Não desejo um ano perfeito.
Perfeição cansa, adoece, mente bem.
Desejo um ano possível.
Habitável.
Um ano em que a vida caiba melhor dentro de nós
e nós caibamos um pouco melhor dentro dela.
Que 2026 não venha como promessa inflada,
mas como chão firme.
Não como corrida,
mas como passo.
Não como vitrine,
mas como casa.
Que seja um ano com menos pressa de ter razão
e mais coragem de escutar.
Menos respostas prontas,
mais perguntas bem feitas.
Menos ruído,
mais nuance.
Menos grito,
mais sentido.
Que aprendamos verdadeiramente
a sair da ignorância que nos protege
e da certeza que nos empobrece.
Que estudar não seja só acumular dados,
mas deslocar o olhar.
Que pensar não seja vaidade,
mas responsabilidade.
Que a saúde não seja apenas ausência de doença,
mas presença de vínculo.
Que o corpo seja tratado com dignidade,
e não como máquina explorável ou vitrine exausta.
Que descansar deixe de ser culpa
e passe a ser inteligência.
Que 2026 nos ensine a errar melhor.
A pedir desculpas sem espetáculo.
A reconhecer limites sem colapsar.
A dizer “não sei” sem vergonha.
A dizer “não” sem crueldade.
A dizer “sim” sem se perder.
Que haja menos idolatria da produtividade
e mais respeito pelo tempo humano.
Menos performance emocional.
Menos positividade obrigatória.
Mais verdade possível.
Mais silêncio fértil.
Mais humor diante da própria falência.
Que saibamos diferenciar sucesso de sentido.
Barulho de importância.
Aplauso de encontro.
Que 2026 seja um ano em que
a gente pare de romantizar o adoecimento
e comece a valorizar a lucidez.
Em que coragem não seja sinônimo de endurecimento,
mas de delicadeza sustentada.
Que possamos cuidar melhor das palavras.
Elas também ferem.
Elas também salvam.
Que usemos menos para atacar
e mais para construir pontes,
mesmo quando o outro não facilita.
Que haja espaço para a dúvida honesta,
para o afeto imperfeito,
para o pensamento lento.
Que a vida não precise ser extraordinária o tempo todo
para continuar valendo a pena.
Desejo um ano em que a ética não seja discurso,
mas gesto cotidiano.
Em que o outro não seja ameaça,
mas desafio humano.
Em que a diferença não seja motivo de guerra,
mas de aprendizado.
Que 2026 nos devolva o espanto.
Não o medo paralisante,
mas aquele espanto que abre.
Que nos permita reaprender a olhar
para o que ainda pulsa,
mesmo em ruínas.
Que saibamos rir de nós mesmos,
essa forma elegante de não enlouquecer.
Que saibamos amar sem promessa de controle.
Que saibamos insistir sem fanatismo.
Que saibamos parar sem culpa.
Não desejo um ano fácil.
Desejo um ano honesto.
Com tropeços,
mas também com mãos estendidas.
Com perdas,
mas sem desistir de sentido.
Com conflitos,
mas sem abdicar da humanidade.
Que 2026 não nos faça melhores que os outros,
mas melhores do que fomos
quando não sabíamos escutar,
quando confundíamos força com dureza,
quando chamávamos de normal o que já era violência.
Que seja um ano em que aprender doa menos
do que continuar ignorando.
Em que mudar não seja traição,
mas maturidade.
Em que viver não seja sobreviver.
E se nada disso acontecer por inteiro,
que ao menos haja tentativas honestas.
Já seria muito.
Já seria humano.
Já seria suficiente para começar.
Que venha 2026.
Sem fogos excessivos.
Com mais consciência.
Com mais vínculo.
Com mais vida onde ainda houver vida.
E que saibamos reconhecê-la.
Feliz Ano Novo!



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