Começa o ano
e, com ele, o ritual conhecido:
promessas em fila,
resoluções recém-impressas,
expectativas estourando cedo demais,
como fogos que fazem barulho
antes de iluminar qualquer coisa.
É janeiro
e o mundo exige melhora.
Rápida.
Visível.
Comprovável.
Faça listas.
Limpe a vida.
Recomece antes mesmo
de entender o cansaço.
O corpo ainda mastiga dezembro,
mas o discurso já corre adiante,
ansioso por março,
por resultados,
por versões futuras de si.
Detox do corpo.
Detox da mente.
Detox digital.
Detox emocional.
Detox de gente.
Como se viver fosse um erro acumulado
e o calendário oferecesse, magnânimo,
uma borracha branca
para apagar o que incomoda.
Há quem comece o ano
expulsando excessos:
o açúcar,
o silêncio,
a lentidão,
os vínculos que exigem presença
e não cabem em slogans.
Chamam isso de autocuidado.
Às vezes é só exaustão
tentando se organizar.
Porque o que intoxica
não é só o excesso,
é o excesso sem pausa.
Não é o pão,
é a culpa que o acompanha.
Não é o celular,
é a sensação de nunca poder descansar
do mundo,
nem de si.
O mundo pede leveza
enquanto acumula peso.
Pede clareza
num tempo que vive de ruído
e urgência.
Talvez o único detox possível
não venha em cápsulas,
nem em aplicativos,
nem em frases prontas.
Talvez seja algo menor,
menos heroico,
mais habitável.
Desintoxicar da ideia
de que todo ano precisa ser épico.
De que toda dor exige superação imediata.
De que toda vida precisa caber
num antes e depois convincente.
Menos metas.
Mais margem.
Menos correção.
Mais escuta.
O corpo sabe.
Ele não quer ser corrigido.
Quer ser ouvido.
Quer tempo de digestão,
intervalos sem função,
uma certa desordem viva
onde algo ainda possa respirar.
O corpo não quer virar projeto.
Quer continuar sendo abrigo.
Talvez o verdadeiro detox
não seja cortar o pão,
nem as redes,
nem as pessoas difíceis.
Talvez seja suspender,
por alguns dias,
a necessidade de explicar tudo.
Deixar que o ano comece
sem promessa inflada,
sem plano de salvação,
sem exigência de transparência total.
Mas com um suspiro lento e profundo.
Com algum silêncio que não assusta.
Com escolhas pequenas,
feitas com cuidado.
Com a coragem discreta
de permanecer.
Porque viver pode ser muito bom
quando não tentamos limpar a vida,
mas sustentá-la
com aquilo que fica,
com aquilo que escolhemos,
mesmo imperfeito,
mesmo incompleto,
mesmo nosso.



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