Você pode dizer que pensar é profano, que tira o brilho manso das coisas, que abre frestas onde antes havia abrigo.
Pode dizer que pensar te coloca do lado de fora, sozinho com o vento, longe das certezas que um dia te guardaram do escuro.
Mas você não pode dizer que nunca sentiu um alívio discreto quando uma ideia encostou em você como quem acende uma pequena chama.
Houve pensamentos que chegaram devagar, como passos na areia.
Houve noites em que o real pesou tanto que só o gesto de pensar sustentou teu corpo cansado.
Houve perguntas que te escolheram antes mesmo que você soubesse respondê-las.
Houve medos que amoleceram quando receberam um nome simples.
Você pode dizer que pensar dói.
Pode dizer que pensar te leva a lugares onde nada fica no lugar, onde o chão respira, onde a alma perde suas paredes para então descobrir janelas.
Pode dizer que pensar te deixa vulnerável, exposto ao que não quer ver.
Mas você não pode dizer que o pensamento não te apoiou nos dias em que o mundo te pareceu impossível.
Houve manhãs em que uma única ideia te segurou com delicadeza.
Houve tardes em que um pensamento novo se sentou ao teu lado e fez a tua dor caber um pouco menos no peito.
Houve momentos em que pensar foi a única companhia que não te deixou cair.
Houve pequenas criações que nasceram só para te oferecer um fio de ar.
Você pode dizer que pensar te complica.
Pode dizer que pensar te confunde, que te desmonta, que te vira pelo avesso.
Pode até dizer que pensar te deixa exausto.
Mas você não pode dizer que pensar não afrouxou o aperto do real, mesmo por um instante breve, desses que já valem a vida inteira.
Porque houve você.
Houve o mundo.
E houve esse encontro entre o que é pesado demais e o que você ousa imaginar.
Você pode dizer que pensar não resolve o mundo.
Mas não pode negar que, no exato segundo em que pensou, alguma coisa dentro de você respirou como se finalmente pudesse existir.



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