativas educadas, justificativas protocolares, promessas que se evaporaram no ar, silêncios que pareciam definitivamente ocupados demais para dizer “não posso”. Havia até gentileza, mas uma gentileza construída sobre receios… receios de espaço, de tempo, de permitir a entrada do inesperado.
Foi ali, entre portas que não se abriram, que comecei a pensar no que chamamos de gentileza. A gentileza, percebi, tornou-se um gesto raro. E como tudo o que é raro, passou a causar espanto. Hoje nos surpreendemos mais com alguém que diz “claro, posso ajudar” do que com notícias diárias de violência. Crimes, tragédias, brutalidades, essas percorrem nossas telas com a naturalidade de um café da tarde. Não arrancam mais o ar. Não nos acordam de nós mesmos. O mundo parece girar invertido, “o avesso do avesso do avesso”, como cantou o poeta enquanto seguimos sem reparar.
Talvez não seja o mundo que desandou, mas os nossos sentidos já cansados de sentir, já saturados de perceber. Pensei se não estamos intoxicados de pressa, de vigilância, de uma desconfiança que se alastra silenciosa como umidade nas paredes. Pensei se não desaprendemos a ver o outro para além da utilidade, do risco ou do incômodo. Ou se, nesta hipótese mais triste, a gentileza ainda existe, mas anda tímida. Escondida atrás das urgências.
E foi então, quando o enredo parecia se resignar ao cinza, que surgiram dois lampejos. O primeiro veio de uma colega que já supervisionei: “Pode usar minha sala, sem custo. Só preciso confirmar uma regra do local.” Uma oferta que lembrava chão fértil onde a vida insiste.
O segundo veio de onde eu nada esperava. Uma profissional que eu sequer conhecia, uma médica, alcançada por um fio de indicações que passou por uma psicóloga da cidade e por alguém que a ela soprara esse nome, respondeu sem demora. Sem interrogatórios, sem cálculos, sem desconfianças. Disse sim. Sim ao gesto, sim ao humano antes do protocolo. Combinamos chave, horário, cuidado. Tudo simples. Tudo claro. Tudo generoso.

Naquele consultório emprestado por uma médica desconhecida, que recusou qualquer pagamento pelo uso da sala, senti uma gratidão que não cabia em palavras. Um espanto silencioso, desses que nos reposicionam no mundo.
E fiquei pensando…
quem faz isso hoje em dia? Quem abre o próprio espaço, esse território tão íntimo, para alguém que nunca viu? Quem confia, mesmo sabendo dos medos que circulam no ar como poeira fina?
Talvez apenas quem entende que gentileza não se negocia; germina. E quem a cultiva acaba encontrando seu perfume espalhado por caminhos que nem imaginava percorrer.
Voltei para casa com essa pergunta presa na roupa, como quem volta da praia com sal preso na pele: onde foi que a gentileza se escondeu? Perdeu-se em alguma esquina? Foi sufocada pelas notícias? Diluiu-se no excesso de tudo? Ou fomos nós que desacostumamos a notar os gestos miúdos que salvam o dia?
Não sei.
Mas aprendi que, mesmo num mundo que parece endurecer a cada manhã, ainda há frestas. Ainda há mãos que seguram a chave e dizem: “Pode usar a sala.”
E talvez, nesse pequeno milagre, o mundo volte a respirar, ainda que por um segundo. Ainda que só para lembrar que não estamos tão sozinhos quanto pensamos.
À médica que me recebeu com tamanha generosidade: meu agradecimento por reabrir em mim a crença nas frestas de gentileza que ainda sobrevivem neste mundo tantas vezes virado do avesso!


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