Pequeno guia de sobrevivência às festas em família

Chegam as festas.
E com elas, pessoas que nos conhecem
há tempo demais.

Gente que lembra versões antigas de nós,
histórias gastas pelo uso,
frases que voltam e revoltam,
como se nunca tivessem saído de cena.

Família não é encontro casual.
É reencontro de papéis habituais.
Um fala alto.
Outro fala pouco.
Há quem traga novidades,
quem traga silêncios,
e quem traga aquele assunto atravessado
que retorna todo ano, fiel como sobremesa.

Convém lembrar, logo de início,
que nem toda conversa precisa ser vencida.
Há debates que atravessam gerações
e que não se dissolvem
entre o arroz e a farofa.

Também ajuda não tentar salvar ninguém
com argumentos bem alinhados.
As pessoas vieram para comer,
comentar a vida alheia,
contar histórias repetidas
e defender certezas antigas
com entusiasmo renovado.
Poupe energia.
Escolha o prato,
abandone a batalha.

Mudanças profundas raramente brotam à mesa.
Algumas dinâmicas levam anos para se moldar
e se repetem por teimosia e memória.
Não é uma ceia que vai desfazer
o que o tempo cozinhou lentamente.

Família se parece mais com comida improvisada
do que com receita anotada.
Às vezes passa do sal.
Às vezes falta tato.
Há ingredientes que não combinam,
mas insistem em ferver juntos.

E sempre há alguém que mete a colher.
Por cuidado.
Por costume.
Ou por não saber ficar de fora.

Nessas horas, observar costuma ser melhor que reagir.
Escutar cansa menos do que responder.
Nem tudo pede correção.
Algumas coisas pedem apenas
silêncio gentil
e mais um gole de bebida.

Vale lembrar, ainda,
que apesar dos desencontros,
algo raro se repete ali.
Pessoas que partilham histórias,
mesmo quando discordam dos finais.
Pessoas que se provocam,
se suportam,
se repetem,
mas retornam, ano após ano,
à mesma mesa.

Aproveite o que for possível aproveitar.
Ria quando der.
Afaste-se quando pesar.
Não dramatize o que é antigo.
Não personalize o que é estrutural.

Família não é o lugar da harmonia perfeita,
mas do vínculo imperfeito.
E isso, gostemos ou não,
também é uma forma de cuidado.

Sirva-se do que estiver quente.
Ignore o que esfriou.
As festas passam.
As histórias ficam.

E atravessá-las com alguma ternura
já é, por si só,
um gesto bonito.


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