Então chegamos em dezembro…

Esse mês que parece guardar um sopro diferente no ar, como se o tempo abrisse uma fenda breve para que a gente pudesse olhar para trás sem medo. Dezembro chega com essa mistura de luz baixa e memória alta, esse chamado para rever o caminho, contar histórias antigas na mesa da sala, ensaiar reencontros, organizar listas, imaginar ceias, preparar o terreno dos afetos que voltam para casa. Talvez seja porque dezembro nunca vem sozinho. Ele traz uma espécie de sombra mansa que nos lembra que somos seres moldados por rituais, por repetidas tentativas de dar sentido ao que escapa pelas bordas da vida.

Olho para esse ano e percebo que comecei a escrever em janeiro, quase sem saber o que estava fazendo. Foi um pacto silencioso comigo mesmo, um exercício de disciplina íntima, uma corda lançada para me puxar de volta ao pensamento sempre que o cotidiano ameaçasse me engolir. No início, tropecei em textos duros, ainda impregnados do rigor acadêmico. Aos poucos, alguma porta interna se abriu. Vieram as crônicas, os devaneios, as pequenas ousadias. Escrever deixou de ser demanda e virou travessia. Um modo de ler mais, sentir mais, pensar mais. Um jeito de continuar estudando o mundo enquanto tentava me estudar também.

E então, entre uma linha e outra, algo ainda mais sutil começou a acontecer. Um rumor de transformação. A escrita se tornou um exercício diário de escuta, uma ginástica da alma que me ensinou a respirar sem precisar pedir licença. Mas não é sempre fácil. Há dias em que as palavras se escondem como pássaros assustados e não me deixam sequer um rastro de voo. Dias em que não tenho fio, ideia ou direção, e fico ali, diante do vazio, acreditando que talvez escrever não seja para mim. É nesses momentos que a vontade de desistir sussurra mais alto. Mas há outros dias, raros e preciosos, em que tudo fervilha, em que a inspiração irrompe como uma água subterrânea que finalmente encontra saída e me empurra para um espaço mais vivo de mim mesmo. Entre um extremo e outro, sigo caminhando. Há dias em que a escrita me desamarra; outros em que me orienta; alguns em que apenas me acompanha, como quem silenciosamente segura a lanterna enquanto atravesso uma sala escura. Talvez meu único voto para 2026 seja este: continuar me permitindo esse treino. Continuar erguendo, palavra por palavra, um corpo mais sensível ao mundo que passa.

Faltam trinta dias para 2026 e percebo como nossa espécie precisa dessas contagens regressivas para reorganizar a própria existência. Inventamos rituais porque a vida, sozinha, é indomável demais. Precisamos desse gesto simbólico de virar o ano para acreditar que podemos virar também alguma parte escondida em nós. Mesmo sabendo que levaremos os mesmos medos, as mesmas hesitações, os mesmos fantasmas antigos que se escondem atrás das portas internas. Ainda assim, algo nos chama para o recomeço. Talvez porque a esperança também seja um músculo, e dezembro sempre nos convida a exercitá-lo.

Quanto a mim, desejo seguir brincando com as palavras como quem acende pequenas fogueiras na noite. Quero continuar lendo o que me desloca, estudando o que me desafia, me alimentando da arte que mantém a alma arejada. Quero aprender a viver com mais cuidado e menos pressa, a ouvir cada pessoa que me procura sem tentar caber em respostas prontas, a caminhar com menos certezas e mais espanto. Que eu possa seguir criando espaços onde o pensamento respire, onde o afeto se mova, onde a evolução encontre lugar para pousar.

E agora deixo no ar uma pergunta que talvez transforme dezembro em espelho. Como foi o seu 2025? Com que passos você atravessa este último mês? Que rituais te esperam? Talvez uma mesa cheia, talvez a água fria do mar na pele, talvez o silêncio de uma noite que promete mudança. O que você deseja levar consigo e o que gostaria de deixar para trás? Não precisa responder em voz alta. Basta que deixe a pergunta repousar um instante dentro de si. Às vezes é desse repouso que nasce a coragem para enunciar o próximo capítulo.


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