O hospital tinha o brilho silencioso dos lugares modernos que tentam, a todo custo, parecer acolhedores. A sala de espera respirava um ar frio de ar-condicionado e um murmúrio constante de nomes chamados ao fundo. A luz branca, fria, conferia ao ambiente um tom ainda mais peculiar. Um espaço reservado para exames protocolares, onde a pressa não costuma ser bem-vinda.
As pessoas aguardavam com aquela calma resignada típica de quem sabe que exames têm seu próprio tempo. Uns cochilavam, outros rolavam distraídos a tela do celular, e havia também quem apenas observasse, como eu, tentando encontrar algum sentido no vai e vem dos passos.
Foi então que chegaram os dois: um rapaz de pouco mais de vinte anos, carregando no rosto a impaciência dos que nunca esperaram por nada, e uma mulher que parecia habituada a cuidar dele como se ainda fosse criança. Sentaram-se como quem ocupa um território antigo, certos de que o mundo ajustaria os ponteiros ao redor de seus horários.

O rapaz começou a reclamar antes de o relógio ter qualquer chance de avançar. Reclamou da senha, da espera, da demora que nem havia começado. A mãe levantou-se para exigir pressa de quem não controla o tempo. Falou alto, como se a atendente fosse responsável pelo atraso da vida. Quando finalmente chamaram para os protocolos referentes à documentação, ele sequer levantou. Continuou plantado na cadeira, enterrado no celular, dizendo “já vou”, como quem faz um favor ao universo.
E lá foi a mãe, não para o próprio exame, mas para garantir que o filho assinasse, respondesse, existisse no processo. Voltaram. Cinco minutos depois, ele reclamava de novo. A mãe levantou outra vez, exigindo urgência do que é, por definição, imprevisível. A atendente manteve a calma profissional de quem já aprendeu que se espera mais paciência de quem não a tem.
A cena se repetia como um pequeno teatro doméstico: ele reclamava, ela corria. Ele deixava a porta do banheiro escancarada, ela levantava para fechar. Ele andava em círculos resmungando, ela seguia costurando com pressa todos os buracos que ele deixava pelo caminho.
E havia algo ali que ultrapassava a simples impaciência. Era uma espécie de certeza hereditária de que o mundo sempre poderia ser convocado, dobrado, apressado. Uma família branca, habituada a sentir que a fila é sugestão, que a regra é negociável, que o atraso é um insulto pessoal. Um privilégio tão silencioso que nem percebe quando fala mais alto do que os outros corpos à volta.
Enquanto observava, pensei em quantos meninos assim o mundo tem produzido: jovens que chegam aos vinte carregando a fragilidade de quem nunca foi confrontado, a intolerância de quem nunca precisou se adaptar e a crença de que basta exigir para que tudo se ajeite.
Pensei também nas mães, tantas delas, que sem perceber alimentam o eterno retorno desses meninos que não se tornam homens. Mães que fecham portas, apagam rastros, negociam angústias e seguram o mundo com as duas mãos enquanto seus filhos reclamam de um atraso circunstancial. Mulheres que, exaustas, ainda precisam sustentar adultos que jamais aprenderam a esperar a própria vez.
Talvez não seja coincidência que tantas mulheres sejam mais fortes. Não porque nasceram assim, mas porque foram obrigadas a aprender cedo demais que o mundo não se dobra ao nosso desejo. Enquanto isso, muitos homens continuam sendo treinados para acreditar que basta bater o pé que o tempo obedece.
Quando o processo médico de quem eu acompanhava chegou ao fim e fomos encaminhados para outro setor, deixei aquela sala de espera para trás. Não sei se o exame dele demorou, nem se, ao final, o rapaz conseguiu ficar em silêncio por algum instante.
Mas saí pensando que talvez o maior exame daquele dia não fosse o do estômago do rapaz e sim o daquilo que anda digerindo nossa capacidade de convivência. Porque, no fim das contas, o mundo não precisa de mais homens que reclamam da espera. Precisa de adultos que saibam esperar.
E fico me perguntando, ainda hoje, diante daquela cena simples e tão reveladora: quem é que ensina um menino a ser homem? E quem é que, sem perceber, o impede de crescer?


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