A última segunda-feira do ano deste calendário que aprendemos a chamar de nosso.
Há algo discretamente estranho nisso. Não é apenas o fim de um ano, mas o esgotamento de uma forma específica de organizar o tempo. Um sistema de contagem que nos antecede, nos atravessa e seguirá existindo quando já não estivermos aqui. Um calendário que não mede apenas dias, mas regula expectativas, rotinas, começos e encerramentos. Um calendário que nos ensina quando trabalhar, quando descansar, quando celebrar e quando “virar a página”.
Se alguém se sentasse agora ao centro da roda, como fazem os antigos contadores de histórias, talvez começasse assim: “Houve um tempo em que o tempo não era número. Era céu, era lua, era cheia e minguante. Era cheia de sentido.”
As primeiras sociedades não precisavam de calendários para marcar reuniões, mas para sobreviver. Olhavam para o céu para saber quando plantar, quando colher, quando esperar a cheia do rio ou o frio do inverno. O tempo era observado, não dominado. Depois veio a necessidade de organizar cidades, impérios, impostos, rituais, mercados. O tempo precisou ser alinhado, padronizado, sincronizado. E assim ele virou sistema.
O calendário que usamos hoje nasce dessa longa história de tentativas: alinhar céu e terra, natureza e poder, fé e comércio. Uma engenharia delicada entre o movimento dos astros e o desejo humano de previsibilidade. Ao longo dos séculos, o tempo foi se tornando cada vez mais exato, mais corrigido, mais eficiente. Ajustamos dias, inventamos anos bissextos, apagamos datas inteiras para que o equinócio não se perdesse. Fizemos do tempo algo confiável.
Mas talvez, nesse processo, tenhamos perdido algo da escuta.
Porque hoje, nesta segunda-feira que encerra 2025, o tempo não parece apenas organizado. Ele parece acelerado, pressionado, exaurido. Contamos os dias não como quem contempla, mas como quem corre atrás. O calendário deixou de ser um mapa e virou um cronograma. E o presente, esse hoje tão repetido nos discursos, tornou-se cada vez mais estreito.
Então a pergunta se impõe, quase sem pedir licença: o que significa este hoje?
Hoje é segunda-feira, 29 de dezembro de 2025. Mas hoje também é um ponto de condensação. Um lugar onde se acumulam promessas, fracassos, avanços, horrores, silêncios. Um hoje que carrega o peso de tudo o que fizemos em nome da ideia de progresso.
Sim, evoluímos. Avançamos em tecnologia, ciência, medicina. Curamos doenças antes impensáveis. Criamos ferramentas capazes de ampliar o pensamento, encurtar distâncias, prolongar a vida. Produzimos conhecimento em velocidade inédita. Nunca soubemos tanto sobre o mundo, o corpo, o cérebro, o universo.
Mas a pergunta incômoda permanece: e a subjetividade?
Se sabemos mais, sentimos melhor?
Se vivemos mais, convivemos melhor?
Se nos comunicamos o tempo todo, estamos realmente em relação?
2025 foi um ano de conquistas e de abismos. De descobertas importantes e de cenas difíceis de sustentar. Um ano em que celebramos avanços e, ao mesmo tempo, assistimos, muitas vezes anestesiados, à repetição de violências antigas e persistentes. Conflitos armados e tensões geopolíticas se intensificaram, redesenhando mapas à força, produzindo deslocamentos, perdas e lutos coletivos. A guerra seguiu sendo narrada em gráficos e manchetes, enquanto corpos reais continuaram a cair fora do enquadramento confortável das estatísticas.
Mas a violência não se limitou aos campos de batalha. Ela atravessou cidades, casas, relações. Em 2025, o racismo seguiu operando como estrutura, não como exceção. A misoginia continuou encontrando linguagem, justificativa e silêncio. Feminicídios se acumularam, muitas vezes tratados como fatos isolados, quando são expressão de uma mesma lógica de desumanização. Vidas foram interrompidas não apenas por armas, mas por discursos, por omissões, por um cotidiano que naturaliza o intolerável.
A crise climática deixou de ser advertência e passou a ser experiência direta. Calor extremo, eventos imprevisíveis, territórios devastados. A natureza respondeu, sem metáforas, ao modo como foi tratada. Ao mesmo tempo, cresceu a desinformação, a polarização social, a fragmentação dos laços. Verdades tornaram-se versões; versões viraram armas. Crises humanitárias se aprofundaram enquanto algoritmos otimizavam atenção, engajamento e esquecimento. O avanço tecnológico, tão celebrado, também revelou seus riscos: vigilância excessiva, fragilidade cibernética, dependência crescente de sistemas que compreendemos cada vez menos, mas aos quais entregamos cada vez mais.
E aqui a provocação não é acusação. É espelho.
Porque talvez o problema não seja a ausência de evolução, mas a sua distribuição desigual. Evoluímos tecnicamente mais rápido do que emocionalmente. Ampliamos capacidades sem expandir, na mesma medida, a responsabilidade. Criamos máquinas cada vez mais inteligentes enquanto seguimos frágeis na escuta, na convivência, no cuidado com o outro.
Então, diante desta última segunda-feira do ano, talvez valha uma pausa. Não para fazer listas de metas, mas perguntas de balanço.
Como foi seu 2025?
O que você fez para ser um pouco mais honesto consigo mesmo?
Como tratou quem estava perto: o vizinho, o colega, o desconhecido…?
Que tipo de presença você conseguiu sustentar?
Em quais momentos você repetiu o automático?
Em quais ousou interromper?
Não se trata de culpa, nem de redenção. Trata-se de consciência. De perceber que o tempo não muda nada sozinho. Que calendários organizam datas, mas não transformam pessoas. Que o ano vira porque o planeta gira, não porque aprendemos.
E talvez a pergunta final seja a mais desconfortável de todas:
como você vai fechar seu 2025?
Em corrida ou em pausa?
Em ruído ou em escuta?
Em repetição ou em pequeno desvio?
O calendário seguirá. Janeiro virá. Mas o que você leva consigo para o próximo hoje? Será que conseguimos? Ou será que ainda estamos apenas contando dias, enquanto algo essencial segue fora de contagem?



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