Os dias passam
e nós passamos com eles,
mais atentos ao que vem adiante
do que ao chão que sustenta.
Há um modo quase imperceptível de viver
que não faz ruído,
mas consome.
Consome o corpo que aprende a acelerar
antes mesmo de despertar.
Consome o pensamento que responde
antes de escutar.
Consome a alma que se ajusta
para não destoar.
Com o tempo,
muitas coisas deixam de ser escolha
e passam a ser costume.
O excesso se normaliza.
A pressa se organiza.
O cansaço se instala
como se fosse paisagem.
E seguimos.
Não por clareza,
mas por continuidade.
Em algum ponto da travessia,
sem data marcada,
algo abranda.
O passo perde ímpeto.
O gesto hesita.
Não é chegada.
Não é conclusão.
É um instante suspenso
em que se percebe,
com certo espanto,
o quanto se avançou
sem realmente habitar o percurso.
Esse tempo carrega outro peso.
Não o da festa,
mas o da atenção.
Como se o próprio tempo,
menos apressado agora,
pedisse delicadeza.
Menos aceleração.
Menos explicação.
Menos esforço para sustentar o ritmo de sempre.
Talvez não seja hora de balanços.
Nem de promessas.
Talvez seja apenas o momento
de escutar aquilo que foi sendo calado
para que tudo continuasse funcionando.
Há hábitos que ajudam a sobreviver.
E há sobrevivências
que cobram caro demais.
Desacelerar, aqui,
não é recuar.
É ajustar o passo
àquilo que ainda pulsa
quando o excesso silencia.
O movimento se encurta.
O olhar se amplia.
O tempo deixa de ser linha
e se transforma em espaço.
Respirar mais lento.
Sentir o corpo ocupar o próprio lugar.
Permitir que o silêncio
não seja falta,
mas intervalo.
Ficar um pouco mais
antes de seguir.
Não para compreender melhor.
Apenas para estar.
Porque existir, às vezes,
não pede resposta.
Pede presença.
E isso,
por ora,
é suficiente.



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