Reminiscências do fim de ano

Passadas as festas, o consultório volta a se preencher de presenças que chegam antes das palavras. O início do ano tem um ritmo próprio. O mesmo sofá, a mesma luz atravessando a janela, o mesmo silêncio inicial. Ainda assim, algo se apresenta diferente. Não é o acontecimento vivido nos encontros familiares, é o que ficou depois. Certos temas retornam com a naturalidade de quem conhece o caminho.

As falas reaparecem com pequenas variações. Um detalhe que escapa, um cansaço mais evidente, uma pausa que se alonga. Nada se precipita. Nada se organiza por completo. O que retorna é um efeito persistente, algo que se instala no corpo antes de encontrar frase. Um peso discreto, desses que não pedem dramatização, apenas escuta.

Com o tempo, as cenas conhecidas se aproximam. Expectativas que se cruzam sem se encontrar. Silêncios passados adiante como objetos de família. Almoços que começam leves e vão se tornando densos. Rivalidades antigas que reaparecem travestidas de cuidado. Escolhas que precisam ser explicadas mais de uma vez. Afetos oferecidos com ressalvas invisíveis.

Nada disso surpreende. O desconforto nasce justamente da familiaridade. O corpo reconhece antes que a consciência organize. A garganta aperta sem aviso. O cansaço chega cedo. São histórias que não fazem ruído, seguem insistindo. Pedem espaço, pedem permanência, pedem que não sejam afastadas às pressas.

Há também aquilo que nunca encontrou lugar na fala. Histórias mal contadas, versões interrompidas, acontecimentos que perderam o direito de ser narrados. Permaneceram ali por excesso de peso. Afetos contidos cedo demais. Palavras que circularam sem pouso e se transformaram em clima, gesto, cuidado exagerado, afastamento calculado.

O que não foi dito segue organizando os lugares. Define distâncias, regula movimentos, molda escolhas. Algumas experiências ultrapassam o que uma família consegue simbolizar. Permanecem presentes de outro modo, silencioso e persistente. Quando isso se torna visível, a pergunta muda de lugar. Já não se trata de resolver o que ficou pendente, mas de reconhecer o que foi possível sustentar.

Nesse terreno surge um peso sutil. Uma sensação de dever constante, difícil de localizar. Responsabilidades herdadas sem contrato explícito. Lealdades silenciosas que pedem permanência, concordância, esforço contínuo. Aprende-se cedo que tentar mais um pouco parece sempre a resposta adequada. Ajustar-se de novo, ceder outra vez, escolher palavras com mais cuidado.

Esse peso se confunde com amor. Por isso demora a ser reconhecido. Aparece no excesso de zelo, na dificuldade de dizer não, na inquietação que surge quando se escolhe diferente. Aprende-se por convivência, pelo clima, pelas repetições pequenas que formam um senso de obrigação difícil de nomear.

Até que um deslocamento discreto começa a se desenhar. Uma mudança de posição, quase imperceptível. Algumas famílias oferecem limite. Um limite que organiza, que delimita, que protege de se perder. Certas histórias pedem borda. Pedem contorno. Pedem um lugar menos central na vida de quem as carrega.

Alguns vínculos encontram mais saúde quando são relocalizados. Fora do centro, deixam de orientar todas as escolhas. Esse movimento não traz alívio imediato. Ele exige renúncia. Renúncia à fantasia de resolução completa. Renúncia à ideia de que amadurecer é insistir sem fim. Com o tempo, torna-se possível aceitar o incompleto sem transformá-lo em culpa.

Quando isso acontece, o “eu deveria” perde protagonismo. Cede espaço a um cuidado mais silencioso consigo mesmo. Um cuidado que não precisa ser explicado nem aprovado. Um cuidado que respeita limites internos e reconhece o próprio cansaço.

Seguir vivendo não exige quitação emocional. Algumas histórias permanecem abertas e ainda assim permitem continuidade. A vida pede sustentação. Pede presença. Pede atenção ao que é possível agora.

Depois das festas, quando o barulho diminui e algo se reorganiza por dentro, surge essa possibilidade. Um modo mais respirável de conviver com as próprias histórias. Um jeito de seguir adiante com mais gentileza, mais lucidez e uma esperança discreta, dessas que não prometem resolução, apenas companhia ao longo do caminho.


Eu sou Renne

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