Ao assistir ao último episódio de Stranger Things, tive a sensação de não estar apenas acompanhando o desfecho de uma série, mas de atravessar um tempo que já não existe mais. E não falo apenas dos anos 1980, com suas bicicletas, walkie-talkies, músicas que ainda resistem ao tempo e uma infância vivida longe da onipresença das telas. Falo de uma experiência de mundo que hoje parece quase estrangeira.
Naquele tempo, a comunicação era limitada, mais lenta, cheia de ruídos e de ausências. Não estávamos permanentemente conectados, nem inundados por estímulos. O silêncio fazia parte da vida cotidiana e a imaginação tinha espaço para circular sem precisar disputar atenção com algoritmos. A infância, ali, parecia menos apressada. O tempo tinha outra densidade. As coisas aconteciam, e havia tempo para que elas fossem sentidas.
O que me chama atenção em Stranger Things é justamente esse contraste. A série não funciona apenas como um exercício de nostalgia, mas como um espelho invertido do presente. Ao nos conduzir de volta a um mundo sem hiperconectividade, ela evidencia o quanto hoje vivemos sob a lógica da aceleração constante, da produtividade contínua e da urgência permanente. Tudo precisa acontecer rápido, ser registrado, compartilhado, explicado. Pouco espaço resta para a espera, para o erro, para o não saber.
Talvez por isso a série toque tantas pessoas, inclusive a mim. Não porque idealize o passado, mas porque nos lembra de uma forma de estar no mundo em que as relações exigiam presença real. Amizades se construíam na repetição dos encontros, no tédio dividido, na aventura improvisada. Havia risco, havia frustração, havia silêncio. E havia, sobretudo, tempo para que as experiências deixassem marcas.
Ao acompanhar esses personagens, sinto que não estou apenas olhando para uma história ambientada em outra época, mas reencontrando algo que ficou para trás na nossa maneira de viver. Uma relação mais direta com o tempo, com o outro e com a própria imaginação. Algo que hoje parece raro, mas que ainda reconhecemos como profundamente humano.
É a partir desse terreno afetivo e temporal que Stranger Things começa a contar sua história. E talvez seja por isso que, antes mesmo de falar em monstros, mundos paralelos ou poderes sobrenaturais, a série já nos convide a uma pergunta silenciosa. O que perdemos quando o tempo deixa de ter espessura e tudo precisa fazer sentido imediatamente?

Não é sobre heróis, é sobre vínculos
Quanto mais penso em Stranger Things, mais me convenço de que a série nunca foi, de fato, sobre heróis, poderes especiais ou batalhas espetaculares entre forças sobrenaturais. Esses elementos existem, claro, mas funcionam muito mais como linguagem do que como centro da narrativa. O que sustenta a história, do início ao fim, são os vínculos.
O que me prende à série não são os monstros, mas as amizades. A insistência em permanecer junto quando tudo desmorona. A lealdade que não se explica por vantagens, mas por afeto. Há algo de profundamente humano nessa recusa em abandonar o outro, mesmo quando o medo é maior do que a coragem.
Nesse sentido, o “mal” apresentado pela série nunca me pareceu apenas uma entidade externa. Ele se manifesta como ruptura, como ameaça ao laço, como aquilo que invade quando algo não pôde ser elaborado. O Mundo Invertido pode ser lido como esse espaço onde ficam depositados os excessos, os traumas, o que não encontrou palavras. Não por acaso, ele é sombrio, silencioso, repetitivo. Um lugar onde o tempo parece suspenso, como acontece com experiências psíquicas que não conseguem se integrar à narrativa da vida.
O embate central, portanto, não é apenas entre personagens e criaturas, mas entre modos de lidar com a perda, com o medo e com a finitude. O mundo que a série apresenta não oferece garantias nem explicações definitivas. As coisas simplesmente acontecem, muitas vezes de forma injusta, abrupta ou incompreensível. Ainda assim, os personagens seguem em frente. Não porque tenham certeza de que tudo fará sentido no final, mas porque a vida continua exigindo escolhas mesmo quando o sentido falha. Permanecer junto, nesse cenário, deixa de ser um ato heroico e passa a ser um gesto profundamente humano.
Talvez seja por isso que Stranger Things dialogue tão bem com quem assiste. A série não promete salvação nem finais plenamente organizados. O que ela oferece é outra coisa. A possibilidade de que, diante do caos, não sejamos engolidos pelo medo. Que possamos sustentar os laços. Que o encontro com o outro funcione como uma forma de resistência silenciosa.
Essa leitura desloca Stranger Things de uma narrativa de vitória para uma narrativa de sustentação. Não se trata de vencer o mal definitivamente, mas de não se deixar capturar por ele. De não permitir que o medo dissolva os vínculos. De seguir apostando na amizade, mesmo quando o mundo parece perder a forma.
É justamente essa aposta que começa a ganhar contornos mais explícitos no final da série, quando a narrativa parece se recusar a entregar respostas fechadas e nos convoca a algo mais delicado. Não entender tudo. Não dominar tudo. Mas, talvez, acreditar.
