Tenho pensado no tempo, não como quem mede, mas como quem escuta.
Não o tempo do relógio, esse que anda em círculos e cobra presença.
Mas o tempo que passa por dentro, sem pedir licença, mudando o lugar das coisas enquanto a gente tenta chamar isso de rotina.
Às vezes penso que o tempo não anda. Ele encosta.
Encosta na pele, nos dias, nas escolhas pequenas que parecem irrelevantes até virarem história.
Encosta no que ficou por dizer, no que foi dito cedo demais, no que ainda insiste em nascer como possibilidade.
Não sinto que o ano esteja acabando.
Sinto que algo está se recolocando no lugar.
Como se o tempo, cansado de correr, tivesse decidido sentar ao meu lado por alguns minutos e perguntar, em silêncio, se estou mesmo aqui.
Porque estar não é tão simples quanto parece.
Estar exige corpo, exige escuta, exige uma certa coragem de não fugir do instante.
Há dias em que a gente vive de agenda em agenda, de tarefa em tarefa, como se a vida fosse apenas uma travessia apressada entre compromissos.
E há outros em que tudo para. Um café esfria na mesa, a luz muda de tom na janela, e algo dentro diz: é agora.
Tenho aprendido que o tempo da vida não coincide com o tempo das expectativas.
O tempo das coisas amadurece fora do nosso controle.
Alguns encontros chegam antes do que estamos prontos. Outros chegam tarde demais para quem já foi.
Ainda assim, chegam. E quando chegam, mudam tudo, mesmo que durem pouco.
Não quero fazer balanço.
Não quero listar perdas nem conquistas.
Prefiro ficar com essa sensação estranha de continuidade imperfeita.
Nada terminou por completo. Nada começou do zero.
Seguimos, meio inacabados, meio disponíveis.
Talvez viver seja isso.
Aprender a habitar o intervalo.
Entre o que já não somos e o que ainda não sabemos ser.
Entre o desejo de permanecer e a necessidade de seguir.
O tempo ensina sem didática.
Ele não explica, não consola, não pede desculpas.
Mas oferece pistas.
Uma conversa que ficou mais curta.
Um silêncio que ficou mais confortável.
Um encontro que deixou de ser urgência e virou presença.
Tenho pensado menos em durar e mais em estar.
Menos em acumular e mais em reconhecer.
Reconhecer o que ainda pulsa. O que ainda chama. O que ainda faz sentido, mesmo sem nome.
Talvez o tempo não passe.
Talvez sejamos nós que passamos por ele, aprendendo devagar que viver não é vencer o relógio, mas aceitar o ritmo do coração quando ele desacelera.
Se há algo que desejo para os dias que vêm, não é pressa.
É espaço.
Espaço para olhar, para ouvir, para ficar.
Espaço para que o tempo, esse velho conhecido, continue fazendo o que sabe fazer melhor:
nos atravessar, nos transformar e, quando pode, nos ensinar a estar mais inteiros dentro do agora.



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