Por que precisamos contar nossa história

Há algo de profundamente humano naquilo que jamais controlamos, mas que ainda assim nos constitui. Antes de termos linguagem, já éramos tocados; antes de termos história, já algo nos acontecia. É o mundo que se adianta, que nos atravessa com sua presença, que irrompe como um chamado silencioso. Hartmut Rosa diria que viver é, antes de tudo, ser afetado e, quando possível, responder. O que nos faz sofrer, muitas vezes, não é o impacto do mundo, mas a incapacidade de ressoar com ele. Quando a vida se torna apenas aquilo que precisamos dominar, conhecer, prever, conquistamos um avanço técnico e perdemos um pedaço de alma. Porque o essencial, aquilo que nos transforma, permanece sempre incontrolável. E talvez seja justamente por isso que contamos histórias: para transformar o que não escolhemos em algo que possamos habitar.

Contar a própria história não é um exercício de memória, é um gesto de sobrevivência. Freud sabia que aquilo que não encontra palavra retorna como sintoma, como repetição cega, como vida engasgada. O indizível pesa mais do que o acontecido; o que não foi narrado continua acontecendo por dentro, exigindo saída. Narrar é ligar os pontos que ficaram soltos, é dar forma ao que nos excede. Há dores que só se acalmam quando encontram uma frase para pousar. Não se trata de buscar precisão histórica, mas de construir uma tessitura simbólica capaz de suportar o que fomos obrigados a atravessar.

Pontalis aprofunda essa intuição ao lembrar que ter uma história é ter um tempo. Quando perdemos o fio narrativo, perdemos continuidade: viramos um amontoado de instantes desconexos, vivendo sempre à mercê do agora que se impõe sem contexto. A história pessoal não é um arquivo, é uma linha respirável entre o que fomos, o que somos e o que ainda podemos ser. Lembrar é também escolher uma forma de existir. E, ao narrar, damos ao passado um lugar no presente, o único lugar em que ele deixa de nos empurrar pelas costas. A história que contamos não apaga nada, mas impede que sejamos engolidos pelo que não pôde ser dito.

Se Freud nos ajuda a entender por que precisamos contar, e Pontalis nos mostra o que acontece quando não contamos, Winnicott nos ensina que a narrativa é também criação. O self, para ele, não é uma descoberta arqueológica, mas um gesto inventivo. Tornar-se alguém é um processo de autoria contínua. E a história que contamos é parte desse movimento criativo. Aqui, narrar-se não é ajustar fatos, mas moldar significado. A narrativa funciona como um espaço potencial, um lugar em que experiência e imaginação se encontram, onde a vida ganha forma possível. É o campo em que podemos brincar com o vivido e, nesse brincar, reescrever o modo como ele nos afeta.

Ricoeur amplia ainda mais este horizonte ao afirmar que nossa identidade é sempre narrativa. Não somos uma essência fixa; somos o modo como costuramos, interpretamos e reorganizamos o que vivemos. A narrativa é a ponte entre o que muda e o que permanece, entre as ruínas e os alicerces, entre as feridas e as esperanças. Ao contar nossa história, não estamos apenas olhando para trás, estamos abrindo o futuro. A cada frase organizada, um caminho se desenha. A cada sentido encontrado, uma possibilidade surge. É a narrativa que permite que sejamos continuidade e mudança ao mesmo tempo, que sejamos o que fomos sem deixar de ser o que ainda podemos nos tornar.

Talvez, então, contar a própria história seja menos sobre lembrar e mais sobre respirar. Sobre tirar o peso do indizível, dar forma ao que nos atravessou, habitar a própria vida como quem acende uma luz num cômodo escuro. Não contamos para nos libertar do que fomos, mas para finalmente viver com o que fomos e não contra o que fomos. Contamos para transformar o incontrolável em habitável, o caos em caminho, o vivido em sentido possível. Contamos porque, no fim das contas, é essa pequena trama que nos permite continuar: um fio que seguramos para não nos perdermos de nós mesmos, uma voz que diz, com alguma coragem: a minha história ainda está sendo escrita.


  • Freud, S. (1914–1939). Obras diversas.
  • Pontalis, J.-B. (1993). O amor dos começos.
  • Winnicott, D. W. (1971). Playing and Reality.
  • Ricœur, P. (1983–1985). Tempo e narrativa.
  • Rosa, H. (2020). The Uncontrollability of the World.

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