O final que não explica, mas convida a acreditar
Depois do último episódio de Stranger Things, algo me chamou mais atenção do que qualquer cena espetacular ou reviravolta narrativa. Não foi exatamente o que aconteceu, mas o que não foi dito. O modo como a série escolheu terminar sem fechar completamente sua própria história.
Nas redes sociais, as reações foram imediatas e polarizadas. Houve quem se sentisse frustrado, quem afirmasse que a série se perdeu, que não entregou tudo o que prometia. Outros responderam dizendo que as críticas vinham de quem “não entendeu o final”. Esse embate, por si só, já diz muito. Parece que hoje esperamos das narrativas algo semelhante ao que exigimos da vida: coerência total, respostas claras, sentido imediato.
Mas Stranger Things faz outra escolha. Ao sugerir que Eleven teria sobrevivido e estaria vivendo longe dali, a série não confirma nem desmente essa hipótese. Quando Mike termina de formular sua explicação teórica, os amigos simplesmente respondem: “I believe”. Não dizem “faz sentido”, não dizem “concordo”, não dizem “é verdade”. Dizem que acreditam.
Esse detalhe me parece central. A palavra escolhida não aponta para a lógica, mas para a aposta. Acreditar não é comprovar. Não é explicar. É sustentar uma narrativa mesmo na ausência de garantias. Ao usar esse verbo, a série devolve ao espectador a responsabilidade pelo sentido. Cada um decide se acredita ou não. Cada um escolhe como quer contar essa história para si.
Essa escolha me remeteu imediatamente a As Aventuras de Pi. No filme, Pi apresenta duas versões da mesma experiência traumática. Uma é dura, literal, quase insuportável. A outra é fantástica, cheia de animais, simbolismos e beleza. No final, ele não pergunta qual é a verdadeira. Pergunta qual é melhor. Qual história faz mais sentido para continuar vivendo.
Stranger Things parece fazer algo muito semelhante. A história com monstros, mundos invertidos, poderes e batalhas talvez não seja a mais “realista”, mas é certamente a que dá forma à série. Não porque negue a dor, o medo ou a perda, mas porque oferece uma forma de organizá-los em narrativa. A imaginação, aqui, não aparece como fuga, mas como recurso psíquico. Um modo de dar forma ao que, de outro modo, permaneceria bruto demais.
O incômodo de parte do público talvez venha justamente daí. Aceitar um final que não explica tudo exige abrir mão do controle. Exige tolerar a ambiguidade. Exige admitir que nem toda história precisa ser fechada para continuar fazendo sentido. Em um tempo que exige respostas rápidas e certezas permanentes, acreditar passa a ser quase um gesto subversivo.
Ao escolher não responder, a série não falha. Ela aposta. E nos inclui nessa aposta. O final não nos entrega uma verdade, mas nos oferece uma pergunta silenciosa. Que história escolhemos contar quando não temos todas as peças? A que explica tudo ou a que permite seguir?
E talvez seja aí que Stranger Things deixe definitivamente de ser uma série sobre o sobrenatural para se tornar uma reflexão sobre algo muito mais cotidiano. A maneira como lidamos com o que não sabemos. Com o que não se resolve. Com o que permanece em aberto.
O jogo, a narrativa e aquilo que se transmite
Há outra cena no final em Stranger Things que, à primeira vista, pode parecer simples, quase discreta. Depois de tudo o que foi vivido, os personagens se reúnem em torno de uma mesa, encerram uma partida de Dungeons & Dragons e fecham seus livros. Não há fanfarra, não há explicações finais. Apenas o gesto de concluir um jogo.
Logo depois, ao deixarem o espaço, vemos os irmãos mais novos ocuparem aquele mesmo lugar para iniciar uma nova partida. O jogo continua, mas os jogadores mudam. Essa passagem me parece uma das imagens mais delicadas e potentes de toda a série.
Dungeons & Dragons não é apenas um detalhe cultural dos anos 1980. Trata-se de um jogo de interpretação, de criação de personagens, de construção coletiva de histórias. Não há roteiro fechado. Há regras, dados, acaso e, sobretudo, imaginação compartilhada. Cada decisão altera o curso da narrativa. Cada jogador sustenta um papel, mas a história só existe porque é construída em conjunto.
Nesse sentido, Stranger Things parece assumir abertamente sua própria estrutura. A série funciona como um grande RPG. Há monstros, mundos paralelos, desafios quase impossíveis. Mas nada disso faz sentido sem o grupo. Sem a escuta, a cooperação, o risco dividido. O herói isolado não sobrevive. É o coletivo que sustenta a travessia.
A tentação de pensar que toda a série teria sido apenas um jogo de RPG existe. Mas, se levada ao pé da letra, ela empobrece a experiência. Não porque seja falsa, mas porque perde o essencial. O valor não está em saber se foi “real” ou “imaginação”, e sim no fato de que jogar, contar histórias e criar mundos são formas profundamente humanas de lidar com o real.
O gesto final não fala apenas de encerramento, mas de transmissão. Algo foi vivido, elaborado, transformado em narrativa. Agora, isso pode ser passado adiante. Não como repetição idêntica, mas como possibilidade. A nova geração ocupará o espaço com outras histórias, outros medos, outros monstros. Mas a estrutura permanece. Reunir-se. Imaginar juntos. Apostar na narrativa como forma de atravessar o desconhecido.
Talvez seja esse o verdadeiro fechamento da série. Não a resolução de todos os conflitos, mas a confirmação de que contar histórias é uma maneira de habitar o mundo. Quando a realidade se torna excessiva, quando o sentido falha, quando o medo ameaça paralisar, seguimos jogando. Seguimos narrando. Seguimos criando mundos possíveis para não sucumbir ao caos.
E é a partir desse ponto que Stranger Things se abre para algo ainda maior. Uma reflexão sobre tempo, dimensões, rupturas e aquilo que escapa à nossa capacidade de compreender plenamente. É para esse território que a série nos conduz a seguir.
Tempo, mundos paralelos e os limites do que podemos compreender
Ao longo de Stranger Things, surgem conceitos que pertencem ao vocabulário da física e da cosmologia. Mundo invertido, outras dimensões, buracos de minhoca, dobras no espaço-tempo. Em um primeiro olhar, tudo isso pode parecer apenas um recurso de ficção científica. Mas, quanto mais observo, mais me parece que a série usa a ciência menos como explicação e mais como metáfora.
Não se trata de ensinar física ao espectador, mas de apontar para algo mais inquietante. A ideia de que o tempo não é linear, de que podem existir camadas simultâneas da realidade, de que há zonas que escapam à nossa percepção cotidiana. Conceitos que dialogam com reflexões de Stephen Hawking, mas que, aqui, ganham um uso claramente simbólico. O desconhecido não aparece como algo a ser dominado, e sim como algo com o qual precisamos conviver.
O Mundo Invertido pode ser pensado como aquela sensação de quando tudo muda e nós ainda não acompanhamos. O mundo segue, as pessoas seguem, a vida acontece, mas algo em nós fica fora de compasso. O que antes era familiar se torna estranho, e é preciso reaprender como estar ali. Não porque tudo tenha acabado, mas porque nada responde exatamente como antes.
Talvez por isso Stranger Things nunca se preocupe em explicar completamente como esses mundos funcionam. A série parece compreender que certas coisas não se deixam capturar por fórmulas ou esquemas. Há limites para o entendimento humano. E insistir em ultrapassá-los pode gerar mais angústia do que esclarecimento.
Vivemos, hoje, em uma cultura que exige compreensão total. Tudo precisa ser explicado, classificado, traduzido em dados. O mistério é visto como falha, a dúvida como fraqueza. Stranger Things caminha na contramão desse impulso. Ela nos lembra que nem tudo precisa ser resolvido para ser vivido. Que existem dimensões da experiência que pedem respeito, silêncio e tempo.
O tempo, aliás, ocupa um lugar central. Não apenas como tema, mas como sensação. A série fala de passagem, de fim de ciclos, de despedidas. Os personagens crescem, os corpos mudam, as relações se transformam. O jogo termina. O espaço é ocupado por outros. O que fica não é a permanência, mas a marca deixada pelos encontros.
Ao final, tenho a impressão de que Stranger Things não fala tanto sobre universos paralelos, mas sobre a nossa dificuldade em aceitar que o mundo não é inteiramente inteligível. Que viver implica lidar com fissuras, com zonas de sombra, com aquilo que não se fecha. E talvez amadurecer seja justamente isso. Aprender a habitar um mundo que não se explica completamente, sem abandonar o desejo de sentido, mas também sem exigir que ele venha pronto.

Conclusão
No fim, Stranger Things termina exatamente onde começou. Entre o jogo e a realidade. Entre o medo e o vínculo. Entre aquilo que pode ser explicado e aquilo que só pode ser sustentado.
A série não nos oferece uma verdade definitiva. Ela nos coloca diante de uma escolha. Acreditar, aqui, não significa negar o real, fechar os olhos para a dor ou suavizar o que é difícil. Acreditar é escolher uma narrativa que permita continuar vivendo quando as respostas falham. É aceitar que nem tudo se resolve, mas ainda assim pode ser atravessado.
Stranger Things nunca foi, de fato, sobre monstros. Foi sobre o que fazemos quando o mundo perde a forma, quando o tempo nos atravessa sem pedir licença, quando as certezas se desfazem. Foi sobre permanecer junto quando seria mais fácil recuar. Sobre sustentar os vínculos quando o medo tenta isolar. Sobre transformar o caos em história para que ele não nos engula.
Talvez seja por isso que o verbo final não seja explicar, provar ou compreender. Seja acreditar. Não há como saber ao certo o que aconteceu. Não há confirmação, não há fechamento absoluto. Há apenas uma hipótese compartilhada, um silêncio breve, um acordo afetivo que se sustenta mais pela confiança do que pela lógica.
Se existem explicações ocultas, se Eleven sobreviveu ou não, se há detalhes cuidadosamente escondidos que sustentam algumas das teorias que circulam pelas redes sociais, eu não sei. Talvez não haja como provar. Mas eu acredito.
E você, acredita?

